Sai o homem cordial, entra o novo favelado

Postado em August 20, 2008
Categoria opinião |

Os favelados, essa distinta classe, são uma gente que me intriga sobremaneira. É provável que a minha idéia acerca do gênero – digamos assim – seja um tanto particular. É também provável que essas minhas noções sejam, aqui e ali, sustentadas por um preconceito entranhado – “feio”, dirão os politicamente corretos, esses queridos –, mas preconceito não é ele mesmo um artifício estilístico?

Ao me referir a favelados, não lhes atribuo o sentido de dicionário. Meu critério de classificação se resume basicamente ao bom gosto ou a ausência de; daí que muitos, ou todos aqueles encimados pela minha plaquinha de identificação não habitam cortiços. Mesmo porque a minha postura diante dos que realmente vivem nas ditas habitações das classes pobres é acreditar, mesmo, que há entre eles pessoas de gosto refinado e vontade nobre – ou que pelo menos não usem seus óculos de sol apoiados na nuca. Acredito na exceção.

Mas os favelados a que me refiro, esses meus desafetos, são esses que encontro por aí, aos borbotões nos campus universitários, nas ruas, nos shoppings e nunca em teatros e livrarias. Uma gente que dirige carros a ouvir as músicas da classe num volume impossível, que tratam por “véi” o amigo mais próximo e vivem para a cerveja e para o “baile”, que usam bonés à noite e têm no penteado e na cor do cabelo o principal ou único vestígio de personalidade. A coisa me enjoa.

Agora vou me lembrando lá do início do meu curso de jornalismo, das idéias de indústria cultural e “era da reprodutibilidade técnica” [Walter Benjamim]. Há aqui em Belo Horizonte, como acredito haver em qualquer estado, dois jornais populares que vendem horrores e cumprem muitíssimo bem o papel de atender e refletir as preferências do seu público: não há sequer uma página de cultura em qualquer um deles; e esses jornalecos são, ambos, os mais vendidos cá destas paragens.

Em tempos de culto ao populismo, os favelados estão a definir não só a trilha sonora do nosso futuro, mas, antes, o próprio revestimento do nosso legado.

Comentários

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17 Comentários »

Adriano
2008-08-20 10:31:17

Talvez fosse melhor dizer “homens medíocres” em vez de “favelados”. O caríssimo José Ingenieros tem um livro sobre isso. Vale a pena. Trata da aurea mediocritas e etc. Vale a pena.

Que falta faz um ideal, em seu sentido forte.

ed
2008-08-20 17:53:21

Sim, eu podia ter usado “homens medíocres”, mas daí o efeito seria outro, não é?

abraço.

 
 
Scratch
2008-08-20 15:08:11

pra mim favelado é, além de quem usa óculos de sol na nuca, quem joga papel no chão e não dá lugar pros velhinhos no ônibus. Tá, o cara não precisa ler ou escutar bossa nova, mas jogar papel no chão é muito egoísmo.

ed
2008-08-20 17:54:16

Ah, sim: esses e muitos outros.

 
 
2008-08-21 15:18:40

Ed, bom gosto é uma coisa subjetiva, uma tentativa milenar de justificar a soberba deste ou daquele grupo sobre os demais. Não gosto de julgar os gostos, os meios e as formas, por uma questão estilística e não meramente política.

Agora… BAH! Caderno de cultura nesse país PRA QUE?
PRA QUEM? POR QUE?

Por fim: Narciso acha feito tudo o que não é espelho. Tarciso também - mas não me ufano.

Em tempo: estou feliz que teu blog está de volta. :)

2008-08-22 00:04:45

Heh, olá Társis. Fica difícil discutir… você é tão, huh, descolado e tal =]

Fiquei um tempo fora, mas cá estou eu. Abraço.

2008-08-22 09:37:57

Descolado!*.* o_0

Vou te pagar uma cerveja por esse elogio. Pensando bem, vou comprar uma garrafa da pinga que tomei ai em BH, a sensacional “TIRA MÁGOA”.

:D

Abração!

(Comments wont nest below this level)
 
 
 
Caroline Acefala!
2008-08-22 00:37:31

tou naquela correria aqui, mas para não cair o ibope, deixo meu oizinho e depois comento…rsrsrsrs
bjooooooo

2008-08-22 01:01:36

E cadê o endereço do seu blogue?

abraço.

 
 
2008-08-22 10:38:30

Oi Ed,

É lamentável observar uma geração despersonalizada, sem valores, uma geração de moças e rapazes belos e PREGUIÇOSOS intelectualmente! Criam modas, falam portunhês, falam muito e não dizem nada! É revoltante! No entanto penso que a cultura vem de berço, o gosto por bons livros, boa música, nasce embalada nos braços da infância!

 
2008-08-22 14:36:41

Isso é BH. Há quem se orgulhe.

 
2008-08-24 10:22:15

às vezes eu penso que os prolixos são os mais cínicos pois conseguem dizer a verdade somente para alguns,e para outros; bem, não dizem nada.
Às vezes eu estou certo.

ed
2008-08-28 00:50:24

Alou?

Olá.

 
 
2008-08-27 17:18:22

Haja coragem para escrever assim. Em Portugal, esses seus favelados fazem os noticiários. Do lado de cá do mar, os favelados - no seu conceito - andam felizes porque passámos este Verão a país desenvolvido, vulgo, começaram os assaltos à mão armada, sendo que as meninas da moda andam com traumas e desejos de ser assaltadas, julgo que se vestem para tal. E depois dão entrevistas de cara tapada e nome no rodapé. Uma tristeza, prefiro ainda teatro em palco, mas eu sou uma conservadora…
Um abraço.

ed
2008-08-28 00:49:02

Olá, Maria. Fazia tempo que não vinha para o chá.

E não seja tão orgulhosa, vá: aqui eles, esses favelados, também fazem o noticiário.

E se assaltos a mão armada são sinal de civilização, eu não sei o que o Brasil está a fazer entre os países de, er, terceiro mundo.

Grande abraço.

 
 
2008-08-27 21:17:09

Passando por aqui… E como sempre, garantindo muitas risadas internas pela sagacidade das “críticas sociais” aos favelados deste enorme Brasil do futuro.

Um abraço;

ed
2008-08-28 00:49:49

Rita, Ritinha.

 
 
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