Gran Torino: choque cultural
Postado em May 13, 2009
Categoria Relances | 3 comentários
Já vi e li tantos comentários, tantas opiniões e tantas resenhas do filme Gran Torino, de Clint Eastwood, que me senti chateado com a incapacidade dos “críticos” dizerem o óbvio, o evidente: Gran Torino é melhor do que os 5 filmes que disputaram o Oscar de Melhor Filme. Não que o Oscar seja parâmetro para algo; Kubrick nunca ganhou um, por exemplo. Mas impressiona como filmes visivelmente inferiores, se não em concepção mas certamente em realização, receberam maior acolhida pela Academia.
Eu poderia falar por vários ângulos sobre a superioridade de Gran Torino, mas acho mais profícuo estabelecer a relação que cada filme apresenta com nosso tempo, embora apenas um dos cinco se passe efetivamente nos anos 2000, em sua maior parte. Trata-se de Slumdog Millionaire, vencedor do Oscar e primeiro de que trato.
Aparentemente, Slumdog Millionaire está afinado com algo caro aos dias de hoje: a globalização e a consequente valorização de culturas não-ocidentais. Há vinte anos seria muito estranho um filme rodado na Índia (embora com capital e diretor britânicos) catalizar tantos interesses e espectadores. Sem dúvida contribui para isso a procura das pessoas por outras formas de ver o mundo, em especial as orientais. Nesse sentido, Slumdog Millionaire tem seu maior trunfo em potencial. Mas é exatamente contato com novidades culturais que não temos ao assistir ao filme.
Construído como uma fábula bonitinha em que o destino dá as cartas, sempre com o fim último de garantir ao protagonista a felicidade, o filme acaba por mostrar os vícios da sociedade indiana de modo pasteurizado. A prostituição infantil, os massacres étnico-religiosos, as condições precárias de vida são episódios na trajetória de Jamal, e só no transporte abstrato da ficção para a realidade realizado pelo espectador (quase nunca o comum, que é mesmerizado pela louvável e apurada técnica cinematográfica) é possível enxergar estes males como mazelas da sociedade indiana. O filme, em si, faz de um evento trágico (um massacre religioso, logo no começo do filme, serve de exemplo) apenas mais um momento de interesse na vida de Jamal e que inverossimilmente servirá de superação, pois dali virá a resposta para uma das perguntas do Show do Milhão a que ele se submete. Em suma: a forma do filme não critica, apenas junta episódios.
Portanto, o choque cultural é filtrado por uma fórmula atenuadora de diferenças e convertido em mera espetacularização de cenários e figurinos. Há até a figura deliberadamente ambígua, o irmão de Jamal, convertido ao final do filme em boa gente. Em suma, um filme sem grandes ideias, sem grandes questionamentos, com uma forma convencional e fácil para cativar o público mais acostumado com melodramas. Para efeito de rápida comparação, um filme tão otimista quanto Slumdog é Central do Brasil, mas neste ainda resiste uma estética de incontornabilidade dos fatos ruins. Em Slumdog vemos uma superação tão mentirosa quanto pseudo-redentora.
Em contrapartida, Gran Torino esforça-se em particularizar os momentos de choque cultural, em que sempre há evidente preconceito de ambas as partes: o homem branco herdeiro da Guerra Fria e os asiáticos em busca de uma vida mais decente, mas sem perder as raízes. O choque não é suavizado: os preconceitos eclodem de modo bastante não-politicamente-correto, ainda que com efeitos cômicos. Se a estrutura do filme ainda é pautada por um ou outro clichês, como por exemplo o sentimentalismo do final, estes aparecem com muito mais nuances: no fim, o preconceito racial está ainda presente, mas ironizado. Os americanos yuppies sem nenhum respeito à tradição católica sentem-se mal com a presença dos hmong na missa pela morte de Walt Kowalski, muito embora estes saibam respeitar os ritos muito melhor do que os familiares de Kowalski. Assim, o sentimentalismo resta no filme também como uma pequena ironia aos filmes típicos em que a família lamenta a morte de um parente: os filhos não sabem lamentar a morte de Kowalski tão bem quanto os orientais.
Um legítimo exemplar de crítica dialética…
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