profanum vulgus
Postado em April 26, 2008
Categoria cotidiano |
Não ouso sempre travar conversa com estranhos dentro, ou mesmo fora, de veículos do transporte urbano. Sou do tipo que acha que uma conversa é, no mais das vezes, um desperdício de si mesmo; entretanto, por esses dias, aconteceu de eu ser perguntado acerca de um assunto de meu interesse, a literatura. Ademais, quando se é perguntado, por uma questão de boa educação, deve-se responder, nem que seja com um aceno de cabeça.
Era um senhor, estava sentado ao pé de mim e, desde que o notei, lia algo com displicente desatenção, olhando a todo instante para os lados, especialmente para onde eu me encontrava. A certa altura, pareceu-me, ele perdeu a calma e, ansioso, tocou-me o braço a fim de chamar a minha atenção. Com alguma simpatia, alinhei aos dele os meus olhos apertados, como quem, sem dizer palavra, aceita o convite à tola conversação.
Tinha um hálito de caverna o senhor. Felizmente, falou pouco. Fez uma pergunta muito simples, do tipo que eu faria a um qualquer se fosse mais sociável. Apontando-me o título do livro, que eu tenho uma vaga idéia de já lido por aí, perguntou-me se eu já o havia lido. Nesse ponto, o estranho parecia inclinar-se cada vez mais diante do meu rosto, dos meus olhos, de maneira a exibir imensurável interesse, o que não fazia qualquer sentido. Eu disse que não.
Ante a minha negativa, exortou: “Pois deveria ler, quem sabe assim você passa a reconhecer as pessoas que já cuidaram de você, com quem por tanto tempo conviveu.”
O título do livro era “As Cinco Pessoas Que Você Encontra no Céu” ou coisa assim. Não li, nem pretendo, posto que seja no mínimo um desses de auto-amparo. Quanto ao senhor, ainda hoje não faço idéia de quem se tratava. Ou eu não entendi a piada.
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