O desafio do conservadorismo

Postado em August 13, 2009
Categoria Relances | 14 comentários

O advento da Internet foi uma bênção para os debates sobre todo tipo de coisa, desde política e economia até as artes. Como a literatura é meu maior interesse (e pouco tenho tratado dela por aqui), faz sentido que eu reflita um pouco sobre como se dá o debate sobre as artes na Internet, e principalmente como o debate virtual se relaciona com o debate “real” – ou melhor, o que vai para a Academia, para as páginas de revistas, para os livros.

Uma das grandes conquistas da Internet foi ressuscitar pensamentos que perderam espaço continuamente ao longo do debate literário, monopolizado hoje por acadêmicos e/ou pessoas ligadas às universidades. Vou cometer uma generalização, imprópria como sempre, mas para facilitar minha exposição: o principal retorno foi de um pensamento conservador em relação à literatura. Várias figuras, como Bruno Tolentino, passaram a ser mais conhecidas do público “iniciado”, justamente devido à repercussão obtida principalmente via Internet. Talvez o maior discípulo (entre os jovens) de Tolentino, Érico Nogueira, mantém um blog muito bom sobre literatura, que acompanho. Além dele, os idealizadores da Dicta & Contradicta e o recém-malhado neste blog, Pedro Sette Câmara, e muitos outros, vêm contribuindo com uma visão diferente sobre as artes em geral.

Na Academia de hoje há diversas correntes em conflito, mas todas elas têm origem ou relação com a esquerda política: desde a Teoria Crítica derivada da escola de Frankfurt, passando pelo multiculturalismo, pela crítica neoconcretista, até chegarmos ao ainda vivo estruturalismo, todos têm algo em comum: não veem nenhum tipo de valor universal e imutável, e concentram-se nas construções de seu tempo. Alguns analisam a literatura em conjunção com a sociedade em que surgem ou suas ideologias, outros tratam das novidades formais, etc.

E é isso que o conservadorismo traz de novo, paradoxalmente: a discussão sobre valores humanos que são representados literariamente, vendo a literatura como uma tradição de grandes autores falando sobre grandes temas. Mas ainda há muito o que evoluir até que esse novo conservadorismo consiga voltar ao cerne do debate crítico-literário – e hoje a academia detém esse espaço, para o bem e para o mal. Reparo em Érico Nogueira e outros do grupo da Dicta, como Martim Vasques da Cunha, uma sensibilidade para esse fato, mas nem sempre os vejo capazes de articular uma boa resposta ao domínio alheio na academia. Vamos por partes:

- o último grande intelectual brasileiro identificado com valores conservadores foi José Guilherme Merquior. Um grande ensaísta, sem dúvida, mas parte do seu legado é visivelmente pouco acurado. Li, por intermédio do Emmanuel Santiago, um texto de Merquior sobre a Fábula de Anfion, de João Cabral, e devo reconhecer que Merquior faz uma leitura equivocada do poema. Bom, isso não é desonra: quase todo mundo naufragou ao ler Cabral criticamente, eu incluído, em meu primeiro trabalho acadêmico. O fato é que o legado de Merquior é significativo: seu último texto publicado, em uma coletânea sobre a América Latina, falava justamente da crítica literária brasileira, e sabia reconhecer os avanços proporcionados por Antonio Candido e Roberto Schwarz, sem se esquecer de Luiz Costa Lima e outros, sempre limados da história aqui na USP.

- saber reconhecer um grande trabalho não é difícil, e os estudiosos que cito como membros dessa nova tendência conservadora certamente o fazem. Difícil é aprender com eles, e mais importante, demonstrar suas inconsistências. E é nisso que tenho visto falhas. O exemplo recente do centenário da morte de Machado de Assis ilustra bem o que digo: o conservadorismo atuou de modo a enaltecer as qualidades do bruxo, que são inegáveis, mas seu trabalho de defesa contra o que chamam “visão marxista de Machado” (e convenhamos, é mesmo) dada por Roberto Schwarz foi inconsistente. Não adianta, hoje, recordar o quanto Machado foi um gênio espetacular sem demonstrar com clareza os motivos de sua validade ainda hoje, os motivos pelos quais se tornou um artista espetacular, sem dúvida o centro do cânone brasileiro – e tudo isso somado a uma resposta firme contra o que considerarem indevido na análise schwarziana. É necessário dialogar firmemente com o texto, apontar falhas ou, melhor ainda, lê-lo dentro de sua própria perspectiva. Há incoerências no trabalho de muitos dos acadêmicos, inclusive dos celebrados. Aqueles que querem tomar um lugar no debate precisam questioná-las diretamente.

- há sempre o risco de radicalização. Diante de um cenário desse tipo, as pessoas tendem a se aproximar do lado mais forte – e hoje o lado mais forte é a academia de esquerda (hoje estou péssimo com as generalizações). Muitas pessoas, muitas mesmo, que adorariam ler algo sobre Tolentino, se afastam pois este já está posicionado dentro de um debate bastante polêmico. Convém resgatar as possibilidades de uma leitura conservadora no que esta teve de melhor no passado, mas sem se esquecer do que ela precisa oferecer nos dias de hoje. E considerando uma sociedade em que o pós-modernismo aparece como uma “filosofia” por pura preguiça de filosofar acerca de qualquer assunto, uma leitura conservadora precisa provar que pressupostos de Johnson, Pater e Wilson são ainda atuais, mas balizá-los com uma leitura também social dos fenômenos. O que digo é: o conservadorismo precisa aprender a jogar também dentro das regras da academia de esquerda, sob o risco de enclausurar-se em discursos meramente laudatórios sobre este ou aquele autor. Seguir o caminho que proponho evitaria parte da radicalização e ainda permitiria aos conservadores trabalhar com o campo semântico da maioria dos leitores de literatura e de crítica literária. Agregar-se ao debate, não negá-lo. Nesse ponto louvo principalmente Érico Nogueira, que tem debatido longamente com Ricardo Domeneck sobre a validade de certas poéticas, em especial a sua própria e a de Bruno Tolentino. Se retoricamente Domeneck ainda parece ter uma certa primazia, pois lida com conceitos mais estabelecidos (pela longa tradição crítica poundiana que prosperou no Brasil graças ao grupo Noigandres), não tenho dúvidas de que criticamente Nogueira tem qualidade para colaborar ativamente com o debate, e eventualmente até demonstrar equívocos na argumentação de Domeneck (que, até onde acompanhei, é um pouco rarefeita enquanto definição de uma temporalidade do fazer poético – às vezes esta parece arbitrariamente estabelecida).

Por fim, considero que o grande desafio, hoje, do conservadorismo nas artes é construir um campo teórico em que possam, ao mesmo tempo, discutir na mesma língua dos seus adversários (retoricamente falando) e cristalizar melhor as diferenças entre si. Vencido este estágio, é uma questão de tempo para que surjam críticos mais próximos deste viés nas academias de Letras espalhadas pelo país, e então poderemos ressuscitar algumas das questões mais amplas que foram enterradas por culpa da anuência geral dos debatedores, como a tão mal debatida validade da narrativa intimista de um Cornélio Penna ou de Lúcio Cardoso. Mas este será o assunto de outro post.

Comentários

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14 Comentários »

2009-08-15 11:04:28

Belo texto. Eis aí um desafio e tanto. Mas o conservadorismo, em estética ou em política, talvez seja essencialmente ‘reactivo’, para usar expressão de João Pereira Coutinho em curso que ministrou no IICS. Putandum est, non disputandum.

 
Emmanuel
2009-08-18 14:19:38

Vinícius,

Vejo que alguns pontos que temos discutido aparecem aqui, então aproveito o espaço para retomar alguns pontos da nossa discussão e retificar outros da minha argumentação anterior, sobre os quais venho pensando também.

Em primeiro lugar, acho que a crítica literária ligada à Teoria Crítica, ou, em termos tupiniquins, afeita às relações entre Literatura e Sociedade, é certamente uma tendência forte, mas talvez não a dominante; e poderíamos dizer que é justamente nessa corrente, juntamente com os Estudos Culturais e o multiculturalismo, que prevalece um pensamento de “esquerda”, embora nem sempre ortodoxo.

O formalismo e o estruturalismo, por sua vez, não são correntes propriamente “progressistas”, como diria um crítico marxista. Todorov conta, por exemplo, como o estudo dos formalistas russos revelou para ele uma alternativa ao tipo de crítica que se fazia no Leste Europeu, uma crítica puramente ideológica, fundada sobre os parâmetros do realismo socialista.

Não por acaso, Lévi-Strauss, antropólogo ligado ao estruturalismo, atacou diretamente os estudos antropológicos que mantinham a História como ponto de referência. Para Lévi-Strauss, as estruturas sociais são a manifestação de constantes universais relacionadas ao funcionamento do pensamento humano, por isso elas se verificam mesmo em culturas diferentes e em tempos diferentes, como, por exemplo, o fato de praticamente todas as culturas apresentarem um sistema simbólico de natureza binária (o binarismo seria uma tendência estrutural do funcionamento do pensamento humano). Isso explicado de modo muito canhestro da minha parte, que me desculpem os entendidos na área.

Na Linguística moderna, disciplina relacionada com as origens do estruturalismo, podemos ver também, em algum dos seus desdobramentos, a tentativa de encontrar uma “gramática universal”, à qual responderiam todas as línguas, independentemente de sua origem ou desenvolvimento. Trata-se, portanto, de encontrar os princípios a partir dos quais se articula a linguagem humana. É claro que esses exemplos, relacionados mais com a origem do estruturalismo do que com todos os seus desenvolvimentos posteriores, não abarcam a variedade teórica que o estruturalismo assumiu.

Estou dizendo isso para mostrar que, politicamente, o estruturalismo se pretende “neutro”, nem conservador nem progressita, nem de direita nem de esquerda, o que muitos “progressistas” classificam como “conservador”. Na verdade, alguns especialistas dizem que o estruturalismo foi uma reação ao predomínio do pensamento esquerdista nos departamentos de Ciências Sociais franceses e, no Brasil, uma opção teórica viável em tempos de ditadura.

Quanto ao tipo de formalismo ligado ao concretismo, basta lembrar as afinidades políticas de Pound, guru da patota liderada pelos irmãos Campos, para reparar que formalismo e conservadorismo não se excluem. Sei que se pode muito bem dizer que, sendo tendências idealmente “neutras” do ponto de vista político, as análises formalistas independem da orientação política do crítico. Sim e não; é algo que se deve constatar caso a caso.

Disse tudo isso para contestar a sua afirmação de que “na Academia de hoje há diversas correntes em conflito, mas todas elas têm origem ou relação com a esquerda política”. O estruturalismo tem sim uma relação: a contraposição, mas é meio simplista reduzir o estruturalismo a uma “reação” ao pensamento de esquerda; se isso pode ter contribuído, como o próprio Todorov afirma, não se pode esquecer que, por outro lado, o estruturalismo encontra as suas principais razões de ser no desenvolvimento histórico e científico, e não apenas no debate político.

Feita essas ressalvas, agora podemos localizar melhor a antítese do “pensamento conservador”: aquelas correntes que “não veem nenhum tipo de valor universal e imutável, e concentram-se nas construções de seu tempo”. A afirmação em sua totalidade é falsa quanto ao estruturalismo, que muitas vezes procura categorias gerais e não a especificidade da obra em seus aspectos formais e históricos, como, por exemplo, acontece na tentativa de descobrir a “gramática” que rege certo conjunto de obras. Um estruturalista pode definir uma estrutura narrativa que ele chame de “trágico” e verificar como essa mesma estrutura aparece em diversas obras ao longo do tempo, desde as narrativas míticas de povos antigos até a literatura contemporânea.

Logo vemos então que a sua ideia de pensamento conservador em crítica é aquele que atente para o “valor universal e imutável” da obra, num sentido transcendente, não necessariamente religioso. Nesse sentido, a afirmação passa a ser verdadeira quanto ao estruturalismo, desde que se suprima a concentração “nas construções de seu tempo”. Ora, mas a “des-transcendentalização” do pensamento ocidental não é um produto do marxismo, ao contrário: é o marxismo que é um produto dos processos de “esclarecimento” e “desencantamento” da filosofia e da ciência modernas; portanto, o fato de o “pensamento conservador” estar à margem das instituições acadêmicas está relacionado com um processo histórico muito mais longo e extenso, e não apenas com uma suposta hegemonia da esquerda na academia, que seria apenas um dos momentos de um movimento mais amplo.

Quanto aos Estudos Literários, se talvez seja correto afirmar que predomina uma orientação política de esquerda entre os críticos acadêmicos, não necessariamente essa orientação política seja expressa em seus trabalhos. Na verdade, os estudiosos ligados à crítica dialética, embora constituam uma corrente forte, estão muito dispersos na academia brasileira, com exceção do que acontece na USP, ainda que mesmo na USP a crítica dialética não seja a corrente predominante.

Por outro lado, nem todo o pensamento conservador é um pensamento afeito a “valores universais e imutávies”; é perfeitamente possível ser conservador sem acreditar em transcendências de qualquer natureza; ou seja: é possível possuir uma visão historicista dos fatos e ser conservador; o contrário também vale: acreditar em transcendências e não ser conservador. Para embaralhar mais as coisas: uma pessoa pode ser conservadora em alguns âmbitos mas em outros não, sem que isso possa ser resolvido supondo uma tendência geral. Portanto, quando falamos em “pensamento conservador”, conservador em qual âmbito? Político? Moral? Econômico? O que seria uma pessoa “intelectualmente conservadora”? Pode parecer uma pergunta besta, mas não é; é preciso especificar melhor esse tipo de pensamento que você identifica.

Emmanuel
2009-08-18 14:21:58

Este é o comentário, digamos, parte 1.

 
 
Emmanuel
2009-08-18 14:35:26

Mas, agora, indo aos exemplos práticos, numa área que me é familiar: a crítica da obra de Guimarães Rosa. De uma forma geral, o que costuma prevalecer é justamente uma tendência a procurar na obra do escritor mineiro “valores universais e imutáveis”, de índole quase sempre metafísica, ou então convertê-la num diálogo inesgotável com a tradição, com os grandes autores e com os grandes temas. Na fortuna crítica do Rosa, os estudos conservadores prevalecem, mesmo partindo de autores que definiriam a si mesmos como sendo politicamente progressistas. Descontando-se esses estudos, e os que vão para uma análise semiótica-ou-estruturalista-ou-formalista, vê-se que os estudos “historicizantes” são poucos, e muitas vezes apresentam um enfoque rarefeito, mesclando-se com a tendência geral conservadora.

Isso não é um juízo de valor; é uma constatação. Há espaço para o pensamento conservador, sempre haverá. O que eu acho que você quis dizer com esse post, pelo o que já havíamos conversado antes, é sobre o declínio de um tipo de pensamento conservador específico: o católico, não?

 
2009-08-22 10:42:07

“O que digo é: o conservadorismo precisa aprender a jogar também dentro das regras da academia de esquerda, sob o risco de enclausurar-se em discursos meramente laudatórios sobre este ou aquele autor. Seguir o caminho que proponho evitaria parte da radicalização e ainda permitiria aos conservadores trabalhar com o campo semântico da maioria dos leitores de literatura e de crítica literária.”

Isso, a meu ver, deve ser coisa estritamente abominável. Tomar o mesmo “campo semântico” e aceitar “jogar também dentro das regras da academia de esquerda” inviabiliza, na base, todo o debate. Por exemplo: à diferença do que defende o Emmanuel em seu comentário acima, a suposta pretensão “universalista” e “neutra” da crítica estruturalista é – e o percebemos ao assentar a discussão em seu terreno concreto – só mais um passo no eclipse da linguagem quanto a qualquer realidade extra-língüística, eclipse esse que permitiu as maiores perversões ideológicas, vez que deu via ao “liqüidificar” (para usar um jargão dessa hienas) dos significados, destruindo hierarquias e inviabilizando tradições. Mesmo filósofos hábeis e sui generis como Vilém Flusser, que tentou rejuntar fenomenologia e “analítica” (Wittgenstein), chegou a buscar reduzir todo o ser ao conhecer ao afirmar que, no fim das contas, o que interessa é o simbolismo lógico que fundamenta toda nossa maneira ocidental de “conceber” o mundo.

O que fazer, então, nesse caso? Tentar dialogar com intelectuais cujo ofício não é nada mais do que “ter idéias”, e idéias cujas premissas são em todo equivocadas? Claro que não. Eu acho, sim, que é necessário desde logo – aos que já possuem uma formação de certa solidez, i.e., uma meia dúzia na qual não me incluo – abrir caminho na academia. Esse desbravar, no entanto, se intelectualmente sério, não resultará em menos que implosão das “regras do jogo” atuais. Se alguém vem me dizer que a estrutura do romance machadiano é feita à analogia do movimento das classes sociais brasileiras do século XIX, como faz o Sr. Schwarz, eu simplesmente me recusarei a “demonstrar” a esse fulano que ele incorrera em equívoco. É como tentar provar a um homem que acabou de sentir dor na perna que sua perna simplesmente não existe. Uma pessoa normal não pode consentir em dialogar com um esquizofrênico sem partilhar algo de sua esquizofrenia. Jamais pedirei licensa em um debate de acadêmicos com o “profile ok” de hoje. No fim das contas, costumava escrever Nikolai Berdyaev, “the sole criterion of truth is truth itself, the light which streams out of it”.

Entendo, por outro lado, sua preocupação acerca da difusão social do que pensam e produzem os conservadores brasileiros hoje. É, de fato, difícil a quem já se habitou a ler coisas como “este romance traça uma crítica dos limites epistemológicos do consumista” entender o que se passa na cabeça de quem admira – sei lá – a crítica de um Augusto Meyer. Explique-me: como demonstrarei a uma pessoa que estuda “aspectos metafísicos” da obra de Guimarães Rosa que o grande mestre do romance brasileiro do século XX é José Geraldo Vieira, o único que suporta uma comparação direta com aquela rica prole de escritores de língua alemã (Mann, Von Doderer, Wasserman, Broch etc.), sem minguar o debate com meu interlocutor? Acerca dessa matéria, temo que, até este momento, o mais prudente seja deixar que o tempo passe. À exceção da obra de Olavo de Carvalho, de uma observação pontual ou outra de Luiz Felipe Pondé, nada há de realmente maduro para ser difundido atualmente no Brasil. Quanto aos dois ou três poetas realmente bons de que dispomos, melhor que se dediquem apenas a escrever seus livros. A ocupação de espaços há de vir naturalmente.

relances
2009-08-24 23:57:39

RR,

devo discordar de suas objeções. “Tomar o mesmo ‘campo semântico’” não inviabiliza o debate de modo algum. Analisando seus motivos para considerar o debate inviável como o proponho, não vejo muita coisa. Por exemplo:

“Tentar dialogar com intelectuais cujo ofício não é nada mais do que “ter idéias”, e idéias cujas premissas são em todo equivocadas? Claro que não.”

Isso é ignorar o que eu disse no exemplo sobre Schwarz: se há erro este deve ser demonstrado, sob pena de ficar apenas na gritaria “oh, ele é marxista e Marx estava errado em tudo”. Não adianta apenas dizer que o céu não é vermelho; é preciso mostrar como ele é azul, e que as propriedades de ‘azul’ são incompatíveis com as de ‘vermelho’. Por mais que eu tenha gostado do seu símile sobre a dor na perna (boa piada), ele nada mais é do que conformar-se na postura do chorão, ou do iconoclasta inconsequente. Lamento dizer, é essa a imagem que passam os que “se recusam a demonstrar equívocos”. Pior: referenda a posição marxista por não oferecer-lhe alternativas. Enfim, um desastre de debate.

Quando trato do “campo semântico” não é, por exemplo, passar a aceitar a luta de classes como real, mas aceitá-la ao menos como conceito, e partir disso. O doido Olavo de Carvalho, quando lúcido, fez isso muito bem, e lá está para todo mundo ver seu rastreamento das ideias de Marx n’O Jardim das Aflições, mostrando como elas nascem de um epicurismo meio zoado. Mas aí vem o problema da postura: o mesmo Olavo diz que Antonio Candido nada entende de literatura dizendo inverdades choronas sobre um texto de Candido sobre Graciliano Ramos. Isso não é debate; tratar das deficiências do estudo marxista da literatura não passa por esse tipo de gritaria. Acabo me lembrando das brigas em Portugal no século XIX.

Por outro lado, respondo à sua indagação:

“Explique-me: como demonstrarei a uma pessoa que estuda “aspectos metafísicos” da obra de Guimarães Rosa que o grande mestre do romance brasileiro do século XX é José Geraldo Vieira, o único que suporta uma comparação direta com aquela rica prole de escritores de língua alemã (Mann, Von Doderer, Wasserman, Broch etc.), sem minguar o debate com meu interlocutor?”

Pode ser lamentável, triste, horrendo, etc., que se tenha esquecido de José Geraldo Vieira (confesso, ainda não o li; “A mulher que fugiu de Sodoma” me aguarda), ou de Lúcio Cardoso, ou de Cornélio Penna (não encontro “A menina morta” para comprar em quase nenhum lugar!), ou de Gustavo Corção, ou até mesmo de Otto Maria Carpeaux (quem diria!). Mas é a realidade. Esses romancistas, poetas, críticos, etc., que sumiram devem ser resgatados – e vista a hegemonia esquerdosa (digo isto ao invés de “esquerdista” porque Antonio Candido é de esquerda e valorizou todos estes que citei) nos estudos literários no Brasil, o resgate desses autores se dará pela intelectualidade conservadora, e não outra.

O que não impede, é claro, de pessoas como eu, não exatamente um conservador (como você deve ter visto no resto do blog), buscarem o tempo todo informações e leituras de todas as fontes possíveis. Na minha opinião (que vai pautar boa parte da minha vindoura resposta ao Emmanuel) o cânone brasileiro precisa há muito de uma boa revisão, e certamente NÃO nos moldes dos Estudos Culturais (cada vez mais presentes) ou do Estruturalismo. Nesse sentido não sei se a ocupação de espaços virá naturalmente. Se formos seguir Olavo de Carvalho nesse movimento, por exemplo, os romances camilianos vão se tornar o molde e não preciso dizer (sei lá, talvez precise…) o quanto de retrocesso e queda de qualidade isso acarretaria. E é por isso que olho para os que citei no post, e outros mais, com muita felicidade, pois eles parecem ter compreendido o problema como o propus. São jovens, como eu (na verdade eu sou mais jovem que todos eles), e ainda vão contribuir muito ao debate. E isso se dará como eu disse: elaborando o discurso considerando a interlocução com a visão hegemônica, não gritando contra ela. Qualquer coisa fora disso os condenaria ao ostracismo.

 
 
2009-08-22 13:50:18

Correção: licença, não licensa.

Emmanuel
2009-08-22 19:22:50

Ronald,

Não sei se não entendi bem o que você disse sobre o meu posicionamento, ou se foi você que entendeu mal o que eu disse. De fato, apresentei algumas tendências estruturalistas, mas isso não quer dizer que eu concorde com elas; o que eu queria era mostrar que crítica dialética e estruturalismo não comungam do mesmo “credo” ideológico (ou seja: não se trata o estruturalismo de uma corrente “de esquerda”, mesmo diante da multiplicidade de possibilidades que tal termo possa assumir). Também acredito, como você, que o estruturalismo é “mais um passo no eclipse da linguagem” etc. etc.

O ponto central da minha argumentação, afinal de contas, era mostrar que os estudos críticos ligados à esquerda, apesar de possuírem grande prestígio, não são hegemônicos. No caso da extensa fortuna crítica de Rosa, prevalece de longe o enfoque “conservador” (de acordo com a definição dada pelo próprio Vinícius).

Emmanuel
2009-08-26 00:25:58

P.S.: “apresentei algumas tendências estruturalistas” no sentido de “dicorri sobre elas”.

(Comments wont nest below this level)
 
 
 
Vinicius
2009-08-29 12:35:44

Emmanuel,

Finalmente tento responder parte a parte seu comentário. Vamos lá:

Já no primeiro ponto temos uma discordância cabal: sobre a dominância do pensamento da Teoria Critica na Academia brasileira. Como já lhe disse pessoalmente, não consigo conceber isto por vários motivos. Os principais: as principais universidades do país, queira ou não, são as 3 paulistas: USP, Unicamp e UNESP, onde a produção dos departamentos de literatura (seja teoria literária, seja literatura brasileira) é majoritariamente adepta se não da Teoria Critica, ao menos de seus pressupostos básicos. Podemos realizar a comparação professor a professor e ficará comprovado o que eu disse, sem ter de lançar mão de olavismos como achar que até a TFP é comunista.

Mesmo os que não são grandes ativistas políticos dentro de suas teses (hehe) são parte de um pensamento de esquerda. E aí um parêntese longo sobre o estruturalismo: na França, onde a força do estruturalismo antropológico de Lévi-Strauss se espalhou para todas as áreas (e não nos esqueçamos que Todorov faz parte da segunda leva, posterior a Barthes, por exemplo) foi, sim, uma visada que podia ser chamada de “universalista”, mas nunca foi conservadora. O próprio Todorov não é exatamente um right-wing, não acha? Nesses grupos o pensamento estruturalista nunca foi parte de uma visão humanista da literatura, que integre a literatura a um saber construído para e pela civilização ocidental. Fora o caráter de extrema aversão ao contexto da produção literária (algo que a Teoria Critica resgata em parte e os Estudos Culturais põem em seu devido lugar, mas com a forma de uma charada), não são muitos os exemplos de estruturalistas que propunham um pensamento verdadeiramente conservador, mesmo no Brasil, onde o Schwarz comenta sobre a pouca atividade política (mas não diz nada sobre uma orientação conservadora dos estudos estruturalistas) dos que abraçaram as idéias derivadas da formação tanto dos arquétipos antropológicos de Levi-Strauss ou dos estudos lingüísticos de Saussure e Hjelmslev, chegando a Jakobson.

Quanto à outra objeção:

“o fato de o “pensamento conservador” estar à margem das instituições acadêmicas está relacionado com um processo histórico muito mais longo e extenso, e não apenas com uma suposta hegemonia da esquerda na academia, que seria apenas um dos momentos de um movimento mais amplo.”

Isso é verdadeiro, e meu post não foi resgatar todas as razões pelas quais isso se dá nas últimas décadas. Fato é que o pensamento conservador ainda é parte do debate nos grandes centros culturais no mundo, politicamente tem vencido eleições em toda a Europa e se afirma cada vez mais como um defensor de outras idéias que antigamente lhe seriam estranhas, mas hoje são perfeitamente conciliáveis sem que nos demos conta disso, como por exemplo a aceitação do liberalismo econômico. E aí entro em dois pontos:

- o primeiro é de que no Brasil não há um pensamento conservador organizado em torno de valores conservadores. O que há são representantes conservadores dentro de seus campos (por exemplo, na Economia) que têm voz no debate interno a suas áreas mas não são articulados nacionalmente. Não que seja isso que eu almeje para o pensamento conservador, mas a ausência dessa organização social do pensamento conservador (que chegou a existir até os anos 70 e, convenhamos, de modo execrável nesses tempos) infere dezenas de outras coisas, como a não-presença de grupos organizados dentro da Academia mais prestigiada no caso do estudo de literatura. Na USP, inclusive, só na Filosofia se vê professores de caráter timidamente conservador; o máximo de “reaça” que se consegue na Letras são alguns tucanos…

- por outro lado, você diz que a minha visão conservadora se parece mais com um conservadorismo católico especificamente. Não nego, mas acho inevitável que se associe ao catolicismo tudo que descrevi no post: no Brasil conservadorismo e catolicismo são quase indissociáveis até mesmo hoje. E veja que até dentro da Igreja Católica vemos uma turminha de esquerda na figura dos Teólogos da Libertação que, individualmente (não como instituição em si), têm mais poder e prestígio social do que lideres nacionais da Ordem Franciscana ou do Opus Dei, por exemplo. É curioso, mas é verdadeiro: uma sociedade de valores conservadores acaba por ver mais prestigiosamente figuras reconhecidamente progressistas…

Terminei esses dois pontos com reticências pois acho que dá para inferir o resto do que escrevi tanto aqui como no post. Quanto à questão da visão dominante de Rosa, não creio que seja um exemplo contrario à minha visão pois não se trata de uma visão critica empenhada no conservadorismo – é muito mais uma repetição mecânica das intenções pessoais do Guimarães Rosa do que um reflexo da orientação política dos críticos, não acha? Inclusive penso que muitas pessoas ficariam chocadas se reparassem melhor no que estão defendendo quando aceitam a visão que o próprio Rosa parecia ter de sua obra. E por outro lado essa tendência universalista na fortuna critica dele foi incentivada por, ninguém mais ninguém menos, Antonio Candido. Não é uma visão conservadora no sentido que dou ao termo, embora Guimarães fosse um conservador, aí sim dentro do meu sentido.

Quanto à hegemonia da critica de esquerda, pretendo ampliar um pouco mais a discussão em breve com dois posts, um sobre o livro de Lúcio Cardoso, Crônica da Casa Assassinada, outro sobre a questão escamoteada pelos críticos mas importantíssima para a literatura: a constituição do cânone literário brasileiro. Como vejo, o cânone como o recebemos é prova da hegemonia do pensamento esquerdista nos estudos literários no Brasil.

 
Emmanuel
2009-08-30 01:22:22

Vinícius,

Em primeiro lugar, eu não disse que o estruturalismo se tratava de uma vertente conservadora nos termos que você descreveu, mas eu queria mostrar como ela não é uma vertente “de esquerda”, ou relacionada a ela, como você afirmou:

“Na Academia de hoje há diversas correntes em conflito, mas todas elas têm origem ou relação com a esquerda política: desde a Teoria Crítica derivada da escola de Frankfurt, passando pelo multiculturalismo, pela crítica neoconcretista, até chegarmos ao ainda vivo estruturalismo”.

Isso é falso, nem o estruturalismo nem o neoconcretismo (relacionado a algumas correntes da semiótica) têm necessariamente qualquer ligação com o pensamento de esquerda; estão muito mais ligados ao movimento geral do esclarecimento ocidental, do qual o materialismo histórico também faz parte.

Como eu disse, o estruturalismo é uma corrente que se quer politicamente “neutra”, mas a neutralidade pode ser um disfarce do conservadorismo. Será que o estruturalismo não é realmente conservador? Talvez não pela sua definição, mas certamente pela definição de outros, sim. Pessoalmente, não acho que o estruturalismo seja necessariamente conservador, mas não é uma vertente ligada ao materialismo histórico, principalmente pela sua desconsideração daquilo o que é essencial a este último: a historicidade das obras de arte.

Para explicitar bem o que penso: o estruturalismo talvez não seja uma corrente conservadora, mas é, sem sombra de dúvidas, uma corrente mais à direita do que à esquerda, para ficar nas dicotomias empobrecedoras.

Uma coisa que discordo do seu texto é que ele apresenta uma definição muito restrita do que é o pensamento conservador. O conservadorismo em estudos literários não é apenas aquele que relaciona a obra com a tradição e procura nele valores de validade universal. O conservadorismo é possível mesmo em estudos materialistas e historicistas. Daí vem o que eu acho que é nossa divergência fundamental nessa discussão: para mim, o conservadorismo não é tanto uma questão de método, mas sobretudo uma questão de interpretação: é a interpretação que define o ethos político da crítica. Um estudo na linha Literatura e Sociedade pode ser conservador ao apaziguar as contradições históricas contidas na obra ou ao se converter no elogio do escritor que intentou fazê-lo.

De uma fora geral, Candido, por exemplo, não é um crítico conservador, mas ele apresenta algumas vezes formulações conservadoras; vale lembrar a ideia do valor da literatura que ele expõe em “O direito à literatura”, que é uma ideia universalista, segundo a qual, certas obras, como A divina comédia, teriam o poder de se comunicar com todas as pessoas do mundo, pois elas comunicam algo da experiência humana que é comum a todos. Não entrarei no mérito da questão, mas é uma formulação conservadora, nos termos que você definiu: é uma concepção que vê valores imutáveis e universais na literatura, independentemente do lugar histórico-social ocupado pelo leitor ou pela obra — a experiência humana seria, afinal de contas, uma só, não importa o período histórico ou a cultura em que vivem os sujeitos envolvidos.

Muitos discípulos diretos do Candido enveredaram por essa senda universalista; outros tantos lançaram mão dos conceitos e categorias da crítica dialética para chegarem a interpretações apaziguadas do processo social configurados na obra literária, o que é politicamente ainda mais pernicioso do que simplesmente ignorar esse processo e partir para uma análise formalista.

O caso de Rosa para mim é exemplar por isso, pois mostra como críticos das mais variadas correntes acabam convergindo para uma interpretação conservadora, isso porque Rosa consegue dar uma representação estética de alto nível a certos conteúdos ideológicos tão disseminados na sociedade brasileira que acabam passando por batido. O fato de Rosa ser um escritor que configura sua obra a partir de uma visão de mundo conservadora sem que, com isso, a crítica que se diz politicamente progressista faça a crítica dessa visão de mundo demonstra exemplarmente o quanto aquela é realmente progressista. Para mim, a prova dos nove se um crítico é conservador ou não deve ser procurada nos resultados dos trabalhos dele, na interpretação que levada a cabo, e não na carta de princípios.

Continuo achando que a crítica dialética de esquerda é uma minoria mesmo na USP, ao menos que se queira incluir nesse balaio um tipo de crítica eclética (que cacofonia danada!), que corresponde à média da produção uspiana. Os estudos do Davi Arrigucci, por exemplo, parecem-me bem representativos da crítica uspiana em geral, que têm suas origens em Candido, mas estão longe de serem espécimes legítimos de crítica dialética, frankfurtianamente falando, e nisso não vai nenhum juízo de valor. O que eu enxergo sendo muito praticado por aí sob o rótulo de Literatura e Sociedade é um derivado da “crítica integradora” postulada por Candido, mas no qual a referência ao social tornou-se apenas mais um dos elementos para a elucidação da obra literária, entre tantos outros (diferente do que pretendia o próprio Candido). Posso estar redondamente enganado, mas o que se chama hoje em dia de Literatura e Sociedade, salvo poucas exceções, é uma espécie de salada teórico-metodológica.

Agora o que acho terrível na sua resposta foi o ataque de bairrismo. USP e Unicamp são certamente as universidades mais importantes na área, mas colocar a UNESP na frente da UFRJ, ou mesmo da UFMG, é um disparate! Será só por causa da atuação do Antonio Candido por lá? Além disso, e a PUC? Não deveria ser lembrada também?

 
Ramon Maia
2009-09-03 19:54:22

Gostaria de cumprimentá-lo pelo artigo. Pondero, no entanto, a atribuição de uma dignidade que a história da crítica literária universitária não tem.
O multiforme e insólito conjunto do que poderia denominar “esquerda” – marxistas, frankfurtianos, pós-estruturalistas e congêneres – a cada dia nos dão a amostra de que a teoria só vale na teoria. Por detrás de rompantes e arroubos do tipo “crítca do mundo administrado, do fetichismo da mercadoria, do colonialismo”, o que se vê é uma disputa frenética por cargos, salários, prestígio e poder. Na prática, a teoria é outra.
Os críticos da administração e os desconstrutores do poder lutam vorazmente por chefias de departamento e de direção de unidades. Sem contar a famosa “troca” de taxas de bancada: eu lhe convido para banca do meu orientando e você me convida para a do seu.
Ainda não consegui entender o que seja o advento de um mundo novo prometido pela esquerda. Na teoria somos todos irmãos.

 
2009-09-30 03:35:07

Um bom texto. Tópicos importantes são tocados aqui, e voltarei só por conta de você ter falado do Cornélio Penna, um autor tão desmerecido, e que tanto gosto.

Abraço.

 
2011-08-26 18:28:15

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