Maneiras das asneiras

Postado em October 18, 2009
Categoria Relances | Comente

Sou um entusiasta, como alguns sabem, da Dicta & Contradicta. Nada melhor, nada mais saudável do que a discordância – e um veículo que traga uma perspectiva conservadora, ou mesmo religiosa, sempre será bem-vindo. Mas há momentos em que o relógio pessoal diz: hora de repudiar.

Já conversei com Joel Pinheiro em um dos posts do blog da Dicta, o que não me impede de considerar este último post dele uma asneira. E espero que esta denominação não se converta diretamente em ataque. Afinal, há mais do que vaidades em uma discussão, seja sobre qual assunto for.

Quem ler o texto de Joel Pinheiro verá uma historinha curiosa de um tal Carlos, que imbuído das “melhores intenções” sacrifica indivíduos pensando em um “bem maior”. Por mais caricatural que a história tenha pretendido ser, salta aos olhos a impossibilidade de seu autor de, fora referências inverossímeis, retratar de algum modo uma certa mentalidade.

Seu personagem, por exemplo, prefere entregar um mendigo à morte porque os órgãos do moribundo serviriam a outras pessoas, necessitadas de implantes para sobreviver. Ora, isso não é nem de longe uma caricatura das ideias que posicionam o “bem comum” acima do “bem individual”. Aliás, como definir o “bem comum” sem uma noção clara de indivíduo? Apenas este tem consciência do que lhe é bom ou mau, e o “bem comum” nada mais é do que a definição simples: aquilo que serve bem aos indivíduos e não lhes fere qualquer direito.

Visivelmente, o Carlos da história de Joel Pinheiro não vê as coisas desse modo, arraigado que está a uma noção pragmatista própria de nossos tempos, mas também do fascismo e do stalinismo: algo nos atrapalha?, tudo bem, removamos este obstáculo. Talvez existam pessoas que pensem assim, embora nunca ao ponto da auto-degola, como o personagem de Joel Pinheiro.

A caricatura tem validade enquanto representação deliberadamente exagerada da realidade. O objetivo de Joel era reforçar o caráter pretensamente mórbido e inconsequente das pessoas que preferem agir pela coletividade em detrimento de uma certa noção de indivíduo. O que essa caricatura alcança é dizer mais sobre seu autor: ele não parece acreditar em boas ações vindas de pessoas que acreditam no “bem comum”. Enfim, sataniza um modo de pensar.

Seria igualmente possível pensar em um Carlos que começa a considerar somente o culto à individualidade como caminho para a felicidade e daí tirar as mais estapafúrdias conclusões, mas não quero replicar caricaturas.

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