O horror
Postado em September 24, 2008
Categoria cotidiano |
O prosaico pode ser mesmo espantoso. Estávamos ontem a caminho de casa, eu e minha pequena, quando notei uma figura cuja indumentária fez-me lembrar os teatros gregos; ou antes: tratava-se de uma verdadeira personalidade.
(Ah, sim: esqueço-me de mencionar que íamos de metrô, e sabido é que o metrô é como um circo de horrores. Todos os tipos ali se encontram; lêem Paulo Coelho como que a cumprir algum velho hábito ou tradição – e aí está um bom tema para as vossas teses: serão os usuários de metrô leitores compulsivos do mago?)
Mas volto à musa do transporte urbano. Vestia uma bata (é esse o nome?) roxa, desproporcional e dúctil como flâmula, uma saia jeans curta de sob a qual desciam duas terríveis pernas cobertas por uma meia-calça preta e os pés, os pés calçavam um par de sapatos scarpin. Não eram sapatos simples, porém: eram sapatos brancos. Maria Antonieta ficaria, de certo, corada.
As pessoas olhavam-na. As pessoas são maldosas. E nesse ínterim eis que o metrô abre suas portas e entra um homem aos 40, sorridente como o quê, que segue a passos largos na direção da nossa, digamos, biografada: cobre-a de beijos e ela, entre sorrisos sexuais, retribui aquele afeto de terça-feira à noite. Digo que era um afeto de terça-feira à noite porque, na estação seguinte, ambos deixaram o vagão com um ar todo poor erotic que punha claro o caminho que iriam tomar.
Ou noutros termos: há umas décadas lia-se poesia nos bondes (não que eu seja um entusiasta da poesia) e, quando os trens a vapor surgiram, surgiu também o romântico ato de receber a amada nas estações enfumaçadas. Hoje lê-se Paulo Coelho e marca-se encontros dentro do metrô – “pegue o das 22h, estarei no terceiro vagão, cadeira 10″.
Bloody civilization, huh?
Ed, quanta maldade! Então você julga que eu me interesso pelos textos que trazem esses tipos caricaturais da nossa civilização?
Estou pasma! O que te levou a acreditar nisso?
;]
Minha resposta ao seu comentário e a sua tréplica desapareceram. Que coisa.
Tá curtindo moda agora, Sr. Clô?
A cor da bata da mulher não dá IBOPE.
A nação precisa saber se a mulher era bunduda, peituda etc. Deixa os seres se amarem. Se for no último trem da noite dá até para dar uma rapidinha, levantando a bata, por favor.
***
Olha não sei como é o metrô de BH, mas aqui em SP é uma merda de qualidade. Eu mesmo li muita coisa ali. Sartre, Drummond, Hauton, J.K.Rowling (para o seu escárnio) e sempre me diverti lendo quando dava e quando eu não era esmagado no pior serviço de transporte que existe depois do pau de arara.
:D
Na verdade aqui em BH não há metrô: o que é um “arremedo” - palavras do próprio prefeito, que cito com propriedade.
Bem, tirando esse primeiro parágrafo o conto é bom.
Abs,
Gustavo
Mas não é um conto, né? Chamemos de crônica.
>¨<
Não há metrô em Fortaleza, mas a crônica decantou legal.
Tentei comentar antes, mas meu PC deu um tilt e eu tive que reiniciar pra fazer backup de uns arquivos. Se é que você em entende.
Um abraço, meu caro.
olá, meu velho. não tenho sido também um senhor comentador, o tempo se vai me escorrendo por entre os dedos, you know. apareça sempre. abraço.