Introibo ad altare Dei
Postado em March 11, 2008
Categoria cotidiano |
Apetecer-me-ia confessar-me aos aos catedráticos e professores da universidade e dizer-lhes que eu me recuso a submeter-me ao jornalismo se este em nada lembrar aquele que fazia Chesterton em tempos idos, mas me ocorre agora que talvez eles, os professores, jamais tenham freqüentado G. K., o que não me não surpreenderia nem um pouco, visto que hoje lê-se apenas o que manda a, er, bibliografia obrigatória – que é uma maçada. Pois vejam vocês que semestres atrás quis saber de um meu professor de História, em razão de uma aula sobre Napoleão, se ele já havia por acaso lido O Vermelho e o Negro, ao que, sorrindo, respondeu-me que não. O que é uma pena, pois trata-se de um bom homem, apesar de me ter obrigado a ler Gilberto Freyre – que é quem nos diz que os portugueses, quando da colonização destas paragens, não souberam, ou não puderam, separar suas Casas Grandes de suas Senzalas, e que, por isso, temos aí os mestiços.
Estes últimos dias os tenho passado debruçado sobre as páginas de Brideshead Revisited, o que me tem causado imensa satisfação. Como disse, precisei recorrer a um sebo a fim de procurar por Evelyn Waugh e acabei tendo alguma sorte. No dia seguinte voltei a pôr lá os pés, ou as mãos, e levei comigo uns livros dos quais precisava me livrar a fim de propor troca; disse ao livreiro: “tenho aqui a coleção completa de As Brumas de Avalon em perfeito estado” etc., como se houvesse eu algum dia lido aquela pasmaceira em quatro volumes. Assentiu o senhor e, antes que ele voltasse atrás na idéia, pus-me a perscrutar as estantes razoalvemente organizadas “pelo sobrenome do autor”. Voìla: edição de 1975 de Ulisses, James Joyce, traduzida por Antônio Houaiss. Mais alguns negócios assim e eu me torno um habitué do lugar.
Eu reconheço o poder e a capacidade que têm os temas idiotas de nos fazer corar. Precisava sentir-me apresentável para as reuniões da semana e hoje fui aparar o os cabelos. Ao chegar, como encontrasse o lugar, por sorte, vazio, o assunto introdutório limitou-se ao usual: clima, trabalho e os últimos acontecimentos cá da cidade. Em questão de minutos, apareceu outro cliente. Agora o assunto migrou para o futebol. Calei-me. Mais um cliente entrou. Assunto: reality show. Mantive-me mudo. Enquanto a conversa fluia, eu me sentia sinceramente subjugado. O cabeleireiro, profissional de conhecimentos muito além dos óbvios, ia de um tema a outro se sequer gaguejar. Ora, eu e os meus assuntos prosaicos.
Vênia para tratar de modernices: comprei por esses dias um cd (quem ainda compra cds?) de um arstista, cantor, chamado Mika; libanês, viveu uns tempos em Paris e hoje mora em Londres. Estudou piano clássico, canto lírico, e só aos 17 anos ouviu pela primeira vez o White Album, dos Beatles. Acostumado que sou com bandas como Radiohead, Mogwai, Belle & Sebastian etc., soa-me estranho dizer que este Life in Cartoon Motion, álbum com músicas terrivelmente felizes, é muito bom.
***
Não acham vocês que deveríamos ter um serviço de previsão do Zeitgeist? Poderia ajudar nalguma coisa, talvez na moda; “amanhã fará um dia lúgubre”, “tédio será o espírito da Era de Aquário”, e vestiríamos aquele casaco acinzentado.
***
Em face dos últimos acontecimentos
Oh! Sejamos pornográficos
(docemente pornográficos).
Porque seremos mais castos
Que o nosso avô português?
Oh! Sejamos navegantes,
Bandeirantes e guerreiros,
Sejamos tudo que quiserem,
Sobretudo pornográficos.
A tarde pode ser triste
E as mulheres podem doer
Como dói um soco no olho
(pornográficos, pornográficos)
Teus amigos estão sorrindo
De tua última resolução.
Pensavam que o suicídio
Fosse a última resolução.
Não compreendem, coitados,
Que o melhor é ser pornográfico.
[C. D. A.]
Minha querida professora de Carreiras da Comunicação mandou-nos ler Stendhal. Logicamente que não consta na bibliografia obrigatória, mas ela tem tão bom gosto que fiquei feliz no primeiro dia de aula, apesar de ela se vestir como se fosse uma lavradora. Estranho, mas aceitável. Alguém que lê Stendhal e vê Seinfeld merece todos os créditos.
A faculdade é um lugar muito mais estranho do que eu temia. Great!
Ela deve gostar de Stendhal, só isso. Não haverá em Le Rouge et le Noir nenhuma lição sobre “carreiras da Comunicação”, e, se houver, melhor fingir que não.
Isso foi uma conclusão? Porque foi exatamente isso o que eu disse: NÃO ESTÁ NA BIBLIOGRAFIA BÁSICA. Disse apenas que alguns professores ultrapassam a linha da monguice. Fofo.
É verdade, alguns :-)
Bibliografia obrigatória me dá calafrios. Por ela, não me contentei com uma DP e fiquei logo com duas, nos velhos tempos de faculdade. Tudo porque eu teimava em substituí-la por quadrinhos, russos e ingleses (os franceses vieram depois).
Mas então, estou sem saber o que fazer sobre a literatura: comprei muitos livros no Natal, e agora mudei de idéia e não quero ler nenhum deles, mas outros que não comprei. Tri confuso.
“amanhã fará um dia lúgubre” (Everyday is like Sunday, everyday is silent and grey).
E você leu tudo aquilo? Que herói.
Então você deve conhecer a adaptação recente para os quadrinhos de Em Busca do Tempo Perdido, do Proust. Eu ainda não li.
Cara, eu ganhei de presente de natal anjos e demonios e o ultimo livro do jô, enfim. rs. É puro humor involuntário. Eu fico sem graça de trocar e acabo dando-os de presente mais tarde. Mas esse ano vou passá-los no sebo tb. você começou com “o vermelho e o negro”, perpassou por Zeitgeist, (q eu vou ter q assistir, vai ser humor involuntário tb, mas enfim)e foi parar no drummond, puxa, drummond foi surpreendedor pelo lado positivo ed, juro.
Vai ter que assistir a Zeitgeist? Do que você achou que eu estava falando?
E Dan Brown é uma beleza para trocar; os livreiros, que só pensam na “saída” dos livros, adoram esses best sellers de merda…
Abraço.
E, Caio, atente para o fato de eu NUNCA postar poesia…
A poesia no contexto social é um fenômeno de esquerda. Não temos como negar. Por isso é constrangedor para nós, que somos de direita (supondo), admitirmos que gostamos de poesia.
No livro the man who was thursday, do G.K chesterton, por exemplo, no primeiro capítulo ele debate isso: a ideologia da poesia. Através dos personagens de Grabriel Syme, o poeta da lei, e Gregory, o poeta anarquista, naquele famoso embate.
Eu gosto tanto de poesia ao ponto de tentar debochar disso o tempo todo. Aprendi isso com o chesterton.
Eu rebato a pergunta, sobre o que mais você acha que eu estava falando? O Zeitgeist é tb o titulo de um documentário que os intelectuais esotéricos (claro que é uma brincadeira, é incompatível ser esotérico e intelctual ao mesmo tempo)andam debatendo. E que causou um reboliço danado da parte escura da blogosfera.
Abraço
Não sei se se pode dizer que poesia é um fenômeno de esquerda, nunca nela pensei através dessa ótica; contudo, agora me lembrando do diálogo delicioso que é aquele entre Syme e Gregory, ocorre-me que talvez haja alguma verdade nisso, posto que a poesia é por demais imaginativa, o que lembra ideologia, que me poderia fazer aludir à política. Mas ainda não sei. A política é uma cachaça que se toma, como disse alguém.
E já que falou em Chesterton, ele trata da figura do poeta de maneira (usual) fascinante no Ortodoxia.
Quanto ao documentário a que se refere, Zeitgeist, eu sinceramente desconheço-o.
Abraço.
Estaria eu, com o pouco que te conheço, a visualsar vc, sentado a uma cadeira aparando o cabelo e, a cada cliente que lá entrava, vc se encolhendo na cadeira toda vez que um novo assunto era posto em pauta.
Ok, Joe. Você citou chesterton no post, por isso puxei-o como exemplo.
Nao sei se vc lembra, mas o Syme ganhou aquele diálogo e o chesterton o chamou de anti-poeta por ele ser um poeta da lei (direita?), tradicional etc.
abraços
Oi Ed!!!
Olá, moça.
Ao que me parece, este semestre está te deixando um tando mais entediado. De certo que você é uma dos mais anacrônicos da turma, mas, não sei se você notou, o que está te aborrecendo é o que deixa a maioria admirada.
Ainda bem que já e quase abril.
O fato de as pessoas ficarem tão impressionadas com coisas que já deveriam saber é que diverte. Daí voltamos à velha história da precariedade do ensino etc.
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Olá, Spams. Sem tempo para vocês agora; quando possível, dou-lhes a devida atenção.
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