Cheville

Postado em April 26, 2008
Categoria Literatura, cotidiano |

 

 

 

Há muito tenho vivido à espera de sutis mudanças em certos aspectos de minha personalidade. Não trato de coisas práticas, mas de outras, um tanto mais sutis. À sombra da infância é vulgar acometer-nos a todos aquela idéia – hoje sei, um tanto vaga – que tão constantemente acometeu-me e inda hoje se faz viva: a idéia de que adaptar-nos-emos ao mundo à medida que abandonarmos quaisquer hábitos contrários ao intento.

 

 

 

Ora, o máximo que se pode alcançar é a aceitação desta vida que aí está; é à constatação de nossa própria impotência que nos adaptamos, e o mais são variações de um tema já gasto, ainda que sólido. De minha parte posso dizê-lo: possivelmente chegarei à velhice a esperar que o pós-vida traga-me as transformações pelas quais aguardo sem que eu tenha jamais entendido como agora entendo, ou pelo menos imagino, a insondável distância que há entre simples traços de personalidade e aquelas indisfarçáveis maneiras, qual ervas daninhas, encravadas no espírito.

 

 

 

 

 

*

Após uns bons dias sem nada postar, tentarei manter a freqüência dantes – ou eu não sei aonde me levará todo este enfado. Freqüentei nos últimos dias Evelyn Waugh; além do essencial Brideshead Revisited, li também Decline and Fall – um livro leve, cômico e elegante. Passei por mais Chesterton e tentei Joyce – lá pela página 100 cessei a leitura em respeito ao senhor Stephen Dedalus e trupe; não me estava a dedicar inteiramente, de maneira que o melhor a fazer é, quando possível, trancar-me num retiro espiritual a fim de ler este Ulysses.

 

 

 

Venho agorinha de uma livraria. Aqui ao lado está aberta uma página na qual leio:

 

 

 

Em 1913, quando Anthony Patch chegou aos 25, dois anos já se haviam passado desde que a ironia, o Espírito Santo da época, descera, pelos menos teoricamente, sobre ele. A ironia foi o brilho final no sapato, a última escovadela na roupa, uma espécie de “pronto!” intelectual.

Trata-se de Fitzgerald em The Beautiful and Damned – ou Belos e Malditos, um título que soa bem em português.

 

 

 

 

 

 

O resto é um silêncio oscilante.

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