Vie dês Martyres
Postado em July 16, 2008
Categoria cotidiano, opinião |
A sério posso dizer que estou a carecer de um ofício que me ocupe, vá lá, umas seis horas por dia. É com alguma dor que o digo. Nas costas, mais precisamente, pois tenho passado os últimos dias na horizontal, afundado na cama (está frio, não é?) com o laptop ora apoiado sobre o corpo, ora sobre o criado. É que nas férias, vocês bem o sabem, as obrigações mínguam.
As notícias, parte delas, me chegam pela TV – pode parecer vulgar dizê-lo, mas é que assistir a telejornais e programas correlatos não me é exatamente uma atividade corriqueira. Num mundo ideal eu não teria tempo para isso. E o que vejo é tão bizarro que mal tenho vontade de comentar, fatos cujas interpretações preferiria que me passassem ao largo. Todavia temos aí, país a fora, comentadores e comentaristas de toda sorte e, como isso é um conforto dos diabos, sigo trocando Dantas por Dante para ver no que dá, e acabo metido nalgum tipo de inferno de qualquer modo.
Com certo deleite desligo a TV e volto às revistas e aos livros. Exame, Piauí, uma coletânea de contos franceses em que leio Stendhal, Balzac, Merimée, Gautier, Maupassant, Verlaine e Mauriac, para citar o mínimo. Esforço-me em entrar nesse estado de alienação voluntária e logo me vêm os negócios da China atormentar. Logo me cai sobre a cabeça a urgência dos investimentos necessários à cerimônia de casamento na qual devo ser aquele a envergar um fraque no ano porvindouro. E vou pegar um café. Se fumasse, fumaria um cigarro enquanto esse é ainda um prazer lícito, possível.
Ligo para um amigo ilustrador a fim de propor a criação de uma revista. Está na moda. Não encontro o amigo e ouço algo – teria sido alguma interferência? – a dizer que isso é idéia vaga, boba e menos importante na atual conjuntura. Fosse na parte da manhã eu teria discutido o assunto, mas deveras não estou para debates no meio da tarde.
Daí vou ler alguns senhores. Esse ótimo artigo do Pedro Sette câmara, esse post do Alexandre S. S. e os últimos e muito bons textos do Adriano. Ler alguns dos blogs que temos aqui, alguns de gente séria, mas nem por isso sisuda, é em muitos níveis preferível a ler jornais (especialmente em tempos de campanha política) ou a assistir TV.
E é daqui, de cima da cama e de sob os cobertores, que vejo com olhar senhoril e indulgente (e enfadado) o Estado a brincar de polícia & ladrão – brincadeira em que os papéis se confundem, ou são tacitamente revezados. Contudo daqui também diviso, felizmente, umas poucas almas que pairam saudáveis sobre o leite derramado.
Ótimo texto! Realmente a TV é um mundo de baboseiras tão produzidas e revertidas que nem dá para acreditar. Acabei de voltar de São Paulo. Dei um tempo aqui de tudo e fui visitar a terra da garoa. Sair é bom; viajar exorciza os fantasminhas escondidos, principalmente o marasmo e o tédio.
Abração Ed!!!
eu prefiro ficar no fundo da minha cama, vendo algum filminho empolgante do hitchcock, enquanto penso que não vivo no brasil e que, se fumar não me fizesse tão mal, eu acabaria uma carteira por dia só para acalmar a ansiedade.
meu, deu preguiça só de ler.
Saudade dos seus textos menino!
O meu blog tá aí do lado. Largado às traças como uma jovem irlandesa esquartejada e jogada num rio.
Foi seu aniversário e ninguém lhe deu parabéns no blog. Putz.
Eu também não ganhei “alguns” parabéns.
Fazer o que…
Quando a gente envelhece… fica assim mesmo.
Todo mundo esquece da gente!
E a gente perde as esperanças de criar uma empresa, ou uma revista… sei lá.
Bom, então vou me indo embora pra Pasárgada. Lá, como já sabe, sou amiga do rei. E ele me dá os parabéns.