Pirlimpsiquice, de João Guimarães Rosa

Postado em September 22, 2008
Categoria Relances | 22 comentários

Passado em um colégio interno, o conto Pirlimpsiquice, de Guimarães Rosa, presente em Primeiras Estórias, apresenta um narrador que relembra nostalgicamente a ocasião em que foram selecionados vários alunos para a encenação de uma peça de teatro. Os alunos, porém, deveriam guardar segredo quanto ao enredo da peça, para assegurar a surpresa dos que a veriam. Para manter o segredo resolvem inventar uma nova história para contar aos alunos que lhes perguntassem o enredo da peça.

Esta história falsa, entretanto, passa a ganhar corpo e detalhes durante as tediosas encenações da peça anterior, a original: os alunos acabam por deixar a peça falsa tão complexa quanto a oficial. Uma terceira versão da peça, inventada por outro aluno (um tal de Gamboa) e toda diferente, é divulgada como se fosse a verdadeira. Então, os alunos do teatro preferem divulgar a sua peça para desmontar a versão mentirosa do Gamboa.

No entanto, a imprevista ausência do ator principal, por problema de saúde na família, realiza o imprevisto: o narrador, que apenas serviria de “ponto”, terá de interpretar o personagem faltante. Já no começo da peça se esquece de uma oração que daria início à peça; seguem-se outras trapalhadas, até que Zé Boné, menino deslocado e com dificuldades de expressão, começa a encenar, sem qualquer aviso, a peça que Gamboa havia relatado.

Todos então se unem ao ator que surge de repente e passam a criar cenas de improviso, interpretando a peça criada pelos alunos em uma forma praticamente encantada. O narrador vê então a necessidade de romper com aquele encantamento, que acabaria sabe-se lá quando, e se joga do palco para um gran finale farsesco.

Guimarães Rosa, sempre comentando o narrar, inventou uma peça de teatro infantil para desenvolver uma reflexão sobre ficção e realidade e sua, por vezes difícil de determinar, intersecção. É esta intersecção que se precisa contornar, visto que é o fator de organização do texto. Basta pensar que a peça original, oficial, é qualificada negativamente devido à sua precária ligação com os atores – é externa ao seu imaginário – e é substituída com naturalidade por Zé Boné e os outros alunos.

Dois motivos irmãos constituem tal naturalidade: primeiro, a referida inadequação entre atores e tema; segundo, a familiaridade dos atores-alunos com a história criada por eles, e portanto presente em seu imaginário. Tudo se constitui quase magicamente justamente por causa da relação intensa dos alunos com sua peça; diferente da original (portanto falsa), porém mais verdadeira por causa de sua referencialidade original.

Mas qual é o motivo para o narrador desfazer esse laço telúrico entre o mundo de ficção e a realidade? O narrador do conto precisa romper a temporária comunhão entre ficção e realidade, devido ao risco de igualá-las e enfraquecê-las: a realidade tornada ficção perderia seu poder de vivência experiencial e a ficção tornada realidade perderia seu impulso criativo.

O narrador se vê obrigado a romper a mágica da peça e garantir que a experiência mantenha seu valor exemplar para a realidade a que se refere e na qual foi imaginada; essa obrigação, tão dolorosa quanto necessária, é o que constitui o recorte específico do narrador, o que define os limites da ficcionalidade, e o que garante sua força criativa e representativa. Sem a divisão entre arte e vida, ambas podem tornar-se estéreis.

Comentários

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22 Comentários »

2008-09-29 13:47:51

“Isto talvez redobre o espanto da crítica em torno de Clarice. Pois quando publicou seu primeiro livro – ‘Perto do Coração Selvagem’ (1944) – o pasmo vinha de aquele texto ter sido escrito por uma colegial de 17 anos. A escritora que nascia tinha já um estilo praticamente pronto e chocava pela maneira muito peculiar de narrar a estória. Esses dados cronológicos demonstram que a obra de Clarice não é um produto intelectual*, mas a resultante de uma consciência estranha e aberta para as regiões íntimas do ser. Por isso se pode dizer que a melhor maneira de ler Clarice não é racionalmente. Requer-se antes uma empatia natural, algo semelhante àquilo que Goethe chamou de ‘afinidades eletivas’.”

Affonso Romano de Sant’Anna, em texto introdutório à sexta edição do livro de contos “A Legião Estrangeira”.

Talvez eu devesse começar a ler crítica literária, pois chegaria mais rapidamente às conclusões a que qualquer leitor interessado pode chegar por conta própria. ¬¬ (A fala do Sant’Anna é bem aquilo que eu venho dizendo a você.)

*Afirmação ostensiva demais para o meu gosto, até mesmo sem sentido lógico se levada ao pé da letra. Mas releve-se, que o que é dito depois deixa a idéia mais inteligível.

 
2008-09-29 13:48:48

De minha parte eu diria que a monstruosidade da obra de Clarice Lispector descende diretamente dessa “consciência estranha” identificada pelo Affonso — sendo portanto mais instintiva do que intelectual? Talvezzzzzzzzz. O problema é que é arte, é formulação, tem origem no intelecto que no meu entendimento é um supra-conjunto dos instintos e caráteres por assim dizer naturais.

Agora, pejorativamente, o que a crítica em massa extrai da obra dela é, aí sim, apenas intelectual. Facilitações, preconceitos, estrabismos, inteligência de segunda mão. Porque, não tem jeito, os temas dela passam obscuros ao leitor não-intuitivo, ignorante quanto ao “se aprofundar na alma humana”. Por que, aliás, tive de usar essas aspas? Porque é contra a ética acadêmico-pós-moderna-de-massa demonstrar isso que você mesmo já chamou de afetações. Mas não são afetações, são palavras que se referem a um tipo de percepção de mundo não compreendido pelos musculosos das academias (“hehe”), pois eles são fortões e durões demais para isso. Logo:

Ela inventa um mundo em perspectiva, eles apontam as linhas gerais de uma fotografia embaçada desse mundo (a visão deles). Na melhor hipótese, isto é. Na pior eles analisam detalhadamente os pormenores e significações “malandras” das linhas embaçadas que eles vêem nas obras.

To sendo elitista, sim. (A minha elite é composta por perdedores conscienciosos e sorridentes.) Experimenta ter uma afinidade eletiva e vê se você também não vai se exaltar.

ps: Você disse que eu podia falar o que quisesse. Pronto, falei.

 
2008-09-29 13:49:16

E quando eu digo “eles”, devo confessar que tenho em mente menos os críticos estabelecidos e publicados do que aqueles que nós temos como colegas na nossa graduação.
Penso nuns certos estudantes da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo lendo e – ai – opinando sobre as obras de Clarice Lispector.

E fico triste, muito triste. Sinto-me só.

“O humano é triste e só” (C.L.)

 
2008-09-30 00:07:54

É curioso como nossas opiniões às vezes parecem convergir, às vezes parecem totalmente contrárias. Isso se dá principalmente por quase nunca definirmos nossas posições de maneira expositiva, o que facilitaria a crítica dos argumentos.

Vou começar pelo que você começou. A citação do Sant’Anna é, no mínimo, curiosa. Não sei quanta crítica literária a respeito de Clarice Lispector você já leu, ou a respeito de qualquer outro autor. Sei de algumas posições suas que são muito curiosas, mas isso não vem ao caso. Apenas acho que não é muito representativo apresentar qualquer posição sobre a crítica literária tendo por exemplo um texto introdutório – um prefácio – a uma obra. Na maioria dos prefácios não há a intenção de interpretar densa e aprofundadamente a obra. Claro que há prefácios que acabam fazendo isso, mas não parece ser esse o caso.

De todo modo, sua intenção não foi fazer um tratado sobre crítica literária, portanto o exemplo não deve ser, a priori, ser tomado como inválido. O problema é que, por trabalhar com categorias generalizadas, seu comentário tende não só à generalização, mas também à simplificação e ao reducionismo. Vejamos o texto:

O problema é que é arte, é formulação, tem origem no intelecto que no meu entendimento é um supra-conjunto dos instintos e caráteres por assim dizer naturais.

Até aí, nada muito distante de algumas opiniões sobre a formação do intelecto humano. Entretanto, você negligencia a afirmação necessária para seu argumento: a de que a racionalidade (que você chama de “intelectual”) não faz parte do conjunto de instintos referido. Em suma, você fatiou o intelecto humano em dois, afirmando existir um “supra-conjunto de instintos e caráteres”, impermeável à outra metade, composta apenas de racionalização, ou intelectualidade pura.

Quando digo que você agiu maniqueísticamente não estou dizendo isso tendo em conta a superfície do texto, mas sim as implicações da idéia. A intelectualidade de qualquer ser humano é necessariamente influenciada pelo tal “supra-conjunto”, e também vice-versa. Acreditar que qualquer crítico, por mais estruturalista, matemático, estatístico que seja, não tem na base de seu trabalho um instinto e um caráter é afirmar algo impossível: o crítico teria efetivamente transformado-se numa máquina. Se por um lado concordo que o trabalho crítico sofre constantes ameaças (e cada vez mais freqüentes, tendo por base os nossos companheiros a que você se referiu) de mecanização, prefiro dizer isso como metáfora, e não como se fosse a realidade. Discordo com a afirmação de que algum trabalho feito por uma pessoa não tenha alguma base instintiva. Não é por ser uma base mais mesquinha que seria menos humana.

Para finalizar:

Porque, não tem jeito, os temas dela passam obscuros ao leitor não-intuitivo, ignorante quanto ao “se aprofundar na alma humana”.

Bom, aí temos um problema, não é? O que é, necessariamente, “se aprofundar na alma humana”? Acho que muitos leitores de Clarice Lispector acreditam compreendê-la profundamente, assim como você acredita (e acredito ser verdade no seu caso), e não tem nem um décimo da profundidade a que um crítico chega no seu texto mais porco.

Além disso, “se aprofundar na alma humana” é uma fórmula restritiva, arbitrária e totalitária. Qualquer leitura de Clarice que se desviar da sua vai, necessariamente, ser desprovida de profundidade, pois negou certos pressupostos. É uma desqualificação ingênua e pouco profícua. Ingênua por achar que há uma espécie de restrição à “profundidade” imposta a um grupo – os críticos literários -, quando não há nada que ao menos indique a real existência dessa restrição. Pouco profícua por levar você à velha falha de todo intolerante: jogar o bebê junto com a água do banho.

Isso leva ao ponto em que convergimos em parte, e que talvez gere algum texto meu mais para frente. Há muita crítica literária incompetente, que nada mais faz do que repetir os cacoetes das escolas críticas. Você generaliza a crítica, nivelando por baixo, talvez por observar o mesmo que eu: a tendência gigante de aumentar mais e mais essa incompetência. Pois o que não são os “nossos colegas” além de repetições de cacoetes adquiridos em aulas, meia dúzia de leituras e alguma empáfia? Nesse sentido, você não vai sentir-se só apenas ouvindo-os falar sobre Clarice, mas também sobre Homero, Saramago, Stendhal e Petrarca. Nisso não entra nenhuma falta de instintos ou intuitividade; ao contrário, é o excesso de instinto pela arrogância injustificada, além da intuição que diz: “sou incompentente, mas não importa; na verdade, sou bem mais competente que o resto, estou na USP e a maioria não. Sou um escolhido. Basta repetir algumas teorias sobre uma obra qualquer e então…”.

 
2008-09-30 17:32:18

Você não me entendeu. Você ecreveu um monte de palavras difíceis sobre o meu pensamento que não poderia ser mais simples. Só não digo que aqui se deu justamente o que ocorre na relação crítica literária versus Clarice Lispector porque as partes da analogia não seriam perfeitas: você já é um crítico literário e eu não tenho sequer uma mitocôndria nas dimensões de Lispector.

“Se aprofundar na alma humana” é o tipo de frase que eu só ainda falo em público por ser muito otária. Aliás o maior problema das pessoas que não entendem Clarice Lispector (maior inclusive do que não a entenderem) é encher de conversa fiada o espaço gerado por sua incompreensão. Procuram por definições formais para as coisas que pressentem intangíveis; parece que quanto mais pressentem essa intangibilidade mais querem violá-la. Enquanto é tudo tão claro quando você simplesmente conhece tais coisas! “O ovo e a galinha” é um conto tão claro!

E eu sou definitivamente muito otária de falar tudo isso em público, quando é muito fácil me chamar de doida varrida, arbitrária, obsessiva. Bem, podem chamar-mo.

Vinícius, você não entende por que, nem eu consigo te explicar, mas se quiser estreitar sua relação com a realidade aceite o fato de que você e boa parte das pessoas do mundo não lêem Clarice Lispector em todas as suas piadas internas.

 
2008-09-30 17:36:14

Ai, me faria um bem enorme (retoricamente) se eu tivesse paciência de treplicar sua réplica frase por frase. O que eu penso não soaria tão vago e o que eu falo, tão idiota. Mas – ai! que preguiça. Prefiro ir ler Vidas Secas.

 
2008-09-30 18:32:04

Seu pensamento não é idiota. É ingênuo. É claro que eu entendi o que você disse antes, qualquer leitura atenta de meu comentário confirmaria isso. Mas você já esperava que eu não entendesse. Ou melhor: sabia que eu não entenderia. Assim fica difícil, não?

Talvez fizesse um bem enorme evitar o seu procedimento mais comum: ao ver-se defrontada com as conseqüências de suas afirmações, você as tangencia. Não posso tirar uma palavra sequer do que eu disse pois você não disse uma palavra sequer contra o que eu disse. Ao contrário, confirmou-as. Você mesma diz que seu pensamento “não poderia ser mais simples”, quando o que eu disse é justamente isso: ele é tão simples que está cheio de simplificações, está simplório.

Quanto a “estreitar minha relação com a realidade”, pode ficar bem tranqüila. Não advogo a mim o direito de dizer que leio Clarice Lispector muito bem. Quem o faz é você. Também não disse, em momento algum, que as pessoas a lêem bem. Disse que é errado e ingênuo pensar que o trabalho crítico é meramente “intelectual”, mesmo que seja o mais porco. Você coloca todos num beco sem saída (e se repito isso é porque você precisa entender): ou a pessoa concorda com sua visão sobre Clarice Lispector (e aí esatrá dizendo obviedades para você) ou ela não leu direito. Repito: é uma posição arbitrária e totalitária, avessa às diferenças. E, devo dizer, pouco relacionada à realidade.

 
2008-09-30 19:07:29

Eu disse, sim, uma palavra contra o que você disse: que você não entendeu nada! E eu é que não vou refutar o caos. (Pulando fora de discussão sem futuro.)

Bai-bai. (Fiz melhor do que ler Vidas Secas: fiquei tocando violão.)

 
2008-09-30 19:28:13

Tá bom, tá bom, vou fazer um esforço.

Sobre o termo “intelectual”: meu comentário partiu de uma crítica ao Sant’Anna por, ele sim, dicotomizar “intelectual” e “consciência estranha aberta para as regiões íntimas do ser”. Eu sugeri que uma tal consciência parte do bolsão cognitivo chamado intelecto, não sendo portanto oposta aos produtos intelectuais, mas igual a estes.
E em seguida disse que (e agora vem a palavra-chave), PEJORATIVAMENTE, os leitores burros de Clarice são só intelectuais: intelectuais pejorativamente, intelectualóides, Luíses XVI.

Por favor tente ser menos cabeça dura que lê tudo ao pé da letra: quando digo leitores não instintivos, é claro que não penso em instinto stricto sensu, à la Freud; DEVERIA ESTAR MAIS DO QUE CLARO que me refiro aos leitores que não possuem uma percepção de mundo captante da frequência clariceana, para os quais não existe definição formal e nem eu estou disposta a inventar uma, por isso tomo emprestado algum termo engraçado de alguma ciência qualquer e tasco-lhe sobre a minha criação bastarda.

Bah, cansei de falar sério. Pessoas do dark side (que se aprofundam na alma humana – “Obsessão”) são mais legais. A gente conversa com a máquina do mundo sem ter que estuprar as idéias desse jeito chato!

Vou correndo pra casa morder a coxa de uma galinha bem gorda!!!!!!!!!!!!!!

 
2008-09-30 19:42:06

“…é uma posição arbitrária e totalitária, avessa às diferenças. E, devo dizer, pouco relacionada à realidade.”

Relativismo fefelechento!!!!!!!!!!!! Você quer ser o quê, Vinícius, professor de IELP I?

Porque existem daltônicos, o vermelho dos não daltônicos se torna menos vermelho? (Não tenho certeza quanto à resposta dessa pergunta; é um desafio retórico lançado.)

 
2008-09-30 19:48:56

Para quem está comendo uma coxa de galinha, até que você está se esforçando.

Não discutamos mais; sua argumentação está fraquinha. Só de você imputar relativismo a uma crítica direta que fiz à sua intolerância às idéias contrárias já renderia uma boa sessão de análise.

Acho que você se preocupa mais com essa discussão do que eu, sabe-se lá o motivo.

 
2008-09-30 20:06:32

É que vc é o centro do meu universo, Vinícius. Durmo e acordo pensando em você, no seu blog e nas suas opiniões sobre literatura.

 
2008-09-30 20:08:15

O Fabiano não vai gostar de saber disso.

 
Emmanuel Santiago
2008-10-01 17:03:20

Bom, não querendo enfiar a colher no meio da briga, aí vão algumas opiniões minhas sobre Clarice Lispector que é, certamente, a minha autora favorita em prosa.

Acho que há dois aspectos interessantes em Clarice; quer dizer, são dois os aspectos que me interessam particularmente. O primeiro deles é a capacidade dela em verbalizar algumas impressões que nós (pelo menos eu) vagamente pressentimos. Fico de boca aberta e digo: “sim, eu sei exatamente o que está querendo dizer; já senti isso também”. É uma capacidade rara de verbalizar o não-verbal, o devaneio mais efêmero e mesmo o arrepio… Dizendo de modo a puxar o próximo ponto, é uma capacidade de dar forma ao informe. Sei que essas coisas já foram ditas com maior ou menor justiça com relação a outros milhares de escritores. No caso de Clarice, é algo absolutamente justo.

O outro ponto que me interessa na Clarice é o sentimento formal, que é algo, imagino eu, diferente de uma consciência formal, cujo exemplo mais óbvio na literatura brasileira seria João Cabral. Clarice não se furta ao trabalho formal, ao contrário: ela experimenta, explora várias possibilidades formais, está sempre jogando com a forma. Veja o caso do conto “A quinta história”.

Se às vezes a forma parece fugidia, é porque o conteúdo necessita que assim o seja. Clarice reescrevia obsessivamente os seus textos, menos para acrescentar ou subtrair idéias do que para adequá-lo a uma forma que ela não sabia exatamente qual era, mas a perseguia, sentindo que essa era a forma necessária para o texto. Depois de publicado, no entanto, Clarice nunca mais voltava ao texto; sentia que todo o trabalho já tinha sido feito. Clarice tinha uma extrordinária sensibilidade formal.

Essa questão de encontrar o que é “necessário” para o texto, de chegar àquela sensação de que o texto só poderia ter sido escrito de tal forma e não de outra, é uma via de mão dupla. Depende das intenções do autor, isso é óbvio, mas depende também das necessidades imanentes do próprio conteúdo, daquelas expectativas que o próprio conteúdo, por questões rítmicas, semânticas, estruturais, etc., gera.

O bom artista é, no final das contas, não aquele que consegue concretizar as suas intenções em obra, mas aquele que consegue realizar as necessidades imanentes do conteúdo. Clarice, se não tivesse um profundo sentimento formal, não seria nada mais do que mais um escritor confessional, entre tantos.

No meu ponto de vista, há dois caminhos possíveis para realizar as necessidades da obra: uma via mais intuitiva, como é o caso de Clarice, de perseguir intuitivamente uma forma adequada ao conteúdo; e uma via mais racional, de descobrir intelectualmente a forma mais adequada. Ambas são válidas e, no caso de alguns autores, como Drummond, são até mesmo complementares.

Não vejo, ademais, como não seja possível uma leitura racionalista de Clarice, contanto que não se tente racionalizar a obra de Clarice. Freud fez uma teoria racional dos conteúdos inconscientes da psiquê humana. Nenhuma obra literária pode ser menos racional que tal conteúdo, porque já pressupõe a linguagem, que, por trazer um conteúdo semântico mais ou menos determinado, corresponde a uma espécie de racionalização, pois a linguagem é, em grande medida, pensamento abstrato – diferente do devaneio e da imaginação (o “pensar imagens”). Ou será a arte mais irracional que o próprio irracional? Se é possível teorizar sobre o irracional, não há arte sobre a qual não se possa teorizar.

 
2008-10-02 22:36:14

Agora diga, Emmanuel: se você jamais tivesse tido – subjetivamente, é óbvio – contato com os processos emocionais reconstruídos lingüisticamente pela Clarice, a obra dela significaria o mesmo tanto?

Emmanuel
2008-10-18 13:43:21

Lorena,

Deve-se levar em consideração que as minhas primeiras leituras de Clarice datam dos doze anos de idade, quando eu não tinha nenhum problema em conciliá-las com a leitura dos livros de Paulo Coelho, com “O senhor dos anéis” ou vários outros textos de literatura comercial. O critério da minha afinidade, a essa época, era puramente pessoal: ia de acordo com a minha concordância ou discordância com aquilo o que o autor queria dizer (ou com aquilo o que eu achava que ele estava querendo dizer), ideologicamente falando.

No entanto, o que me fez, anos mais tarde, retomar Clarice percebendo que nela havia algo de mais profundo do que num Paulo Coelho, por exemplo? Bom, nessa época eu já escrevia e tinha uma consciência maior do que era um texto literário digno do nome e o que era puro entretenimento, além de já ter ampliado bastante a minha carga de leitura de literatura “de qualidade”. Eu já ficava alucinado na experimentação formal da Clarice, eu pensava: “nossa, ninguém mais escreve desse jeito!”.

É claro que uma das coisas que me interessou na Clarice foram os “processos emocionais reconstruídos [ou inventados] lingüisticamente”, mas não só isso. Aliás, a tal reconstrução já é parte do estrato formal da obra. Mas isso não me faz pensar que só seja possível ler Clarice a partir da consideração dessa reconstrução, assim como tenho consciência de que essa é uma leitura bem mais interessante em Clarice do que para outros autores, sem que isso implique numa comparação de valor entre eles. Gosto de Clarice, mas gosto, sobretudo, de João Cabral.

Refletindo ultimamente, hoje chego a discordar um pouco do meu comentário anterior. Acho que o que eu chamei de “sentimento formal”, que poderia facilmente ser chamado também de “intuição formal”, não faz jus ao trabalho de Clarice. Penso que seria impossível que Clarice tenha chegado aos resultados que chegou sem um nível elevado de consciência formal, amparado numa intuição notável. Não acho que ela tenha chegado a algo como “A quinta história” ou “A imitação da Rosa” por vias puramente intuitivas. Acho só que ela tinha uma consciência mais fluida do que o normal.

 
 
2008-10-10 23:00:12

O Emmanuel mór-reu.

 
2008-10-17 16:48:17

Bom, não querendo enfiar a colher no meio da briga, queria falar sobre o post do Vinícius.

De fato, confesso, entendi pouco da sua análise. O parágrafo essencial me parece ser esse:

“Mas qual é o motivo para o narrador desfazer esse laço telúrico entre o mundo de ficção e a realidade? O narrador do conto precisa romper a temporária comunhão entre ficção e realidade, devido ao risco de igualá-las e enfraquecê-las: a realidade tornada ficção perderia seu poder de vivência experiencial e a ficção tornada realidade perderia seu impulso criativo.”

Vejo no conto o contrário. Após o momento que o narrador não se lembra dos versos que vão iniciar a peça, a peça desanda de seu texto original. A separação ficção-realidade está residindo nessa falta de comunhão entre os atores (a realidade) e o texto original da peça (ficção).

Quando você diz que a comunhão entre ficção e realidade dá o risco de enfraquecê-las, vejo o contrário. No conto, é somente com a naturalidade do “impulso criativo” dos atores (que não mais precisam obedecer à uma ficção já pronta e distante deles) que se cria a comunhão ficção-realidade. Isso você percebeu quando disse que há uma “temporária comunhão entre ficção e realidade”. Eu não entendi foi porque você acha que há a necessidade de rompê-la e, mais, porque essa comunhão enfraquece as duas partes.

Se é que me fiz entender.

 
2009-12-16 10:41:08

Aqui se inventa muitas estórias, principalmente as que aconteceram.

 
2011-06-19 09:41:10

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