da porosidade de certas fronteiras
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October 31, 2011
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Mudei-me (no sentido de deslocamento) de cidade há cerca de duas semanas. Deixei Tucumã, onde moramos (eu e a esposa (n.e.: a minha)) uns poeirentos dezoito meses e agora habito uma nova casa (nova mesmo, no sentido de recém construída) no principado de Ourilândia, onde já havia morado (vide um dos posts anteriores). A distância entre um local e outro é de sete quilômetros de estrada ruim e compulsória (não há outra). As coisas ruins e compulsórias da vida.
Aqui na casa nova tenho menos problema com poeira: a rua é “bloquetada” — asfalto é coisa de gente abastada. É uma vantagem notável se você for considerar que meu laptop da maçã estava amarelo, não obstante meus esforços semanais para mantê-lo limpo (lá na outra casa, a sete quilômetros daqui) e agora está branco novamente, o que diminui o grau de vergonha que me abate sempre que desço para o sudeste (“nossa, ‘tá sujinho, né?”) — sempre uma experiência de quebra de paradigma porque, bem, o razoavelmente limpo daqui é o imundo de qualquer (mais ou menos) outro lugar.
Por outro lado, aqui, nesta nova casa com quatro banheiros e uma sala imensa (comprei um par de patins para andar de um lado para o outro. mentira) não tenho internet. Minha plaquinha (plaquinha é o modem 3g dos paraenses) não funciona aqui, estou em área de sombra, como dizem, e a sombra aqui é bem grande. Idem para o sinal de telefonia, de modo que o deslocamento do início do texto acaba em isolamento, de certa forma. E como hoje é feriado (dia do evangélico. sim. e corpus christi não é feriado aqui, ou seja) eu preciso ligar o computador, colocá-lo no carro (no banco do carona) e sair para encontrar o sinal, caso eu precise de internet (muito comum). Fiz isso hoje e quebrei a cara porque a cidade inteira está, por acaso (muito comum), em área de sombra hoje — eu disse que a sombra era das maiores.
Ao Oliver não apeteceu o novo lar. Oliver é meu cachorro.
***
Aquele livro que comecei a escrever uns duzentos anos atrás: não sei, não posso saber. É um projeto da Ordem do Desporto e, portanto, não há obrigações.
Os últimos livros que não li (completamente), embora tenha tentado: ‘Liberdade’ [Franzen] e ‘Nêmesis’ [Roth]. Sobre o primeiro tenho a dizer quase nada a não ser que é um bom livro, linguagem elaborada, conservadora e moderninha ao mesmo tempo, bons personagens e passagens que me fizeram rir por diversas vezes — não em função de qualquer tom de comicidade, mas pela ironia — e eu não consegui mesmo assim, deve ter sido falha minha. Sobre o segundo, bem, acho que alguém que não tenha lido todos os livros anteriores do autor, como ‘Homem comum’ e ‘Fantasma sai de cena’, pode aproveitá-lo e percebê-lo mais adequadamente. A mim pareceu qualquer coisa de repetição.
Estou lendo há uns três dias o hype (de nicho) ‘A máquina de fazer espanhois’, do português Valter Hugo Mãe. Agrada-me o que escrevem os portugueses e estou de facto a gostar, apesar de a história reforçar a obsessão da literatura contemporânea com a velhice, com as ‘coisas de velho’.
Ok, não é necessário que me falem da “mensagem”, da, oh, “metáfora”.
Hoje bati com uma edição novinha de Anna Kariênina nos joelhos brancos da esposa. Ela entendeu.
Releio mil coisas entre uma página e outra do livro que estou a ler correntemente, digamos assim. Um dos meus preferidos para reler assim de vez em quando é o Foster Wallace –
A pessoa deprimida estava com uma dor terrível e incessante e a impossibilidade de repartir ou articular essa dor era em si um componente da dor e fato de contribuição para o seu horror essencial
–, que sempre me deixa com a sensação de o estar a ler pela primeira vez.
***
Twitter (/edjr): escrevo pouco e não falo de quase nada do que esteja a acontecer por aí. Acompanho umas 400 pessoas e acho que a maioria é mais ou menos como eu.
Cinema: assisti o último ‘Planeta dos Macacos’ outro dia, no Rio. Algum divertimento. No geral, estou por fora.
Shows: também no Rio fui ver Primal Scream, em setembro. Fazia uns bons anos que eu não via qualquer coisa e fui muito bom. Sexta-feira, 4, vocês podem me encontrar em São Paulo: vou ver o Pearl Jam.
Séries: estou assistindo via cabo à nova temporada de Damages, de que gosto muito. Game of Thrones: não sei quando vem coisa nova e já estou no terceiro volume dos livros. Breaking Bad: gosto, gosto, mas só vi até a terceira temporada. Treme: comprei o primeiro ano, assisti uns cinco episódios e, por pura displicência, não terminei (ok, aquela trompetada irrita um pouquinho só).
Ar-condicionado: não vivo sem.
Tapete: a esposa fica bastante brava quando Oliver deixa marcas com as patas sujas e eu sou obrigado, ato contínuo, a varrer a casa inteira.
Vassouras: quis saber outro dia se onde ela comprou essas não tinha para adulto (n.e.: cabo muito baixinho causa dor lombar).
Sofá: compramos um tão, tão grande que estou alugando as partes ociosas.
BlackBerry: mesmo em casa, sempre ponho terno e sapatos (a gravata é dispensável hoje em dia) para ler ou enviar qualquer mensagem. É um aparelho muito sério.
pastiche
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April 24, 2011
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“(…) e quero dizer desde já que rejeito totalmente o mundo vulgar, acanhado e fundamentalmente medieval de Freud com sua procura inaceitável de símbolos sexuais (mais ou menos a mesma coisa do que procurar acrósticos baconianos nas obras de Shakespeare) e com seus embriõezinhos amargos a espionar, de seus nichos naturais, a vida amorosa dos pais.” [Nabokov]
Há mais de um ano fora de Belo Horizonte – onde estive esta semana e onde senti, não é de se pasmar, saudade desta terrinha chamada Tucumã, no sudeste do Pará. Não é de se pasmar, e com tal afirmação faço cair queixos que antes e por várias vezes me disseram que não, eu não conseguiria viver fora da cidade porque sou “urbano demais”. Não sei o que ser urbano demais significa.
Ser urbano demais significaria não conseguir viver sem o cinza pintado pela poluição oh oh ou sentir a falta insustentável de shoppings? Eu posso lidar com isso. Ademais, faço compras sem precisar estar fisicamente plantado seja lá onde for.
Um ano fora da cidade e eu estou muito bem, obrigado, embora tenha ido parar em Belo Horizonte em consequencia de certas dores toráxicas. Voei cerca de 3 horas num avião-leito, plugado naquele monitor de sinais vitais, tomando soro pelas veias e amarrado numa maca. Notei que meus sinais vitais não pararam sequer um minuto, incrível. (Sobre os barulhinhos emitidos pelo monitor: a eles somada a voz de Thom Yorke, teríamos mais um disco do Radiohead). 658357 exames depois, o diagnóstico puro, simples: estresse. Não há nada de errado com meu coração. Mas bem que eu poderia estar a fazer algum exercício físico (vou seguir o exemplo de um amigo e comprar um Wii).
The Social Network: aquela profusão de frases encadeadas numa velocidade que – ei: falar rápido não configura inteligência.
Somewhere: gosto da Sophia, gosto de Phoenix, gosto de Ferraris, gosto de filmes vagos, tão expressivos quanto fotografias em movimento.
Estou a ler, concomitantemente, Speak Memory, a autobiografia do Nabokov; O Silmarillion, a gênese da mitologia de Tolkien, e The Innocence of Father Brown, Chesterton. Todos fabulosos e excelentes.
Estou trabalhando à beça, com prazer. A realidade corporativa é engraçada, justifica o estereótipo que dela se faz; os chavões são muitos e os hábitos, peculiares. Não há crítica, contudo, a ser feita. Cabe somente e tão somente ao indivíduo evitar a) desligar-se do mundo exterior e b) tornar-se uma espécie de Bartleby sinistro.
Minha esposa leu há pouco Cândido ou o Otimismo e ficou encantada.
Conheci São Félix do Xingu há algumas dias; andei de barco e comi peixe (depois de anos).
Oliver, meu cachorro, está enorme e cada vez mais dócil e amigo, a despeito da ideia que se faz da raça (rotweiller).
Ler no iPad é-me algo já concreto, mas não me impede de comprar livros tradicionais.
Ainda leio quadrinhos – só Vertigo, basicamente. Sem paciência para DC e Marvel.
“O fato mais inacreditável a respeito dos milagres é que eles acontecem.” [Chesterton]
Páscoa, hein?
ah, oi
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July 14, 2010
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Nada me diz o relativismo do tempo, porque, bem, não lhe dou ouvidos. Entretanto, como é assaz persistente, sofro de qualquer maneira os seus efeitos. Não faz sentido, sei bem, mas eu também não quero fazer sentido ao final do expediente numa terra onde o inverno é um rumor. A gente faz muito mais sentido no frio.
fuck yeah ironia teológica indianista
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May 10, 2010
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Então, tomando uma Coca-cola ao lado de índios kayapós que fumam Derby, aprendi que ‘amém’ no idioma deles, o jê, quer dizer ‘chuta’.
Elitista, eu?
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May 1, 2010
Categoria: cotidiano | 6 comentários
(texto escrito sem qualquer critério de ordenação por pura preguiça)
Dou-lhes de bandeja, para uso enquanto corpus de análise, um retrato breve dos meus dias nesta terra brasileira chamada Ourilândia do Norte. Quando não estou foragido no quarto da esposa (sim, estamos em quartos separados), estamos juntos n’algum hotel a poucos metros de distância – tem sido comum pegar táxi para ir onde iríamos caminhando, estivéssemos em Belo Horizonte. Para que entendam: estamos, eu e minha pequena, no que chamam ‘alojamento’, um ajuntamento de quartos com uma ou duas camas, tv, frigobar, uma mesinha, um guarda-roupa e um banheiro. A única separação entre um quarto e outro é um ‘compensado de madeira’ – o que justifica o supramencionado: se eu quiser ter com a minha mulher, preciso sair daqui.
Parêntesis. O meu cargo aqui me reserva o direito de ficar numa suíte; quando cheguei, há pouco mais de um mês, a recepcionista não atentou para esse fato e eu não quis reivindicar a regalia, mesmo porque não sabia o que me esperava. Botaram-me num quarto cujo banheiro é compartilhado com o sujeito que fica no outro quarto, ao lado. Funciona assim: se eu vou usar o toalete, preciso trancar a porta do hóspede vizinho, e vice-versa. Deu certo por uma semana, mais ou menos, na medida do possível. Daí comecei a notar que todos os dias, ao chegar no quarto no fim do dia, um cheiro muito estranho tomava o lugar e eu não conseguia bem identificá-lo (sou péssimo com sabores e aromas), e isso aconteceu dia após dia até que, ao ver por acaso o vizinho fora do quarto algumas vezes, liguei os pontos: como é proibido fumar dentro dos quartos, ele, após fumar dentro do quarto, acendia logo um incenso para disfarçar. Nada contra cigarro, mas tudo contra cigarro misturado a incenso. Meu Deus, como sou prolixo, não era disso que eu queria falar. Como ia dizendo, ao usar o banheiro comum, é preciso trancar a porta do vizinho e, elementar, DESTRANCÁ-LA após o uso. E por quatro ocasiões, quatro, fiquei trancando do lado de fora do banheiro – e justamente de manhã, quando precisava tomar banho para ir trabalhar. No primeiro dia bati na porta algumas vezes e nada, o vizinho já havia saído. A alternativa foi correr para o quarto da esposa e tomar banho lá. Na segunda vez foi a mesma coisa, e então, ao fim do mesmo dia, chamei o vizinho pela porta da frente (não pela do banheiro) e, em tom de brincadeira, disse: “o sr. se esqueceu de destrancar banheiro pela terceira vez, hein!” Ele, um senhor gordinho, ficou todo embaraçado, fez cara de “tsc tsc” e pediu desculpas. No dia seguinte, repetiu a mesma façanha e daí eu já não sabia se o cara era lerdo ou estava de marcação comigo. Aí já era demais e então eu só quis saber da minha suíte de compensado, onde estou agora. Fecha parêntesis.
Pode parecer que o que escrevi acima configura algum tipo de reclamação e não é verdade; estar no alojamento é um luxo. Lá fora, nas ruas de terra desse lugar em meio à floresta amazônica, debaixo de um sol de quase 50 graus (fora de brincadeira), onde traços de civilização não passam disso, traços, onde sequer chegam jornais e pessoas semi-analfabetas e muito pobres ganham a vida com pequenos comércios à beira da única estrada mais ou menos asfaltada que existe aqui, bom, lá fora é bem pior. Por exemplo: não há transporte público, não há água potável, escolas são poucas e a maioria de nível fundamental e sem a menor infraestrutura. Faculdade, desnecessário dizer, é sonho. Segurança pública é uma galhofa: são SEIS policiais militares para cuidar de todo o município e não existe 190. Nem vou falar do sistema de saúde.
Todos os meus amigos perguntam como é que estou agüentando viver aqui e, eu sei lá, vai ver não esteja. O que sinto é que estou metido num expediente de trabalho em campo que vai durar por uns dois anos. Não posso negar as experiências minimamente pitorescas pelas quais muitos pagam, como, sei lá, sobrevoar a Amazônia num bimotor. Mais do que me impressionou a floresta, deixou-me de boca aberta a quantidade de assentamentos do MST que se vê aqui – casinhas de palha, bambu etc., nada de lona. E como eu odeio o MST.
Sinto imensa falta dos meus livros, imensa. Trouxe comigo um Petrônio, um Salinger e o livro dos Wunderblogs (que deixei ou no avião ou num hotel, um pesar) e, quando fui a Belém, comprei o livro do Reinaldo José Lopes. Li todos e agora, vivendo só à base de internet no que toca a leitura, confirmo o que já sabia: preciso de cheiro de livro. Isso se resolve nos próximos dias: nossa mobília e meus livros farão uma viagem de cinco dias até aqui. A vida deve ficar mais leve.
Ê, Machadão
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March 3, 2010
Categoria: opus | 14 comentários
Nada me tira a ideia de que o que Capitu queria mesmo era um ménage à trois.
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February 5, 2010
Categoria: cotidiano | 3 comentários
Disse ontem, endosso hoje (a situação está insustentável): precisamos de rodízio de gente. “RG final 289 vetado às sextas-feiras…”.
verfremdungseffekt
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February 2, 2010
Categoria: cotidiano | 6 comentários
Como noviço residente de apartamento, outro dia perguntei no twitter sobre a mais adequada conduta a se adotar nessas moradas de babel (quanto às gentes, não quanto à língua; ok, também quanto à língua): ser amigo de todo mundo ou ignorar completamente a existência dos vizinhos. A vontade mais sincera, quanto mais próximos de mim os outros moradores, é fingir que eles não existem at all, mas não é sempre que dá. Fingimento é uma pose que eu respeito e aprecio muito, mas que tem uma falha: depende muito de outrem. Não dá para crer o tempo todo que o prédio é só meu porque, afora morar no primeiro andar (101), um dos meus quartos encima a área comum, onde as crianças desgraçadas brincam, correndo como, er, como crianças, e gritando, e se dependurando nas minhas grades, olhando o que não lhes interessa. Jogando Resident Evil4 num final de semana, sobressaltei-me com duas cabecinhas mulatas na minha janela, olhos arregalados por causa do que acreditavam ser zumbis: “nossa, alá o monstro zumbi, nossa, mata ele moço”. Não são zumbis, suas pestes! Essas pessoas estão infectadas com La Plaga, um verme terrível. Disse isso e eles permaneceram lá, dependurados, porém menos mulatos porque brancos de susto.
Outra coisa engraçada é se sentir naquele filme, Os Outros, nas reuniões de condomínio. Eles lá, falando aquelas besteiras, e você achando, ou querendo, que não.
o ano
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December 27, 2009
Categoria: cotidiano | 5 comentários
(Imitando o Nagel e essa mocinha aqui)
Foi o ano em que me casei, principalmente. A mais importante mudança em minha vida desde que, sei lá, parei de comer pipoca, há 6 anos. O fato de ter saído da casa na qual cresci, do quarto no qual conheci Onan e seus pecados, do ambiende onde joguei Atari quando criança etc. me comove a ponto de eu pensar nisso tudo de vez em quando. E eu chorei no primeiro dia fora de casa, longe da mãe. É preciso apontar que não me é fácil nem usual assumir isso; sou um cara durão, sou o anti-emoções gratuitas. Não foram gratuitas, contudo. Lembro-me agora, quase 3 meses depois, que uma dor de barriga desgraçada me acometeu nas vésperas do matrimônio. “É ansiedade”, disseram-me, mas é claro que eu comi alguma coisa podre, uma merda qualquer, de que não me recordo. Foram dias cheios aqueles; a viagem ao Rio, o dinheiro que se gasta, o estar-sempiternamente-a-demonstrar-alguma-satisfação. Casar cansa, é verdade. É um tanto recomendável que se leve na mala, além de livros, um Playstation.
Sobre livros, não creio que tenha lido tanto em 2009. Não me lembro, estou sem memória. Lá pelo meio do ano me formei em Jornalismo – foi o ano em que o diploma que nada significava nada passou a valer – e, assim, li muitas porcarias por obrigação e algumas outras literaturas que me causaram júbilo, como parte grande da obra de Nelson Rodrigues – aquela que reúne suas crônicas pulicadas dos 50’s até sententa e poucos – a fim de dar cabo da monografia. Foi o ano em que tive a ilusão de me haver livrado da Academia, à qual sei que retornarei em breve. Foi o ano em que li David Foster Wallace, mais Philip Roth, mais Fitzgerald, mais Eça, mais Machado. De quadrinhos, reli Preacher e Watchmen (por causa da adaptação para o cinema, sim) e alguma outra coisa.
Pouco escrevi por prazer em 2009; praticamente abandonei o blog, mas passei a usar frequentemente o Twitter. Não fiz crítica literária, porque passei a tratar de ciência diariamente por demanda profissional. Participei até dum curso do que chamam Jornalismo Científico, em Recife, circa setembro. Nada demais. Alguém, não sei quem, escreveu que, quando se acompanha muito a ciência, perde-se contato com o mundo. É o que eu sinto, às vezes.
Passei também a gostar mais de séries. Acompanhei – e acompanho – religiosamente Lost, 24 Horas, True Blood, Damages, Fringe, House MD, The Big Bang Theory, Californication. Com atraso, estou assistindo à última temporada de Sopranos – que, poxa, é genial. Fui pouco ao cinema.
Foi também o ano em que deixei de usar tantos sapatos de couro e passei a usar tênis. Foi quando propus ménage à trois e obtive afirmativa como resposta, foi quando descobri ótimas bandas, como Kasabian, Architecture in Helsinki, Manic Street Preacher (obrigado, Donato), Editors, Arcade Fire, Peter, Bjorn & John, The Decemberists etc.. Mas perdi o show do Radiohead.
É domingo e estou um pouco bêbado, na verdade. Sei que devo estar deixando passar eventos importantes, eu sei. Ah, sim: 2009 foi quando quando vodka se me tornou vulgar.
dementia
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November 11, 2009
Categoria: oh | 3 comentários
(daqui)
rio
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October 22, 2009
Categoria: cotidiano | 7 comentários

Pronto. Fodeu. Casei-me. Na igreja – que heresia – pus Led Zeppelin como música de saída, pulei Pearl Jam na festa e, desde segunda-feira, estou no Rio de Janeiro caminhando em Copacabana, visitando bistrôs, andando em bondinhos e tomando sol a ponto de poder concorrer a cotas para negros em universidades. Ou o meu reino por um protetor solar fator 1000.
altare
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September 13, 2009
Categoria: cotidiano | 15 comentários
Caso-me logo ali e, para que possa escrever a respeito, tenho tentado encontrar no acontecimento algum sentido literário ou, no muito, pitoresco; quando encontro, este é trágico, lembra-me o casamento de Lord Henry, aquele personagem daquele livro que vocês sabem qual. De maneira que é preferível eu me calar/ abster em troca d’alguma paz ignorante. Às vezes folheio Cinco Casamentos Vitorianos, duma tal Phillys Rose; livro ruim que me caiu nas mãos não sei como e que em nada me ajuda.
Participei há uns dias, em Recife (que sotaque, que calor), dum curso de Jornalismo Científico promovido pelo Departamento de Ciência e Tecnologia (Decit) do Ministério da Saúde, onde conheci esse sr. cuja dissertação de mestrado trata de Tolkien – e que também é jornalista de ciência da Folha.
A propósito, ontem passei o dia num outro curso: Encontro de Noivos. É. O sábado inteiro. Com direito a participar de rodinhas católicas moderninhas que debatem sexualidade.
O Pedro Mexia está aqui.
E esse Irmão Lúcia é também um tanto recomendável.
E descobri hoje que meu protetor solar é, como se diz?, fator 15. Que merda.
B.E. no 30 03-97 Drury UT
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September 9, 2009
Categoria: citação, Literatura | 5 comentários
“Eu tenho de admitir que era uma boa razão para casar com ela, pensei que não ia ser fácil conseguir melhor que ela por causa do jeito que ela tem um corpo bom mesmo depois de ter tido filho. Em forma, bom, boas pernas — ela teve um filho mas não ficou toda estourada, cheia de veias, caída. Pode parecer grosso, mas é a verdade. Sempre tive o maior horror de casar com uma mulher bonita e aí a gente ter filho e isso acabar com o corpo dela mas ainda ter de fazer sexo com ela porque foi com essa que eu assinei o papel para fazer sexo o resto da minha vida. Isso deve parecer horrível, mas no caso dela era como se ela já estivesse pré-testada — o filho não estourou com o corpo dela, então eu entendi que ela seria uma boa para assinar o papel e ter filhos e ainda tentar fazer sexo. Parece grosso? Me diga o que você acha. Ou será que falar a verdade nesse tipo de coisa sempre parece grosso, entende, as razões verdadeiras de todo mundo? O que você acha? Parece assim?”
[David Foster Wallace in Breves Entrevistas com Homens Hediondos]
Esquizofrenia literária e tal
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July 10, 2009
Categoria: Literatura, opinião | 7 comentários
Estou a ler o Exit Ghost, do Roth. Ainda no comecinho, mas tenho gostado. No ponto no qual parei um jornalista desejar entrevistar o nosso já conhecido Zuckerman a fim de colher informações sobre outro escritor, um tal Lonoff, já morto. O objetivo do jornalista, um sujeitinho de 28 anos, é, claro, escrever uma biografia. “Para quê?”, pergunta Zuckerman. “Para revelar os segredos do autor”. “Revelar segredos para quê?” O diálogo não acontece exatamente assim, mas vocês entenderam.
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Eu nunca fui à FLIP, não sou grande entusiasta de feiras, concursos e eventos correlatos (minha opinião sobre isso é já bem conhecida), mas fiquei um bocado decepcionado com esse artigo, publicado no site da revista Dicta e Contradicta – da qual gosto muito. Afirmar a que a feira literária é um “sintoma da esquizofrenia literária e cultural que atingiu o Brasil” é, além de um exagero dos diabos, uma grande bobagem. Martim Vasques da Cunha, autor do texto, argumenta que essa “esquizofrenia” se deve ao fato de que, enquanto “escritores ruminam sobre o fracasso, o seu público deseja somente o sucesso”. Cunha fala em “dissonância cognitiva”, um negócio que qualquer leitor conhece muito bem: aquilo que se lê não é o que se esperava/ desejava ler – e isso, em hipótese nenhuma, anula o prazer da leitura. Noutros termos: há um abismo entre o que pensa o autor e o leitor. Ora, falei em Philip Roth e aqui novamente o cito: alguém que, aos 25 anos, já tenha lido Everyman ou esse mesmo Exit Ghost terá se identificado profundamente com aquela literatura? Não deveríamos, então, dizer que o mundo literário, todo ele, padece de, humn, esquizofrenia?
cenas
Postado em
July 2, 2009
Categoria: cotidiano | 13 comentários
Já não faço mais faculdade (estou me gabando). Tenho diploma, orgulho-me da nota máxima na banca avaliadora (graça alcançada) e, embora com tendências à literatura, pratico o que chamam j0rnalismo científico e às vezes passo um dia inteiro fotografando moluscos. Ou flebotomíneos.
Caso-me a 17 de outubro e já comprei meu primeiro eletrodoméstico: um playstation2.
Há cerca de seis meses não leio nada sem um objetivo que não o de entreter-me – e isso aborrece. Neste momento do qual escrevo faço valer a ilusão de que agora, terminadas, por ora, as obrigações acadêmicas, terei tempo para retirar da estante os últimos livros que comprei, ouvir música francesa, dormir cedo e, ah, dar cabo das missões de Prince of Pérsia.
Vou morar em um apartamento. Dois quartos, dos quais um será inteiramente ocupado com meus livros e minhas tralhas (minha noiva ainda não sabe). Quero ter um cachorro, bulldog ou bouvier, mas tenho dó do bicho: ficar preso em um apartamento deve ser de doer. Ainda não cheguei a um veredicto.
Mas eu preciso de um cachorro porque agora a noiva cismou de viajar todo mês ao Pará (volta de lá com as bochechas vermelhas como o quê; dizem que é um sol impossível). E tem espírito a pequena, tenho de assumir: não me deixa levar outras mulheres pra casa na ausência dela.
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