verfremdungseffekt
Postado em February 2, 2010
Categoria cotidiano | 6 comentários
Como noviço residente de apartamento, outro dia perguntei no twitter sobre a mais adequada conduta a se adotar nessas moradas de babel (quanto às gentes, não quanto à língua; ok, também quanto à língua): ser amigo de todo mundo ou ignorar completamente a existência dos vizinhos. A vontade mais sincera, quanto mais próximos de mim os outros moradores, é fingir que eles não existem at all, mas não é sempre que dá. Fingimento é uma pose que eu respeito e aprecio muito, mas que tem uma falha: depende muito de outrem. Não dá para crer o tempo todo que o prédio é só meu porque, afora morar no primeiro andar (101), um dos meus quartos encima a área comum, onde as crianças desgraçadas brincam, correndo como, er, como crianças, e gritando, e se dependurando nas minhas grades, olhando o que não lhes interessa. Jogando Resident Evil4 num final de semana, sobressaltei-me com duas cabecinhas mulatas na minha janela, olhos arregalados por causa do que acreditavam ser zumbis: “nossa, alá o monstro zumbi, nossa, mata ele moço”. Não são zumbis, suas pestes! Essas pessoas estão infectadas com La Plaga, um verme terrível. Disse isso e eles permaneceram lá, dependurados, porém menos mulatos porque brancos de susto.
Outra coisa engraçada é se sentir naquele filme, Os Outros, nas reuniões de condomínio. Eles lá, falando aquelas besteiras, e você achando, ou querendo, que não.
Eu finjo que eles não existem. Nunca cogitei a possibilidade de existir outro meio de lidar com vizinhos.
Se bem que uma vez minha gata migrou para o apartamento do vizinho e ele veio com ela nos braços me devolver, mui gentilmente. Se fosse o filho dele que tivesse migrado para o meu, certamente eu o devolveria aos pouquinhos, por partes.
Vizinhos são criaturas abomináveis cuja vida se infiltra por frestas e cantos para dentro da nossa, e tudo fica desagradável e trivial. Fingir que eles não existem, e que moro num castelo na Escócia sobre o mais alto rochedo, protegido por torres, muralhas e arqueiros, é a maneira razoável e mentalmente saudável que encontrei de conviver com essa espécie.
Olá, Badá. A sua postura é, olha, muito adotável. E arqueiros não seriam má ideia.
Arqueiros cobram caro. Raçazinha mais-ou-menos.
reuniões de condomínio são a melhor coisa do mundo. sento no fundo e rio do início ao fim. as pessoas são tão pequenas que até nessas reuniões querem aparecer, falar “bem”… falar desnecessariamente.
São uma pilhéria – mas não mencione essa palavra durante uma.
Por aqui não há tais reuniões – o prédio é familiar, logo a alcovitagem inibe a necessidade de se agregar.
A sala da reunião é ao menos ventilada?