Uma cegueira
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May 18, 2009
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Recuaram esses como puderam, Há ali mortos, há ali mortos, repetiam, como se os próximos a morrer fossem eles, em um segundo o átrio voltou a ser o remoinho furioso dos piores momentos, depois a massa humana desviou-se num impulso súbito e desesperado para a ala esquerda, levando tudo à sua frente, desfeita a resistência dos contaminados, muitos que já tinham deixado de o ser, outros que, correndo como loucos, tentavam ainda escapar à negra fatalidade. Em vão corriam. Um após outro, todos foram cegando, com os olhos de repente afogados na hedionda maré branca que inundava os corredores, as camaratas, o espaço inteiro.
Gran Torino: choque cultural
Postado em
May 13, 2009
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Já vi e li tantos comentários, tantas opiniões e tantas resenhas do filme Gran Torino, de Clint Eastwood, que me senti chateado com a incapacidade dos “críticos” dizerem o óbvio, o evidente: Gran Torino é melhor do que os 5 filmes que disputaram o Oscar de Melhor Filme. Não que o Oscar seja parâmetro para algo; Kubrick nunca ganhou um, por exemplo. Mas impressiona como filmes visivelmente inferiores, se não em concepção mas certamente em realização, receberam maior acolhida pela Academia.
Eu poderia falar por vários ângulos sobre a superioridade de Gran Torino, mas acho mais profícuo estabelecer a relação que cada filme apresenta com nosso tempo, embora apenas um dos cinco se passe efetivamente nos anos 2000, em sua maior parte. Trata-se de Slumdog Millionaire, vencedor do Oscar e primeiro de que trato.
Aparentemente, Slumdog Millionaire está afinado com algo caro aos dias de hoje: a globalização e a consequente valorização de culturas não-ocidentais. Há vinte anos seria muito estranho um filme rodado na Índia (embora com capital e diretor britânicos) catalizar tantos interesses e espectadores. Sem dúvida contribui para isso a procura das pessoas por outras formas de ver o mundo, em especial as orientais. Nesse sentido, Slumdog Millionaire tem seu maior trunfo em potencial. Mas é exatamente contato com novidades culturais que não temos ao assistir ao filme.
Construído como uma fábula bonitinha em que o destino dá as cartas, sempre com o fim último de garantir ao protagonista a felicidade, o filme acaba por mostrar os vícios da sociedade indiana de modo pasteurizado. A prostituição infantil, os massacres étnico-religiosos, as condições precárias de vida são episódios na trajetória de Jamal, e só no transporte abstrato da ficção para a realidade realizado pelo espectador (quase nunca o comum, que é mesmerizado pela louvável e apurada técnica cinematográfica) é possível enxergar estes males como mazelas da sociedade indiana. O filme, em si, faz de um evento trágico (um massacre religioso, logo no começo do filme, serve de exemplo) apenas mais um momento de interesse na vida de Jamal e que inverossimilmente servirá de superação, pois dali virá a resposta para uma das perguntas do Show do Milhão a que ele se submete. Em suma: a forma do filme não critica, apenas junta episódios.
Portanto, o choque cultural é filtrado por uma fórmula atenuadora de diferenças e convertido em mera espetacularização de cenários e figurinos. Há até a figura deliberadamente ambígua, o irmão de Jamal, convertido ao final do filme em boa gente. Em suma, um filme sem grandes ideias, sem grandes questionamentos, com uma forma convencional e fácil para cativar o público mais acostumado com melodramas. Para efeito de rápida comparação, um filme tão otimista quanto Slumdog é Central do Brasil, mas neste ainda resiste uma estética de incontornabilidade dos fatos ruins. Em Slumdog vemos uma superação tão mentirosa quanto pseudo-redentora.
Em contrapartida, Gran Torino esforça-se em particularizar os momentos de choque cultural, em que sempre há evidente preconceito de ambas as partes: o homem branco herdeiro da Guerra Fria e os asiáticos em busca de uma vida mais decente, mas sem perder as raízes. O choque não é suavizado: os preconceitos eclodem de modo bastante não-politicamente-correto, ainda que com efeitos cômicos. Se a estrutura do filme ainda é pautada por um ou outro clichês, como por exemplo o sentimentalismo do final, estes aparecem com muito mais nuances: no fim, o preconceito racial está ainda presente, mas ironizado. Os americanos yuppies sem nenhum respeito à tradição católica sentem-se mal com a presença dos hmong na missa pela morte de Walt Kowalski, muito embora estes saibam respeitar os ritos muito melhor do que os familiares de Kowalski. Assim, o sentimentalismo resta no filme também como uma pequena ironia aos filmes típicos em que a família lamenta a morte de um parente: os filhos não sabem lamentar a morte de Kowalski tão bem quanto os orientais.
Gripe palmeirense
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April 29, 2009
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Quantas pessoas morrerão nesta nova quase-pandemia? Eu fiquei três dias sem net e pronto: já estavam debatendo modos de conter uma epidemia global, ai minha nossa senhora, uma tal de gripe suína. Porra. Só falta a gripe equina agora.
Todo mundo com máscaras nos aeroportos, olhando para todos com desconfiança: será que ele comeu um porco resfriado, será que ele beijou um porco tossindo, ai meu deus.
Se não morrer muita gente a OMS vai ficar mais desmoralizada do que já é.
Salvem o McDonalds, salvem meu cigarro com coca-cola
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April 28, 2009
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Enquanto escrevo, enquanto você lê, estou fumando um cigarro. Talvez bebendo alguma coisa. Ou comendo bacon. Ou um sanduíche de uma dessas odiadas redes de fast-food, às quais apenas acho que falta algum trabalho a favor do indivíduo com muita gula (a exceção é o Mega Big Bob). Enfim, estarei fazendo algo que hoje é legalizado, mas amanhã será considerado uma contravenção tão grave quanto, talvez, cheirar cocaína, sei lá.
Todos souberam da lei antifumo aprovada em São Paulo, nem todos souberam da lei antilanches “não-nutritivos” em cantinas de colégios estaduais. Sim, será proibido vender Doritos, Halls e Coca-cola em qualquer colégio, seja público ou privado. Além disso, todas as cantinas deverão ter um pôster explicativo a respeito dos benefícios da alimentação saudável.
Lembro-me de minha mãe, pedindo-me moderação com biscoitos, e me pergunto se no futuro a moderação pedida às crianças será com alface. Não, filho, não coma tanta alface, toma aqui um suco de laranja com açúcar, ao que a criança replicaria, ciente de suas obrigações para seu corpo: com ADOÇANTE!
Qual será o próximo passo? Proibir a televisão para menores de 5, 7, 10 anos sob o argumento de que prejudica a visão? Ou até proibir a leitura “exagerada”, para que não tenhamos mais tantos quatro-olhos por aí?
Sem contar num provável ranking das pessoas menos saudáveis do bairro, por exemplo: esse cara está 10 quilos acima do peso, é um irresponsável, mas isso é porque você não viu a Lu, ela toma refrigerante light uma vez por semana!, mas que absurdo, o governo deveria fazer algo, e sim, o governo faz algo, passa a proibir a venda de refrigerantes. Os cigarros, as bebidas alcóolicas, todos já há muito proibidos, são consumidos nas periferias. Antes, quem tinha baratos com cocaína praticamente chega ao orgasmo com uma pitadinha de rapé.
Mas ninguém acha que vai chegar a isso, não é?
Temo que já chegou. A ideologia reinante é a da saúde extrema a qualquer custo. Acabar com os fumantes é para evitar aspirar uma fumacinha. Nossas crianças estão suscetíveis à maligna propaganda do chocolate. Lembro das campanhas contra videogames, que fariam mal à visão. Se descobrirem que água faz mal, vão restringir sua venda, tão certo com o sol vai nascer. O Ministério da Saúde tomará conta de todos nós. E vamos ser mais saudáveis, mais felizes, mais panacas. Amando muito tudo isso.
Se eu tivesse um Twitter teria escrito assim:
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March 23, 2009
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Aquilo não foi um show, foi a expressão sincera e bruta do significado de catarse.
Sobre essa coisa de “crítica literária”
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March 19, 2009
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Eu já vejo tanto absurdo que é preciso escrever um. Já vi pessoas falando da obra de Kafka com aquela emoção e dizendo assim: “representa o peso da burocracia sobre o homem moderno”. Por mais semelhantes que possam parecer, os vagares de Joseph K., ou simplesmente K., ou mesmo o pobre Kafka de seus pesadelos tão terríveis quanto infantis (termo não-pejorativo), esses vagares ao redor de castelos e processos não são da mesma estirpe de nossas atribulações e nem por um segundo podem ser interpretados como alegorias de burocracia alguma. Quem já esteve em bancos para ser atendido (espero que os atendentes sintam a mesma coisa, ou começaria a duvidar do caráter deles) sabe que não há nada de literário em taxas, sobretaxas e papéis e mais papéis que de nada servem. Se Kafka tivesse realmente escrito sobre a burocracia, Max Brod deveria ter sido queimado.
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Outro lance esperto é tentar descobrir a “argentinidade” de Jorge Luis Borges. A única coisa que Borges tem de efetivamente argentino é o que Galvão Bueno chamaria de “essa catimba argentina”. A importância de Martín Fierro, dos pampas, das ruas de Buenos Aires e tudo o mais? Tenho certeza que há mais Robert Louis Stevenson em Borges do que há Argentina, incluindo o magnífico superclásico. Mas é mais fácil, né gente?, do que ler a biblioteca que o Borges leu. Eu mesmo não tenho coragem.
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Mas o melhor de tudo são as críticas feitas ao Antonio Candido. E não adianta nem ele morrer, porque se tem algum tipo de pessoa que não vira “bonzinho” quando morre, esse alguém é o crítico literário. Tripudiarão do trabalho dele às favas, embora ele conte com seus fiéis defensores. Eu não sou um defensor, embora faça uma defesa oblíqua sendo esperto e aguardando a hora para criticá-lo: quando tiver pelo menos uma “Formação da literatura brasileira”, mas com meu nome no título.
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Eu queria falar das vaidades dos críticos acadêmicos, mas não tem graça.
Mais de um mês
Postado em
February 20, 2009
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Mais de um mês sem escrever significa mais de um mês sem se importar com quem pode ler, quem vai ler e quem vai comentar. Como toda preocupação, é desejável se não há nenhuma outra menos preocupante. É bom se preocupar com coisas desinteressantes. Na próxima semana haverá o famoso desfile de escolas de samba do Rio de Janeiro, e como sempre assistirei alguns highlights até o sono surgir. Na quarta-feira de cinzas vou torcer pela vitória da Imperatriz Leopoldinense, enquanto o cara da tal liga de escolas de samba diz as notas com aquela voz indefinível. Na semana seguinte procurarei escolas para estagiar como futuro professor de língua portuguesa, e quero adiar esta preocupação ao máximo. Isso tudo precisa servir. Se não servir, se a Imperatriz novamente for derrotada pela Beija-Flor, vou me punir escrevendo um poema e postando aqui para deleite de todos.
Receita para uma noite chuvosa
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January 15, 2009
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- The Mentalist (não muito bom, mas divertidinho)
- Duas pequenas coisas da vida.
- Água viva.
Esses russos
Postado em
January 8, 2009
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Uma grande diferença entre Tolstói e Dostoiévski é o que chamo de vulgaridade. O conde amalucado que era Tolstói é incapaz de escrever um período que seja sem deixar de destilar uma coisa parecida com sua própria nobreza. É algo que se percebe em qualquer tradução. Já o velho e pobre Fiódor escrevia com sofreguidão, sem nenhum compromisso com decoros: fazia o seu próprio e o de seus personagens, e derrama seu suor e seu sangue em cada linha. Ler Tolstói é comparável a admirar as estações de metrô russas; ler Dostoiévski é encontrar beleza nas periferias e misérias.![]()
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Refletir não me serve de nada
Postado em
January 6, 2009
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Resolvi reduzir o tempo dos meus intervalos de autorreflexão, três ou quatro ao dia, de vinte para dez minutos. É que sou uma criatura muito repetitiva, quase rotineira – estava perdendo tempo. Ao fim de dez minutos, por vezes menos, estou de novo na estaca zero do que estava pensando. O que sempre me faz refletir no porquê de refletir. O mundo hoje precisa de menos reflexão. Já notaram que todo mundo quer sempre refletir, meditar, pensar com carinho sobre algo? Chega, né? Reflexão demais não leva a lugar nenhum. Quem pensa pensa em qualquer ocasião, pensa até enquanto escreve para outros não pensarem. Avalio minha existência até enquanto como Doritos. Parar tudo e começar a pensar na vida – eis a desculpa mais furada para o ócio. Às vezes, quando tenho insônia, começo a pensar na minha vida; invariavelmente acordo sem me lembrar de nenhuma das minhas conclusões fenomenais. Porque elas só servem para me fazer dormir.
Talvez seja birra de minha parte, não sei. Afinal, sou repetitivo, e por isso não tiro vantagens do olhar-se para dentro. Prefiro que seja assim, é mais simples. Quando se referirem a algo em minha personalidade resmungarei positiva ou negativamente, de acordo com minha disposição. O certo para o mundo seria sermos todos personagens dos filmes de Jackie Chan: não precisamos de interioridade, só precisamos saber bater e/ou apanhar, se fizermos rir tanto melhor.
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Estou ouvindo uma banda de nome pós-moderno: Portugal. The Man. Isso mesmo, com ponto. Vai entender. Veio do Alaska e tem um segundo cd bom. Eles têm algo que gosto, mas não sei bem o que é. Ah, se eu fosse crítico musical, meus dias seriam tão mais divertidos!, eu seria tão profissional!
Não. Gosto do que sou; só não daria um bom romance.
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