A diferença pela semelhança: como “converter” o ateísmo em uma crença
Postado em July 22, 2009
Categoria Relances | 11 comentários
Às vezes deparamos com bobagens tão gigantes, tão descoladas da realidade e tão propensas a tornar uma discussão algo menor que supérflua, que ficamos até insensíveis às suas implicações e nosso primeiro impulso é ignorá-las, seja solenemente, seja com uma espécie mínima de revolta. Mas acho que é necessário superar esses sentimentos e entrar numa espécie de suspension of disbelief que permita analisar a gigantesca bobagem segundo os parâmetros do bom senso. Ajuda a civilizar os próprios pensamentos.
Digo isso pois não é outro o caso de Pedro Sette Câmara. A despeito de minhas eventuais concordâncias ou discordâncias com ele, que me parece ser ao menos um leitor dedicado e capaz de identificar as qualidades de textos literários, por exemplo, essa tentativa de definir a diferença entre “crentes” e “ateus” não passa de um vendaval de besteiras, errado em suas premissas desde o título.
Ora, é uma falsa polaridade esta entre “ateus” e “crentes”. O óbvio seria afirmar a diferença entre “crentes” e “descrentes”, ou “teístas” e “ateus”. Por mais chatinho que pareça, não é demais lembrar que é possível ser ateu (ou seja, não acreditar em qualquer tipo de Deus) e ser “crente” em algo sobrenatural ou metafísico – o budismo é uma crença sem Deus. Mas vamos assumir como correta essa afirmação, de uma diferença entre crentes e ateus. Segue o texto:
Em termos de experiência, pergunto-me qual será a diferença fundamental e real entre crentes e descrentes, entre religiosos e ateus. As semelhanças são muito fáceis de apontar. Ambos dirão que apenas se submetem à verdade; ambos dirão que seguem suas consciências; ambos dirão, mais ainda, que o que os diferencia do outro lado é o estar certo, o ter razão; também dirão que são humildes, uns porque aceitam Deus, outros porque aceitam os limites do conhecimento humano; e não se deve esquecer que uns considerarão os outros a praga da humanidade. Nisto tudo crentes e descrentes podem ser iguais. Mas qual será o fundamento subjetivo de sua diferença? Haverá uma atitude fundamental que distinga um grupo do outro?
Apesar das semelhanças serem “fáceis de apontar”, há um monte de besteiras arroladas como comuns de dois gêneros. A primeira: “submissão à verdade”. Como isso pode ser? Não considero que exista uma verdade – e afirmar o princípio de realidade em nome da “verdade” não vale. Muito menos sou submisso a uma verdade qualquer; tenho impressões que podem ser ou não verificadas por outras pessoas, mas nunca podem ser consideradas como “verdade”, ou algo que me seja inescapável. Não sou refém de minhas opiniões; posso mudá-las se considerar isso uma atitude coerente. Submissão à verdade é, grosso modo, coisa de crentes, pois creem que essa verdade existe e pode ser apreendida, seja pela religião ou pela experiência pessoal.
Outra besteira é dizer que crentes e descrentes têm em comum o achar que têm razão e o outro lado não. Isso pode acontecer, mas não é uma lei geral – ou estaria Sette Câmara importando intolerância e instalando-a nos outros? É o que se segue quando diz que ambos os lados consideram o outro como “praga da humanidade”. Por favor. O fato de haver descrentes (e crentes) que assim pensem não constitui uma semelhança entre os dois modos de ver o mundo – é uma característica que pode ser verificada em ambos os grupos, mas não considerada como princípio.
Claro que falo como crente. E não posso empreender uma investigação destas sem boa vontade para com o lado descrente. Essa boa vontade me obriga ao seguinte: devo supor que um ateu é tão sinceramente ateu quanto eu sou católico; que, assim como não julgo a mim mesmo um imbecil, também não vou julgá-lo imbecil; que não serei condescendente, e que tentarei colocar para mim mesmo a pergunta: “Se eu fosse parar de crer, ou se fosse pensar que não há Deus, como chegaria a isso, sem qualquer desonestidade? O que me levaria até esse estado?” Claro que qualquer um pode apontar que provavelmente a minha consciência já não é tão pura a ponto de servir de modelo; mas eu só posso dizer que ao “amar ao próximo como a mim mesmo” vou tentar considerá-lo como eu me consideraria.
Não precisa se esforçar tanto, Pedro. Sabemos que você falará de um ponto de vista crente, assim como eu falo de um ponto de vista descrente. Entretanto, o exercício de se colocar no ponto de vista alheio é equivocado quando se procede a uma auto-análise. Os motivos pelos quais PSC deixaria de crer de modo algum seriam os meus, os seus, os motivos de qualquer um. Considerar os argumentos alheios basta; fazer um esforço que leva a si mesmo não me parece analisar o outro lado. Seria preferível assumir alguns preconceitos, justos ou não, que levassem a um possível equívoco sobre o outro lado, mas mantendo a postura de analisá-lo, e não elocubrar sobre a própria descrença hipotética. Sem contar o óbvio: é possível não acreditar em Deus por um simples desinteresse no ato.
O empreendimento me parece quase impossível, para dizer a verdade. Ou melhor: parece que só é possível chegar a uma hipótese e esperar que os ateus não se sintam mal representados, como se a minha hipótese contivesse sua condenação implícita. Aliás, também admito que eu gostaria de chegar a uma enunciação dessa diferença que fosse retoricamente aceitável tanto para crentes quanto para descrentes.
Eu também gostaria de agradar gregos e troianos, mas, quando o problema já foi tão mal colocado, fica difícil não se sentir mal representado. Se eu fosse crente também já estaria me perguntando (“como assim, considero ‘descrentes’ como ‘praga da humanidade’? A Inquisição já passou e não a defendo”) se é possível este texto levar a uma definição aceitável do ateísmo ou do teísmo. Que dirá então da diferença entre ambos?
Mas ainda assim ele tenta. E a coisa fica até engraçada:
O melhor que consegui até agora foi o seguinte: diante da complexidade do mundo, o crente pressente a existência de uma inteligência transcendental, ao passo que, para o ateu, esse pressentimento é um passo indevido, uma projeção de quem observa o mundo.
Há vários descrentes que duvidariam dessa sentença, e eu sou um deles. Não sei se a crença em algo superior é um “passo indevido”. É uma escolha que faz bem a muitos milhões de pessoas ao redor do mundo. Quando não se convertem em fundamentalismo ou intromissão no Estado laico, as religiões são bem-vindas. Seria um passo indevido se este conduzisse o crente a uma alienação irreversível de sua sociedade e suas diferenças – ou seja, fechar-se para o mundo e proclamar como válidos apenas seus próprios valores. É preciso aceitar a “validade social” dos que não creem ou creem de modo diverso, ou o crente se torna um teocrata em potencial. Dirimido esse risco, que no nosso mundo é uma realidade palpável – os maiores níveis estatísticos de preconceito social não são contra negros ou homossexuais, mas contra ateus (embora nestes o preconceito seja bem menos violento que naqueles) – , não há como considerar escolhas individuais como “passos indevidos”. Isso é arrogância de quem acha que porta uma verdade – é o caso de muitos descrentes, mas não de todos, evidentemente.
O crente, ao perceber algo mais vasto que sua própria inteligência, julga tratar-se da obra de outra inteligência; o ateu, ao perceber algo mais vasto que sua própria inteligência, julga que o domínio dessa vastidão virá com o tempo.
Essa talvez seja a maior bobagem do texto. Ateus não necessariamente acham que o mundo estará em suas mãos algum dia. Quem acha que a ciência pode explicar tudo, colocar tudo em tubos de ensaio mentais e enfim proclamar uma verdade última não pode estar correto. Isso, sim, é uma semelhança entre crentes e descrentes: em ambos os grupos há “arrogantes” e “humildes”, e se me conto entre estes não é por afetar superioridade moral, mas por não ter outra escolha. Sempre haverá mistérios para a ciência, nunca haverá um domínio completo sobre o “algo mais vasto” que nossa inteligência. Sugerir esse tipo de pensamento para definir ateus é de um primarismo mais que vulgar.
Parece que as duas atitudes refletem duas posições a respeito de uma possível ciência universal. De um lado, o crente pergunta ao ateu: “E quando ficar evidente que a ciência universal é impossível, você passará a crer?” E o ateu pergunta: “E se a ciência universal acontecer, você deixará de crer?” É um tanto irresistível observar que, dita assim, a posição atéia parece se basear não num prometeanismo voluntarista, mas num prometeanismo inevitável: a transcendência não será mais necessária porque conquistá-la é só uma questão de tempo.
É a extensão do argumento ridículo acima exposto. As perguntas não são essas, pois ambas são apenas retóricas. Como uma “ciência universal” pode ser diretamente proclamada como impossível? É o mesmo que afirmar, puerilmente, que um dia será possível provar cabalmente a existência ou não de Deus. Nunca será. Nem mesmo se Jesus Cristo voltar e tocar o terror isso será possível, pois nunca poderemos confirmar se é mesmo Deus ou um ser mais poderoso de outra dimensão, e outras coisas que um cético com imaginação suficiente (ou leitura de revistas em quadrinhos suficiente) poderia afirmar. Claro, na ocorrência de um Juízo Final ou coisa do gênero eu dificilmente continuaria a descrer. Só o que posso afirmar é que não me arrependeria de ter sido um descrente – pois foi assim que achei melhor viver minha vida. O argumento ateu favorável à ciência não diz que esta vai resolver todos os mistérios, mas que pode e deve tentar resolvê-los. Se não se entender isso, nada mais se entende.
O que percebo, enfim, é que o texto é mais uma tentativa de igualar o ateísmo ao teísmo, assumindo a pecha de “irracionalismo” que se pôs neste para tentar imputar àquele o mesmo defeito. E daí demonstrar que os ateus são bibelôs de uma crença nas possibilidades científicas. Sinceramente, peço ao sr. Pedro Sette Câmara o seguinte: não considere que os ateus são “crentes na ciência universal”. Isso é uma besteira do tamanho de um deus.
UPDATE
A discussão no post do Sérgio de Biasi (amigo de Pedro Sette Câmara) toca em alguns pontos discutidos neste post. Já a refutação lógica do argumento de Santo Anselmo, eu prefiro não comentar – não entendo nada de lógica.
Pessoalmente, eu tenho certeza de que este experimento de se colocar na mente do seu oposto filosófico é impossível, posto que a alguém que o fizesse só restaria o agnosticismo, dissolvendo os dois pólos discutidos.
Álvares,
não é possível se colocar “na mente”, mas é possível sofrer um doloroso processo de empatia, em que fazemos o exercício de nos colocar na posição adversária.
Não consigo ver por que isso levaria necessariamente ao agnosticismo.
Não li o texto do Sette Câmara, exceto pelo que você citou, mas deu para ver que está uma porcaria. “Em termos de experiência, pergunto-me(…)” é uma frase que eu jamais começaria, nem nos meus piores dias.
É óbvio que crentes e ateus não são grupos delimitados e coerentes, antes há crentes pelos mais diversos motivos e ateus pelos mais diversos motivos. Parece que um jeito mais seguro de tentar o empreendimento seria comparar um grande crente com um grande ateu. Se você descobrir um grande ateu, avise-me, e quem sabe um dia eu tento.
Rafael,
na verdade citei o texto quase inteiro. Só a frase final não foi analisada (ele só diz que foi tudo que ele conseguiu até o momento).
Mas divago.
A teoria de Deus é o fundamento de um sistema que se articulou de forma a aproveitar uma laguna que existe na percepção humana.
Se baseando em sua vaidosa pretensão de ser importante e eterno no contexto universal.
O ateu não aceita esta teoria. Não sente esta necessidade.
Simples assim.
Puxa vida, e eu que pensava que a vaidade era um pecado…
O que não impede os crentes de cometê-lo, até constantemente. ;D
Laguna? Tipo uma pocinha d’água?
(Não li o post nem a discussão direito, mas parei nisso aí e pá, pum.)
Como estava falando com o Marlon agora há pouco, os ateus somos mal representados. O mais visível ultimamente é o tal do Dawkins, mas alguém vai dizer que todos os ateus seguem a bíblia dele?
Quem segue bíblia são os religiosos. O dia em que os ateus virarem um grupo teoricamente coerente, poderemos enfim fundar a Profaníssima Igreja Atéia. Por ora, não.
Se for para dividir o mundo, dividamos entre pessoas que usam fonte serifada em seu blog e pessoas que não. Uma análise profunda desse acontecimento revelará cada estalo de suas almas.