Elitista, eu?
Postado em May 1, 2010
Categoria cotidiano | 6 comentários
(texto escrito sem qualquer critério de ordenação por pura preguiça)
Dou-lhes de bandeja, para uso enquanto corpus de análise, um retrato breve dos meus dias nesta terra brasileira chamada Ourilândia do Norte. Quando não estou foragido no quarto da esposa (sim, estamos em quartos separados), estamos juntos n’algum hotel a poucos metros de distância – tem sido comum pegar táxi para ir onde iríamos caminhando, estivéssemos em Belo Horizonte. Para que entendam: estamos, eu e minha pequena, no que chamam ‘alojamento’, um ajuntamento de quartos com uma ou duas camas, tv, frigobar, uma mesinha, um guarda-roupa e um banheiro. A única separação entre um quarto e outro é um ‘compensado de madeira’ – o que justifica o supramencionado: se eu quiser ter com a minha mulher, preciso sair daqui.
Parêntesis. O meu cargo aqui me reserva o direito de ficar numa suíte; quando cheguei, há pouco mais de um mês, a recepcionista não atentou para esse fato e eu não quis reivindicar a regalia, mesmo porque não sabia o que me esperava. Botaram-me num quarto cujo banheiro é compartilhado com o sujeito que fica no outro quarto, ao lado. Funciona assim: se eu vou usar o toalete, preciso trancar a porta do hóspede vizinho, e vice-versa. Deu certo por uma semana, mais ou menos, na medida do possível. Daí comecei a notar que todos os dias, ao chegar no quarto no fim do dia, um cheiro muito estranho tomava o lugar e eu não conseguia bem identificá-lo (sou péssimo com sabores e aromas), e isso aconteceu dia após dia até que, ao ver por acaso o vizinho fora do quarto algumas vezes, liguei os pontos: como é proibido fumar dentro dos quartos, ele, após fumar dentro do quarto, acendia logo um incenso para disfarçar. Nada contra cigarro, mas tudo contra cigarro misturado a incenso. Meu Deus, como sou prolixo, não era disso que eu queria falar. Como ia dizendo, ao usar o banheiro comum, é preciso trancar a porta do vizinho e, elementar, DESTRANCÁ-LA após o uso. E por quatro ocasiões, quatro, fiquei trancando do lado de fora do banheiro – e justamente de manhã, quando precisava tomar banho para ir trabalhar. No primeiro dia bati na porta algumas vezes e nada, o vizinho já havia saído. A alternativa foi correr para o quarto da esposa e tomar banho lá. Na segunda vez foi a mesma coisa, e então, ao fim do mesmo dia, chamei o vizinho pela porta da frente (não pela do banheiro) e, em tom de brincadeira, disse: “o sr. se esqueceu de destrancar banheiro pela terceira vez, hein!” Ele, um senhor gordinho, ficou todo embaraçado, fez cara de “tsc tsc” e pediu desculpas. No dia seguinte, repetiu a mesma façanha e daí eu já não sabia se o cara era lerdo ou estava de marcação comigo. Aí já era demais e então eu só quis saber da minha suíte de compensado, onde estou agora. Fecha parêntesis.
Pode parecer que o que escrevi acima configura algum tipo de reclamação e não é verdade; estar no alojamento é um luxo. Lá fora, nas ruas de terra desse lugar em meio à floresta amazônica, debaixo de um sol de quase 50 graus (fora de brincadeira), onde traços de civilização não passam disso, traços, onde sequer chegam jornais e pessoas semi-analfabetas e muito pobres ganham a vida com pequenos comércios à beira da única estrada mais ou menos asfaltada que existe aqui, bom, lá fora é bem pior. Por exemplo: não há transporte público, não há água potável, escolas são poucas e a maioria de nível fundamental e sem a menor infraestrutura. Faculdade, desnecessário dizer, é sonho. Segurança pública é uma galhofa: são SEIS policiais militares para cuidar de todo o município e não existe 190. Nem vou falar do sistema de saúde.
Todos os meus amigos perguntam como é que estou agüentando viver aqui e, eu sei lá, vai ver não esteja. O que sinto é que estou metido num expediente de trabalho em campo que vai durar por uns dois anos. Não posso negar as experiências minimamente pitorescas pelas quais muitos pagam, como, sei lá, sobrevoar a Amazônia num bimotor. Mais do que me impressionou a floresta, deixou-me de boca aberta a quantidade de assentamentos do MST que se vê aqui – casinhas de palha, bambu etc., nada de lona. E como eu odeio o MST.
Sinto imensa falta dos meus livros, imensa. Trouxe comigo um Petrônio, um Salinger e o livro dos Wunderblogs (que deixei ou no avião ou num hotel, um pesar) e, quando fui a Belém, comprei o livro do Reinaldo José Lopes. Li todos e agora, vivendo só à base de internet no que toca a leitura, confirmo o que já sabia: preciso de cheiro de livro. Isso se resolve nos próximos dias: nossa mobília e meus livros farão uma viagem de cinco dias até aqui. A vida deve ficar mais leve.
Parabéns. Creio que eu não conseguiria a façanha de viver nesse lugar.
Certeza que conseguiria.
Ah, e que bonitinho a sua sutileza de “ter com a sua mulher”.
Para quem sabe ler, um ‘ter com’ basta, né?
Podia ser pior, podia… Mas também podia ser melhor, neah?
Cara: PODIA.