Cenas de um dia de dezembro: o último

Postado em December 31, 2007
Categoria cotidiano |

“É sempre o humilde que fala demais, o orgulhoso está constantemente a observar-se” [Chesterton]

 

Vale notar contudo que essa  humildade é aquela que permite olhar atentamente, ao invés de para si, para outros; tal atividades garante ao observador, muitas vezes por situá-lo acima dos demais, ares de superioridade, o que mais tarde por certo resultará em ares orgulhosos. Um qualquer humilde jamais de incomodará em demonstrar orgulho, ainda que demasiado, pois acha-se imbuído do direito.

 

Hoje fui acordado muito cedo (para um feriado) pois as mulheres cá de casa (mãe e irmãs) precisavam de uma força física extra para que pudessem trazer as sacolas pesadas de compras para os preparativos inerentes à noite de reveillon. Não foi sem preguiça que saltei da cama, ainda que não tenha podido, e não poderia mesmo, emitir quaisquer reclamações. Solicitei emprestado a uma de minhas irmãs um protetor solar, calcei uns tênis, pus os óculos escuros e saí acompanhado das três. Como temos sofrido, todos aqui nesta cidade, com um calor imedido nos últimos meses, não obstante algumas chuvas esparsadas, o efeito não se fez por menor e, por isso, percorri todo o caminho, que é curto, à procura de sombras possíveis às 9h da manhã. Compras feitas, sacolas cheias, voltamos à casa e eu, após brincar por poucos minutos com o nosso cão, ocupei novamente lugar em meu quarto: precisava terminar a leitura de O Grande Gatsby antes que os fogos que anunciam o novo ano estourassem sobre nossas cabeças. E foi com prazer que o fiz, muito antes que imaginava. Sou um neófito no que diz respeito à obra de Fitzgerald e, ao final deste romance, vi-me um bocado emocionado, e mesmo revoltado com os acontecimentos que levam à tragédia que encerra a estória.

 

Por volta das 14h30, após pôr sobre o criado a minha recente leitura, adormeci, vindo a acordar às 16h, um pouco incomodado com o insistente calor. Ainda deitado e sonolento, podia ouvir o corre-corre das outras pessoas em casa, ocupadas com a limpeza, com a ordem das coisas, com os aprontamentos culinares etc. Meu pensamento ainda me remetia a cenas de Gatsby. Surpreendi-me naquele estado, tão comum a alguns leitores, em que não se pode interromper a absorção/ usurpação de uma inspiração que dir-se-ia próxima daquela que levara o autor a conceber a obra. Eu precisava ler mais. Assim, dois passos dados, parei defronte à minha mini-biblioteca-de-quarto (a maior fica noutro cômodo da casa) e, ao ver a capa amarelecida da minha edição de The Man Who was Thursday, do Chesterton, soube que eu não poderia, por agora, ler outra coisa – daí a minha epígrafe.

 

Há algumas atividades sociais às quais, creio, não poderei fugir mais tarde nesta noite. Agora que escrevo o relógio de pedra-sabão em forma de uma lua crescente, que orna uma de minhas paredes, marca 18h; acabo de receber um telefonema de um amigo que clama pela minha presença à sua ceia. Ainda não cheguei a um veredito quanto à questão. Passei há pouco pela sala e, por acaso, divisei um conjunto de nuvens escuras assomarem-se no horizonte,tapando o pôr-do-sol. Havendo chuva, dou por válidos os meus lamentos.

 

Bom, preciso ir ao banho para então me aprontar. Minha pequena vem hoje com sua família e é necessário que  encontrem-me vestido com o devido rigor. Posto que me refiro ao porvir, vos desejo um feliz ano.

Comentários

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19 Comentários »

caiocito
2008-01-01 12:59:51

também li the Man who was thurday do G.K.C. hilário. e, repare como o G.K.C tem um constrangimento quando descreve uma cena. sempre desproporciona um ato. de forma a tornar a cena caricatural. não lembro de uma frase especifica. minha memória não é boa, e li o livro no ano passado. rs, abrazoz

Ed
2008-01-01 15:07:37

É genial.Comecei a ler há um tempo, mas precisei parar para me concentrar na bloody faculdade. Agora termino. Abraço, feliz ano novo etc.

 
 
2008-01-02 22:12:19

Mesmo em feriados feriados festivos suas rotina parece não mudar muito. Bom!
Que os ventos soprem a seu favor nos próximos meses.
um abraço

Ed
2008-01-03 07:04:58

Ora, mas é claro que a minha rotina se altera. Quando é que ouviu que saí de casa para carregar compras?

 
 
2008-01-03 01:08:44

Ah! Calor e festas de fim de ano em nada combinam. Minha sorte é que aqui em Belém há sempre (sempre!) o momento da chuva de cada dia, em que o sol se recolhe e toda movimentação, de pessoas ou partículas de calor, aquiesce; e você tinha que presenciar o silêncio que cai sobre a cidade nessas horas!

Acho que morar longe do nosso lugar de origem nos deixa demasiado românticos quanto ao mesmo…

Olá. :)

Ed
2008-01-03 07:05:37

Olá, Lorena.

 
 
2008-01-24 04:43:25
 
2008-02-08 10:00:08
 
 
2008-02-17 14:36:00

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2008-03-15 10:01:01
 
 
2008-04-08 18:31:46
 
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2008-04-10 05:15:32
 
 
2008-04-14 12:04:40
 
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