artificialmente aromatizada

Postado em July 3, 2008
Categoria: cotidiano | 7 comentários

Continuo cercado de livros por todos os lados e, no entanto, nota-se que tenho escrito muito pouco sobre literatura, porque antes eu era um crítico - vivia a procurar pontos criticáveis nas obras que lia - e hoje estou apático porque, ironia das ironias, vejo falhas em todos os lugares e elas não me causam dor, não me causam pranto. Visualizem uma caixinha de Ferrero Rocher; notem que cada papelzinho doirado, aquele que envolve os bombons, possui dobras e frisos e brilhos distintos. Dou um passo a mais e lhes peço que ponham em mente o Ferrero em si: por que diabos foram pôr uma avelã inteira em meio à melhor parte do bombom? Eis aí um mistério que, exatamente por não ter explicação, tudo explica: a vida é tipo uma caixa de Ferrero Rocher.

well

Postado em July 2, 2008
Categoria: oh | 8 comentários

Estou a ponto de iniciar um estágio na política e passei os últimos dias ociosos a assistir The Sopranos. E decidi, assim do nada, que vou fazer aniversário hoje. É uma vida razoável.

Postado em June 25, 2008
Categoria: música | 17 comentários

Que me perdoe o senhor Tom Waits, mas estou a ouvir as músicas do Anywhere I lay my Head não pelas músicas em si, mas pelo decote, para ser simples, da agora cantora Scarlett Johansson.

E notem que há uma coerência aqui: já vi uns bloody biltres reclamando que o ruim do mp3 é o fato de não se poder “pegar no material”.

(…)

Exatamente.

voyeur

Postado em June 20, 2008
Categoria: Take me to the place where the white girls dance | 21 comentários

I Just don’t know what to do with my vicious. Vocês vão se lembrar que há algum tempo escrevi por aqui sobre a proposta de ménage à trois que fiz à minha noiva. Ela, para derrubar o meu argumento, disse sentir-se duas mulheres e eu, com cara de bobo, emudeci desde então.

Mas o vinho tem lá os seus efeitos e, recentemente, voltei ao tema com a delicadeza que só o torpor nos proporciona, e porque eu sou uma flor de obsessão, ou não uma flor – que sou excessivamente machista – e sim um, vá lá, cravo. 

Esses anos todos fizeram nascer entre nós uma intimidade muito – ah, sim – bonita, cuja manifestação dá-se em momentos específicos, sob determinadas circunstâncias, sobre indeterminado leito. Voltei ao tema como quem volta a fumar após uns meses sem inalar nicotina, e isso quer dizer “com imensurável deleite”, se é que me podem compreender. 

E como são já bem conhecidas as minha idéias fixas, ela se permitiu ouvir atenciosamente, com os olhos até, o prólogo dos meus desejososo propósitos. Em nenhum momento ouvi qualquer negativa que fosse definitiva, e todas as suas expressões queriam dizer algo como “talvez” ou “quem sabe um dia”. 

A maior pedra no meu caminho, ou no meu sapato, está no fato de ela ser profundamente heterossexual (uma mulher absolutamente heterossexual, onde é que já se viu?). Porque, não sei se isso lhes está claro, a minha satisfação não depende unicamente da presença de uma outra nynphet à cama conosco. Sem a possibilidade de relações lésbicas eu não assino o contrato, e nada feito – ou assim é que deveria ser.

Mas a minha pequena, vocês sabem, é administradora por formação e possui aquele cérebro prático, ainda que bastante liberal, e, assim, pôs sobre a mesa – sobre a cama, digo – uma contraproposta que direi mesmo irrecusável: se eu abdicar de algo que ela, como minha noiva, me deve há tempos, ela dirá sim ao meu cândido convite e participará da minha perversão desde que [cláusula primeira] seu papel seja apenas o de uma voyeur.

Esvaziei a taça e disse, beijando-lhe a fronte: “estamos conversados”.

quadrinhos de esquerda

Postado em June 20, 2008
Categoria: cotidiano | 10 comentários

Por esses dias minha classe na faculdade precisou apresentar trabalhos sobre mídias alternativas e tal. Num sorteio meu grupo saiu com o tema “blogs”. O.k., mas não é disso que quero falar. Quero falar do convidado de um outro grupo, personagem, dizem, afamado por essas paragens: um quadrinista independente. Confesso que já ouvi algo a respeito, mas nunca o vi nos engarrafamentos - que é onde ele vende suas revistas, títulos como “o apocalipse de belo horizonte”, “capeta do vilarinho” etc.. Seu nome é algo como Lacarmélio, mas todos que o conhecem o conhecem por Celton, o personagem central de suas histórias. Bem, lá estava ele, de pé no meio da classe, com uma mochila sansonite amarrada ao cinto e cheia de, vocês sabem, revistas. Usava uma camisa na qual lia-se a frase “leia Celton”, escrita à caneta, uma calça social e tênis all star. Deve ter uns 50 anos, o senhor; talvez mais.

De maneira um tanto grosseira, falou da sua carreira, de como começou a desenhar, de como seu trabalho foi rejeitado pelas editoras durante tanto tempo até que decidiu, porque sim, tornar-se independente. Aquela balela.

Num certo momento, quando falava que inspiração não existe, que seu ofício é 99% transpiração, essas coisas, pegou numa cadeira e:

__Se eu quiser escrever uma revista sobre esta cadeira, eu posso fazê-lo. Há nela muito a ser contado, várias histórias, várias lições…

E eu, até então mudo, singelamente, perguntei:

__E isso venderia?

Aí uma colega me deu uma cotovelada e eu olhei p’ra ela com aquela cara de “eu disse alguma coisa errada?”.

Postado em June 10, 2008
Categoria: Literatura | 8 comentários

Vá lá saber se eu devia tê-lo feito, mas acabo de passar de Wodehouse para Gorki.

mon chou

Postado em June 6, 2008
Categoria: oh | 3 comentários

“Fiel no que toca ao sentimento, mas não em relação à carne”, disse-me, com muito jeito, uma pequena com quem eu há muito não falava. Minha atitude não foi das mais espalhafatosas, mas creio ter erguido um pouco a sobrancelha, posto que era a mim que ela se referia. Além disso, talvez eu tenha emitido um resmungo, ou um sussurro inaudível, não me lembro. O que lembro é que não me esforcei muito em convencê-la que sou, sim, também fiel no que concerne às relações carnais, ainda que com algumas xícaras de café e longos passeios entre a literatura e pornografia, à minha couve (lá pelas paragens da Europa chamar uma mulher de couve é um gesto muito carinhoso).

nabokov

Postado em June 4, 2008
Categoria: Literatura | 4 comentários

Leiam isso. E olá.

obrigado, Jeeves

Postado em May 28, 2008
Categoria: cotidiano | 12 comentários

 

A fim de causar alguma invejinha, só queria dizer que cá estou a tomar iogurte de morango, daqueles com polpa e tal, enquanto leio P. G. Wodehouse. O que? Você está a trabalhar? Shame on you, my poor devil, shame on you.

in bed

Postado em May 26, 2008
Categoria: cotidiano | 6 comentários

Ainda me estou a recuperar de uma gripe desgraçada que me acometeu na última quarta e me deixou in bed até ontem, quando minha pequena veio, cheiro de talco e uniforme engomado, cuidar de mim.

 

O que é ter uma mulher para cuidar de você. Quando ela chegou eu já me sentia razoavelmente bem, mas fiz uma questãozinha de estender um pouco o meu lastimável estado a fim de estender também as diligências a mim dedicadas. Quando o jantar me é servido na cama ou quando me compram danoninho eu juro que entendo as crianças mimadas.

 

O instinto maternal de uma mulher é algo mesmo bonito, e por isso é que eu não consegui esbravejar quando ela chegou e abriu as cortinas para deixar entrar o sol (para “arejar”, ela disse). Mas eu ainda resistia, ou desistia, na cama, com as mãos sobre os olhos, protegendo-me da luz, quando ela, numa voz que mais me pareceu um trovão, imperativamente, disse : “Levanta-te e anda” (sorry se romeceei demais, não pude evitar). Obedeci. Fui ao banho, almoçamos e ela me propôs irmos às compras. Compramos roupas e fomos comer pizza.

 

Se você me visse lá, sentado na praça de alimentação, conversando e tomando coca-cola gelada, eu certamente lhe pareceria muito bem. É que é saudável ficar doente às vezes.

Φιλοσοφία

Postado em May 22, 2008
Categoria: oh | 8 comentários

O que separa a filosofia da pornografia é a pausa para o cigarro.

Olá, Aloysius

Postado em May 16, 2008
Categoria: Literatura | 15 comentários

“Açougueiros, por exemplo: tornam-se parecidos com bifes crus.” [JOYCE, James. Ulysses.] 

É um tanto usual acharmos, vez por outra,  aquele velho e querido amigo um grande e incorrigível chato. Após mais de um mês debruçado sobre Joyce, é com esse mesmo sentimento que largo agora o irlandês para, a fim de reparar os danos que me causou o Ulysses, retirar uma vez mais da estante o Brideshead Revisited. Sinto-me como se tivesse acabado de deixar uma palestra maçante para ir ter com uma pequena diante de uma mesa de chá – e falar com algum desdém sobre autores dublinenses, quem sabe, ou a respeito de simpósios aborrecedores.

aquela música dos doors

Postado em May 8, 2008
Categoria: blogs | 4 comentários

Minha paz, a que encontro ao engraxar os sapatos à 1h da manhã, foi abalada pela notícia de que o Wunderblogs chegou ao fim. É mesmo uma pena, digo de coração; mas é tarde e tenho que terminar o outro pé.

Houellebecq

Postado em May 7, 2008
Categoria: Literatura | 5 comentários

Conhecemos as pessoas durante anos, até mesmo dezenas de anos, habituamo-nos a evitar os problemas pessoais e os assuntos verdadeiramente importantes, mas guardamos a esperança de que, mais tarde, em circunstâncias mais favoráveis, se possam justamente abordar esses assuntos e esses problemas. A esperança, sempre adiada, de um relacionamento mais humano e mais completo nunca desaparece completamente, porque nenhuma relação humana se contenta com limites definitivos, restritos e rígidos. Permanece, portanto, a esperança, de que haja um dia uma relação «autêntica e profunda». E permanece durante anos, até mesmo décadas, até que um acontecimento definitivo e brutal (em geral, uma coisa como a morte) vem dizer-nos que é demasiado tarde, que essa «relação autêntica e profunda», cuja imagem tínhamos amado, também não existirá; não existirá, tal como as outras.

[Michel Houellebecq, in ‘As Partículas Elementares’ ]

média aristocracia

Postado em May 6, 2008
Categoria: cotidiano | 5 comentários

Causa-me embaraço a minha linhagem nobiliárquica quando, ao chegarem casa, noite já avançada, não encontro pronto o jantar.

keep looking »