Esquizofrenia literária e tal

Postado em July 10, 2009
Categoria Literatura, opinião | 6 comentários

Estou a ler o Exit Ghost, do Roth. Ainda no comecinho, mas tenho gostado. No ponto no qual parei um jornalista desejar entrevistar o nosso já conhecido Zuckerman a fim de colher informações sobre outro escritor, um tal Lonoff, já morto. O objetivo do jornalista, um sujeitinho de 28 anos, é, claro, escrever uma biografia. “Para quê?”, pergunta Zuckerman. “Para revelar os segredos do autor”. “Revelar segredos para quê?” O diálogo não acontece exatamente assim, mas vocês entenderam.

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Eu nunca fui à FLIP, não sou grande entusiasta de feiras, concursos e eventos correlatos (minha opinião sobre isso é já bem conhecida), mas fiquei um bocado decepcionado com esse artigo, publicado no site da revista Dicta e Contradicta – da qual gosto muito. Afirmar a que a feira literária é um “sintoma da esquizofrenia literária e cultural que atingiu o Brasil” é, além de um exagero dos diabos, uma grande bobagem. Martim Vasques da Cunha, autor do texto, argumenta que essa “esquizofrenia” se deve ao fato de que, enquanto “escritores ruminam sobre o fracasso, o seu público deseja somente o sucesso”. Cunha fala em “dissonância cognitiva”, um negócio que qualquer leitor conhece muito bem: aquilo que se lê não é o que se esperava/ desejava ler – e isso, em hipótese nenhuma, anula o prazer da leitura. Noutros termos: há um abismo entre o que pensa o autor e o leitor. Ora, falei em Philip Roth e aqui novamente o cito: alguém que, aos 25 anos, já tenha lido Everyman ou esse mesmo Exit Ghost terá se identificado profundamente com aquela literatura? Não deveríamos, então, dizer que o mundo literário, todo ele, padece de, humn, esquizofrenia?

Comentários

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6 Comentários »

2009-07-10 15:21:59

Caro:

Mas é claro que o mundo literário padece de esquizofrenia! E por um motivo já apontado pelo próprio texto: a verdadeira literatura só fala do fracasso da condição humana. O problema da FLIP é que ela escamoteia o problema, joga-o para debaixo do tapete e vende a literatura como se fosse um “show de moda”.

By the way, se vc gostou de “Exit Ghost”, vai gostar de “Indignação”, que é muito melhor.

Abraços

Martim Vasques da Cunha

2009-07-10 15:29:38

Olá, Martim. Concordo com você quanto ao fato de que feiras como a FLIP diminuem o problema, ou sequer atentem para ele. É uma verdade aplicável ao universo literário, não especialmente ao Brasil.

Não conheço o Indignação; obrigado pela dica.
Abraço.

 
 
Emmanuel
2009-07-13 20:17:38

Edson,

Para mim, o principal problema na argumentação do artigo é a afirmação um tanto unilateral de que “a verdadeira literatura é uma obsessiva reflexão sobre a perda, o sofrimento, a dor – e sobre o fracasso”. Isso me faz pensar no poema “Ode à alegria” (”An die Freude”), de Schiller. Será que não se trata de uma obra de “verdadeira literatura”? O simples fato de Beethoven o ter escolhido como letra para o coro no final de sua “Nona sinfonia”, certamente uma das maiores realizações do espírito humano de todos os tempos, já oferece um indício que se trata de um poema de verdade, e dos bons.

É claro que se pode dizer que o poema, ao fazer uma exortação à alegria, na verdade aponta para uma situação de carência no momento presente; mas é aquele tipo de argumento que tenta reduzir todos os exemplos contrários em exceções que confirmam a regra. Não acho que se possa estabelecer uma unidade temática que determine o que é e o que não é um texto literário “verdadeiro”. Será que não há poesia na felicidade? Schiller e Beethoven achavam que sim. E Nietzche! Mas talvez os tempos sejam outros, ou talvez não…

No mais, o artigo remói o velho lugar comum que vem desde o século XIX de que há uma distância intransponível entre o gosto vulgar do público e a “nobreza” das “verdadeiras” obras de “arte”. Não entrarei no mérito da questão, porque certamente o gosto do público, em geral, é mesmo vulgar; o que faltou dizer, porém, é que talvez também seja vulgar a literatura que nessas ocasiões é apresentada ao público como biscoito fino. Estou enganado, ou o sofrimento não pode ser bobo também?

O artigo acerta no óbvio: essas feiras são eventos muito mais publicitários do que qualquer outra coisa, mas isso é elementar, meu caro Watson, e ninguém receberá um Pullitzer por haver descoberto isso. Para mim, o autor tenta esconder a banalidade do que diz com uma teoria fajuta, que tenta aprisionar a literatura numa definição simplista.

Será que essa seriedade trágica que o autor procura na literatura não é ela também um modismo, alguma coisa imposta pelo mercado? Será que no mundo de hoje, em que a publicidade e a medicina nos dizem que temos a obrigação de sermos felizes, de banir a dor de nossas vidas e de ter um corpo saudável, será que nesse mundo a literatura não se tornou uma espécie de realidade virtual onde podemos ter a ilusão de não termos perdido uma parcela de nossa humanidade, quando, de fato, já a perdemos? Será que a necessidade de que toda a literatura digna do nome seja seriamente trágica não é um modo de substituir uma experiência que se perdeu?

Para mim, todas essas pessoas que o autor define no texto como a expressão do “sucesso” estão justamente atrás desse sofrimento de mentirinha que viria a dar uma falsa sensação de completude e profundidade para as suas almas. Depois disso, voltam para suas casas e tomam antidepressivos, ansiolíticos, e vão dormir, livres de seus pesadelos e de qualquer sofrimento palpável. Essas pessoas pagam os escritores para se preocuparem com o fracasso por elas. Tanto que muitos desses escritores já nem sentem mais (haverão sentido algum dia?) aquilo do que suas obras tratam.

Resumindo, o artigo é para mim uma tentativa de dar um ar requintado para observações requentadas.

Lemos
2010-02-06 18:43:36

Claro que não concordo que literatura tem na retaguarda um esquisofrênico. Jamais vi fracasso, dor, algum sofrimento em Drummod de Andrade, em Guimarães Rosa, em Cecília Meireles, em Jorge Amado, assim como em tantas outras leituras de tantos quantos ótimos autores brasielieros ou não. O que vejo é uma sensibilidade a mais em refletir a vida. Coisa essa nem sempre ao alcance do leitor observar sem a riqueza literária. Sobre a leitura de esquisofrenia literária, concordo com o comentário enriquecedor do Emmanoel, um requinte ao requentado. E acrescento: tudo bobagens! Quando escrevo (e escrevo muito), nada de padecimento pessoal está me levando a isso. Quando falo que há miséria nos cantos do mundo e quem nasce nela nasce para sofrer e chorar, não estou em padecimento, nem em fracasso pessoal. Quem está fracassando é a gerência do mundo.

 
 
2009-08-26 18:49:23

Olha, gostei daqui.
Quero voltar com calma e fazer intrigas literárias, tá bem?

 
2010-02-02 04:22:49

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