Travelling song
Postado em October 25, 2008
Categoria viagem | 8 comentários
Pus o Givenchy na bolsa e parti. Minto. Antes de partir pus também na bolsa duas câmeras fotográficas, um gravador, um carregador de pilhas, um creme dental, uma escova de dente, um bloco novo de post-it amarelo, a última revista piauí, o celular carregado de mp3, uma camisa pólo verde musgo, um blazer, um rolo de fita crepe, umas três canetas, cartões de crédito e algum dinheiro. Isso na quarta-feira última, mais ou menos às 13h, quando me sentei à janela no ônibus contratado pela empresa para nos levar, a mim e a umas 20 ou 25 pessoas, entre as quais biólogos, veterinários, médicos, pesquisadores, estudantes etc., à cidade de Uberaba, a uns 500km de Belo Horizonte.
A viagem durou umas nove horas, com uma parada em Luz e outra em Araxá. Eça de Queiroz e seu sarcasmo em A Relíquia me acompanharam por uns 100km [“um dia, um rapaz já de buço chamou-me no recreio ‘lambisgóia’. Desafiei-o para as latrinas, ensangüentei-lhe lá a face toda, com um murro bestial. Fui temido. Fumei cigarros.”] e depois, olhos já cansados, pus-me a ouvir, com gosto, o Dear Catastrophe Waitress, da Belle & Sebastian, e a música algo indie-bucólica se misturava à paisagem. Paisagem que, a propósito, fez-me pensar Deus, como esse Greenpeace é maçante, tanto é o verde espalhado por aí (tenho fotos, posso provar).
Esqueço-me de contar o que eu ia fazer por lá. Meu destino era o mesmo dos que iam comigo: a 24ª Reunião de Pesquisa Aplicada em Doença de chagas/ 12ª Reunião de Pesquisa Aplicada em Leishmanioses. Coisa de cientista. E lá ia eu, única pessoa no ônibus para quem o barbeiro é um hospedeiro e não um vetor.
Cheguei ao hotel, de nome Grande Hotel, por volta das 22h, cansado como o quê e com os joelhos em frangalhos. Não preciso falar da roupa amarfanhada. Notei à entrada do prédio um café chamado Metrópole e, após deixar minha bagagem no quarto 515, no 5º andar, voltei lá para tomar alguma coisa. E tomei um suco. Beber sozinho é coisa chata e eu não estava digamos disposto a chamar biólogo algum para me acompanhar – se bem que com veterinárias pode-se ter uma conversa cute.
E subi para conhecer o meu quarto. Mencionei que o hotel era dos anos 30? Claro que estou supondo, mas o telefone de disco, a banheira de água fria, o design da ducha, o criado-mudo, o guarda-roupa, as portas e janelas, os lustres etc. me diziam isso.
Cumpri as obrigações higiênicas, fotografei alguns pontos do lugar e me deitei. Deitado, tentei ler, mas não passei mais que duas páginas. Liguei para a rodoviária para checar os horários de partida da rota Uberaba-Belo Horizonte do dia seguinte, liguei para a casa, para a pequena e, após convencê-la de que, sim, eu estava sozinho, apaguei as luzes. E como tenho o sono mais desgraçado do mundo, não dormi mais que três horas aquela noite.
Às 6h10 saltei da cama. Organizei minhas coisas que nem tinha tido tempo de atrapalhar, fui ao 2º andar para o café, peguei uma maçã e voltei ao quarto. No telefone de parede um adesivo dizia “Disque 9 para falar com a recepção”. Disquei e pedi um taxi. Precisava estar no campus da Universidade Federal do Triângulo Mineiro às 7h a fim de montar uma exposição sobre Emmanuel Dias, fotografar o lugar e entrevistar algumas pessoas que chegavam de vários lugares do país. Meu trabalho era esse.
Às 11h eu já estava na rodoviária, levado por um taxista que foi vizinho de Chico Xavier, e meu ônibus só sairia uma hora depois. Fui a uma lojinha dessas de revistas, DVDs e souvenirs. Quis saber qual era o principal jornal de Uberaba e a moça me disse, num sotaque paulista interiorano, que era o Folha da Manhã. Comprei o jornal e vi que o Caderno 2 era todo coluna social [fulaninha debuta hoje etc.]. E fui procurar alguma coisa para ler que me apetecesse.
Com a Homem Vogue aberta no colo, esperava o ônibus sair. Um rapaz, de modos simples, sentou-se à minha frente e, com uma olhada na minha direção, perguntou: “vai para a capital?” Disse-lhe que sim e devolvi a pergunta. “Pará de Minas”, me disse. Ofereci-lhe o Folha da manhã, que ele folheou com indisfarçado desinteresse.
O ônibus pega a estrada e eu tento dormir. Logo ouço o rapaz à minha frente segurando uns risinhos ansiosos. Levanto os óculos escuros e ele me mostra, às escondidas, uma revista masculina barata. Compartilhar pornografia é sinal de simpatia.
Esqueci de contar que, ainda na rodoviária, ouvi um senhor a perguntar as horas desta forma: “posso espiar no seu relógio?” Notei que as pessoas lá não se vestem tão mal quanto falam, talvez porque sob influência de são Paulo – não que em São Paulo todos se vistam bem. No caminho de volta vi plantações infinitas de café, minas de carvão e gente trabalhando em colheitas de verdade.
No mp3 Interpol, Pavement e coisas do gênero. Não é que o mundo vá muito além do nosso terreiro, é que ele não chega a todos os lugares mesmo.
Tava escrito “dique” mesmo no adesivo?
não :-)
O mundo chega até onde as pessoas permitem.
E achei tão estranho compartilhar pornografia com estranhos. É como se confessasse que sim, tenho lá minhas taras por colunas sociais.
Na verdade não foi a primeira vez que passei por isso. É engraçado, mas muito comum.
Abraço, Bia.
Deveras, particularmente entre os, hum, meninos.
claro, claro =]
“Às 11h eu já estava na rodoviária, levado por um taxista que foi vizinho de Chico Xavier, e meu ônibus só sairia uma hora depois.”
“levado por um taxista que foi vizinho de Chico Xavier”
“vizinho de Chico Xavier”
Hahahahahaha!
ora, ele me garantiu isso!