Sobre essa coisa de “crítica literária”

Postado em March 19, 2009
Categoria Relances | 2 comentários

Eu já vejo tanto absurdo que é preciso escrever um. Já vi pessoas falando da obra de Kafka com aquela emoção e dizendo assim: “representa o peso da burocracia sobre o homem moderno”. Por mais semelhantes que possam parecer, os vagares de Joseph K., ou simplesmente K., ou mesmo o pobre Kafka de seus pesadelos tão terríveis quanto infantis (termo não-pejorativo), esses vagares ao redor de castelos e processos não são da mesma estirpe de nossas atribulações e nem por um segundo podem ser interpretados como alegorias de burocracia alguma. Quem já esteve em bancos para ser atendido (espero que os atendentes sintam a mesma coisa, ou começaria a duvidar do caráter deles) sabe que não há nada de literário em taxas, sobretaxas e papéis e mais papéis que de nada servem. Se Kafka tivesse realmente escrito sobre a burocracia, Max Brod deveria ter sido queimado.

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Outro lance esperto é tentar descobrir a “argentinidade” de Jorge Luis Borges. A única coisa que Borges tem de efetivamente argentino é o que Galvão Bueno chamaria de “essa catimba argentina”. A importância de Martín Fierro, dos pampas, das ruas de Buenos Aires e tudo o mais? Tenho certeza que há mais Robert Louis Stevenson em Borges do que há Argentina, incluindo o magnífico superclásico. Mas é mais fácil, né gente?, do que ler a biblioteca que o Borges leu. Eu mesmo não tenho coragem.

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Mas o melhor de tudo são as críticas feitas ao Antonio Candido. E não adianta nem ele morrer, porque se tem algum tipo de pessoa que não vira “bonzinho” quando morre, esse alguém é o crítico literário. Tripudiarão do trabalho dele às favas, embora ele conte com seus fiéis defensores. Eu não sou um defensor, embora faça uma defesa oblíqua sendo esperto e aguardando a hora para criticá-lo: quando tiver pelo menos uma “Formação da literatura brasileira”, mas com meu nome no título.

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Eu queria falar das vaidades dos críticos acadêmicos, mas não tem graça.

Comentários

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2 Comentários »

Marlon
2009-03-20 03:28:49

A única coisa que Borges tem de efetivamente argentino é o que Galvão Bueno chamaria de “essa catimba argentina”.

 
Emmanuel
2009-04-01 01:32:51

Vinícius, Vinícius…

 
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