a nova gnomonia

Postado em January 23, 2008
Categoria Literatura |

Tive conhecimento da nova gnomonia por uma conversa de café. O poeta Augusto Frederico Schimidt e o compositor Ovalle debatiam animadamente um ponto da nossa situação interna, particularmente a ação de certo homem político, quando o segundo, inclinando-se para a frente em atitude de advertência, colocou a mão direita no joelho do primeiro e proferiu gravemente:

__Seu Schimidt, vá por mim! Aquele sujeito é do exército do Pará.

Do exército do Pará? Que exército era esse que eu desconhecia? Ovalle explicou: o exército do Pará é formado por esses homenzinhos terríveis que vêm do Norte para vencer na capital da República; são habilíssimos, audaciosos, dinâmicos e visam primeiro que tudo o sucesso material, ou a glória literária, ou o domínio político.

Compreendi. O nome Pará não implica desdouro, senão honra para o grande Estado, torrão natal de homem-símbolo ou Anjo da grande categoria. O meu Pernambuco tem dado muita gente para o exército do Pará, talvez os seus soldados mais típicos.

Da categoria de exército do Pará passamos às demais, que são quatro, abrangendo em linhas gerais os principais tipos de caracteres humanos: os Dantas, os Kernianos, os Onésimos e os Mozarlescos.

Os Dantas são os bons (toda a gente quer ser Dantas), os homens de ânimo puro, nobres e desprendidos, indiferentes ao sucesso da vida, cordatos e modestos, ainda quando tenham consciência do próprio valor. Quem deu nome a este grupo foi o jovem jornalista San Tiago Dantas, cuja natureza aliás vai ser questão de debate no próximo 1º congresso na Nova Gnomonia, porque a muitos iniciados parece errada a categoria de Anjo atribuída ao sr. San Tiago (alguns o classificaram no exército do Pará). Não sofre dúvida que o senhor Prudente de Morais, neto (não o político residente em S. Paulo, mas o outro, poeta e crítico da revista Estética) está muito melhor qualificado para o papel de Anjo dos Dantas (uma prova luminosa e até com caráter de revelação está no fato de que, desconhecendo de todo a nova ciência e desejando adotar u m pseudônimo literário, escolheu o de Pedro Dantas com que subscrevia as crônicas literárias da revista A Ordem). O tipo mais perfeito que conheço nessa categoria é a falecida Elizabeth Leseur. Posso citar outros para instrução do público: São Francisco de Assis, Spinoza, o abade dos Noivos de Manzoni, ou mais perto de nós Auta de Souza, Capistrano de Abreu, Amadeu Amaral, a D. Carmo do Memorial de Aires.

Os Kernianos são os impulsivos por excelência. Indivíduos de bom coração, capazes de grande sacrifício pelos outros, deixam-se no entanto arrastar às vezes à prática dos atos mais condenáveis, não por maldade, mas por um impulso irresistível de cólera: ilustra-o bem o caso passado com um kerniano em Nova Pasárgada e é sempre citado como anedota já hoje clássica nesse ramo de estudos. Um empregado público de pequena categoria, irritado com a conduta impolida de uma viúva, não se conteve e lhe deu um pontapé no ventre, de que resultou a morte imediata, porque a infeliz estava grávida. Incontinenti arrependeu-se, arrancou os cabelos, pediu perdão ao cadáver, e sabendo que a viúva deixava onze filhos ao desamparo, tomou-os todos ao seu encargo, criou-os, educou-os com o mesmo carinho que dedicava aos próprios filhos: kerniano puro. O anjo dos kernianos é o Sr. Ari Kerner, autor de sambas e canções que têm alcançado grande voga. A classe é numerossísima. Byron e Verlaine foram Kernianos. Greta Garbo é Kerniana. Nobilíssimo exemplar é o sr. H. Sobral Pinto. Ribeiro Couto é um Kerniano. O sr. Paulo Ribeiro e Magalhães, idem. Kerniano foi o primeiro Imperador. Já Pedro II foi um Mozarlesco.

Difíceis de definir, sem magoar toda a classe, esses caracteres tão interessantes que são os Mozarlescos. Em primeiro lugar – por que assim são denominados? Os Mozarlescos são pessoas que se exprimem ou obram de molde a fornecer aos que os observam uma impressão de coisas consideráveis, ao que todavia não corresponde o conteúdo das suas palavras ou das suas ações. São homens de bem. Acreditam no sufrágio universal. Lêem os ensaios econômicos do sr. Mário Guedes. Manifestam decidido pendor pela pedagogia. Mas repito: por que Mozarlescos? O nome não pode derivar de Mozart, Wolfgang Amadeu, o grande. Este foi um dos tipos mais quintessenciados de Dantas, exemplar verdadeiramente único porque era um Dantas que se apresentava sob as espécies mais infantis e angélicas, naquele extremo limite em que os Dantas confinam de um lado com os Kernianos e por outro com os Onésimos, de que trataremos a seguir. Se houve alguém isento de Mozarlesco por causa da companhia do conselheiro Acácio, do Professor Everaldo Backeuser e outros Anjos classificados nessa categoria. No entanto há formas extremamente sutis e refinadas de Mozarlismos. O grande pintor Cícero Dias, apesar de se revoltar com a classificação (pretende ser um Dantas, embora dê em geral a impressão de Kerniano) é afinal de contas um Mozarlesco, como se depreende bem das suas luas lacrimejantes e da concepção da morte nos seus quadros. Guiraldes, o grande poeta argentino, autor de Don Segundo Sombra, a melhor obra de ficção sul-americana, sentindo-se morrer pediu uma dose de whisky. Como? Whisky na hora por excelência difícil e grave? E Guiraldes explicou aos parentes e amigos que precisava de muita coragem, o caso era muito sério: __ “Ahora hay que hablar com Dios!” Este, sim, não tinha nada de Mozarlesco.

Restam os Onésimos. O anjo da classe é um cavalheiro desse nome, que acercando-se abruptamente de uma roda de Dantas ligados pelas mais estreitas afinidades e que debatiam com o mais puro entusiasmo a questão da salvação do país pelo preparo das elites no sentido neotomista, lançou um frio indescritível na roda, causando evidente mal-estar. O Onésimo onde aparece é assim: duvida, sorri, desaponta; diante dele ninguém tem coragem de chorar. O seu sense of humour sempre vigilante é o terror dos Mozarlescos avisados. Não é que o faça por maldade: os Onésimos não são maus. O drama íntimo dos Onésimos é não sentirem entusiasmo por nada, não encontrarem nunca uma finalidade na vida. Não obstante, se as circunstâncias os colocam inesperadamente num posto de responsabilidade, podem atuar (não todos, é verdade) com o mais inflexível senso do dever. O sr. Gilberto Freire, por exemplo, é Onésimo. Em geral os humoristas são Onésimos. Não os humoristas nacionais, que esses pertencem todos ao exército do Pará (os srs. Mendes Fradique, Raul Pederneiras, Luis Peixoto, etc. Aporelli faz exceção, é Dantas). Mas os grandes humoristas, Sterne, Swift, Heine são Onésimos. O sr. João Ribeiro é um exemplo muito curioso de Onésimo. O escritor paulosta Couto de Barros, outro.

Eis em linhas gerais o arcabouço do novo sistema. Cumpre advertir que os tipos puros são raríssimos. Um Dantas pode revelar traços de Onésimos, de Mozarlesco, de Kerniano e até mesmo (mas isso raramente) de exército do Pará. Todavia um Mozarlesco nunca se revela Onésimo, salvo na capacidade de dar azar, o que é também atributo Onésimo. O que determina em última análise a classificação é a dominante. Convém igualmente salientar que do exército do Pará podem fazer parte tipos superiores da humanidade. Santo Inácio de Loiola e Anchieta, o padre Vieira, o padre Leonel da Franca, por exemplo, eram do exército do Pará.

Para mostrar a complexidade dos problemas ligados a esse ramo novo de pesquisas, basta citar algumas obras mais notáveis da sua rica bibliografia:

“Categorias gnomônicas” (Pedro Dantas);
“Do caráter kerniano de Judas” (Gilberto Freyre);
“Um charlus pode ser Dantas?” (Jaime Ovalle).

[Manuel Bandeira in: Crônicas da Província do Brasil]

***

Posto isso, ainda que com outros tantos traços de outras classes, estou mais para um kerniano: acabo de solicitar à coordenadoria cá da empresa que me faça um grande favor: demita-me.

Comentários

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5 Comentários »

2008-01-23 23:52:58

Predominantemente onésimo aqui.

Ed
2008-01-24 07:28:14

Sou um kerniano com uns traços de onésimo, principalmente no que toca a “não sentir entusiasmo por nada” etc.

 
 
2008-01-24 10:45:56

Não me identifique com nenhum destes. E na verdade não conhecia nada do assunto!

Agora diga, pediu demissão mesmo?

2008-01-24 10:52:14

Impossível que não tenha se identificado.

Demissão, não. Pedi que me mandem embora, que me demitam. É bem diferente, sabe?

 
 
2008-02-04 05:39:07

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