comique de la reine
Postado em January 30, 2008
Categoria cotidiano, opus |
Creio mesmo haver uma distinção especial entre as senhoritas que encontramos por razões puramente ocasionais e aquelas por quais procuramos ou, sendo simples, tencionávamos encontrar.
Nos meus tempos de pasmaceira ousei, e nem sei se ousar é a palavra certa, mas me corrijo depois, ousei contrair namoro com uma pequena evangélica (que é muitas vezes diferente de uma cristã; eu adoro as cristãs). Digo nos tempos de pasmaceira não por tê-la namorado, mas por não tê-la corrompido. Chamava-se (e ainda deve chamar-se) Elisa. Moça alta, descarnada, inocente, irritantemente casta. Conheci-a no meu primeiro trabalho, numa época em que eu mesmo era um tanto modesto e aparvalhado. Apaixonamo-nos pelos motivos os mais obtusos e prosaicos: ela por achar-me “romântico” e “inteligente” e eu por ela achar-me “romântico” e “inteligente”. Com a polidez que me sempre caracterizou, perguntei-lhe um dia se ela gostaria de me namorar, ao que ela assentiu como se se tratasse de uma provação, no sentido que alguns evangélicos dão ao termo. O que então pensei foi: namorando-a, poderei enfim ir além desses beijos desérticos.
A nossa afinidade durou cerca de um ano e teve seu ponto alto num dia como esses que aí estão, chuvosos. Como andávamos pela rua que levava à sua casa e tínhamos apenas um guarda-chuva, o acaso nos uniu num mesmo objetivo: não molhar o pulôver. Chegando ao portão de sua residência, quis lhe abraçar e o fiz, num arremesso inadvertido. Enquanto minha mão esquerda segurava com alguma firmeza o cabo do objeto que nos livrava relativamente da chuva, a outra, aflita, tocou-lhe o pescoço esguio e foi aos poucos descendo por um caminho por mim, naquele corpo, nunca outrora experimentado. Em seu arrebatamento, Elisa não percebeu de pronto a minha intenção: com os dedos consegui, através da gola rolê apertada (imaginem o meu prélio), pôr a mão sob o seu agasalho e, enfim, com um prazer desesperado e, depois soube, imbecil, consegui, vejam vocês, tocar-lhe o ombro esquerdo.
Rompi com Elisa semanas depois, através de uma carta cruel inspirada num livro que lia na época, em que a personagem, uma atriz que interpretava Julieta, tal qual a personagem de Shakespeare, tomava veneno após ser desprezada pelo amado.
***
Após a edificante experiência com Elisa, concentrei-me num objetivo grandioso: namorar uma bailarina. Aquelas curvas, o en dehors, aquela magreza e os movimentos à la Bolshoi intrigavam-me sobremaneira e eu não resistia à tentação de desejar ainda um pouco mais: que a bailarina fosse algo pervertida. Vários ingressos de teatro depois, fui apresentado a uma moça cuja pele, muito branca e muito lisa, me agradou profundamente. Abandonei a minha obsessão pelo universo do Quebra-Nozes quando a minha recém conhecida deliciosamente revelou-se praticante da Danse du Ventre, atividade condenada por Napoleão, que a considerava impura e demasiadamente libidinosa. Com a minha lasciva deusa matriarcal aprendi que ombros servem, afinal, para carregar a bolsa.
Até que essa Elisa era ousada! Onde já se viu uma evangélica namorar um cara “do mundo”?
Elisa amou-me por um ano e onze contos de réis.
…ao menos Elisa sabe qual será o preço a pagar por tal desatino - ninharia…
Meu caso foi diferente: sempre quis uma moça com ares franceses. Não necessariamente francesa, ou com esse ascendência. Consegui: além de ares franceses, minha amada é de ascendência franco-germânica.
A minha hoje noiva também tem todo um quê europeu, e isso me mata, rapaz, me mata.
História deliciosa…, escrita com essa ‘petite variation’ tropical que nos obriga a pausar e a sorrir. E a aprender, também.
Um espaço muito bonito, este, caro E.J..
(chuva aí agora? sempre pensamos -deste lado do mar -que por esta altura estão aí com um “calor-de-ananáses” ! :) )
Quelle ignorance!
Alou, Margarida. Ontem pus seu nome no campo de busca do google e o que encontrei foi uma, creio, médica portuguesinha; será que é você?
Passe sempre por cá, podemos tomar um chá. Abraço.
Frio, frio, caro Edson :)
Café, pode ser?
O vosso é famoso…
Mas… ‘tanto mar, tanto mar’…
Um café, que seja um café.
Ah, sim, entre nós há esse velho Atlântico.
Com sua vênia,
Caro Bailarino das letras,
Permita-me comentar: garota de sorte esta tal de Elisa, ter em seus ombros o peso de suas mãos.
A metáfora foi-me inevitável.
Ah, ainda mais sortuda é a minha atual pequena. Mas não entremos nos méritos.
façam-me o favor: http://www.chicksnbreasts.com/2008/01/30/urbanballerina14web/
Grande! Grande!
Olá, senhor Tiago.
AHAHAHA….Ótimo post.
Bom, nem todas as “evangélicas” são pudicas, afinal.
Até onde sei muitas se especializaram na arte do sexo anal, afinal seria um sacrilégio entregar a virgindade, sempre ela, a fina membrana inútil que vive a desgraçar as mocinhas incautas!
Melhor assim. Teve um camarada meu que ao namorar uma casta filha de Deus por um certo tempo, ganhou o singelo apelido de “Dedinho”. Dá pra imaginar…
Abs!
T§
e nem todas são deveras evangélicas. abraço.
Olha, eu também namorei uma evangélica. Ela era adepta da perversão como caminho da conversão.
O dia em que eu resolver transformar meu blog em um destino mais picante, eu conto. :)
“perversão como caminho da conversão” ? Rapaz, era duma dessa que eu precisava (que minha noiva não leia isso, oremos).
Cleber me mandou uma parte do texto, elogiando-te. Vim ler o restante. Muito bom, mesmo = )
Ei, Simon. Fazia tempo que não passavas por aqui. Obrigado. Abraço.
(Risos)
É vejo que te ler tem voltado ao gostinho original, da primeira história que me foi apresentada… Esqueci o título, aquela do casaco e das falácias.
Abraço
O Amor é uma Falácia, Max Shulman.
Adoro tal texto. Era um casaco de marmota, se não me engano.
Um casaco de, especificiamente, pele de marmota.
Que tola essa Elisa. Tu de romântico, não tens nada.
Imagine, sou um romântico vitoriano.
pele de faneca da linha, mas é.
:)
abróteas e berbigão pa ti! ou, se for o caso, queijo do fedorento que dizem, ser muito bom.
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