Uma certa fidelidade

Postado em September 13, 2008
Categoria Relances | 15 comentários

Há uma curiosidade entre as pessoas que gostam de literatura: para muitos, não basta gostar de um autor, de uma obra ou de um tipo de literatura. Além da preferência, opera-se uma transformação nas pessoas, resultando em uma certa fidelidade pessoal que o leitor firma com o autor; como se este tivesse autoridade suficiente para servir de guia, provedor e até mesmo demiurgo da personalidade alheia.

Esta fidelidade existe, em maior ou menor grau, em praticamente todos os leitores. Arriscaria dizer que somente os leitores frívolos estariam totalmente livres dela, em parte por ser uma relação estabelecida naturalmente entre autor e leitor e que garante alguma compreensão daquele por este. É também uma forma de explicar parcialmente certas preferências pessoais, nem sempre sujeitas às leis da lógica ou da estética. Um exemplo particular é meu gosto acentuado pelo Jorge de Lima de Invenção de Orfeu, em comparação com o Manoel Bandeira de Libertinagem. Bandeira é maior e melhor poeta que Jorge de Lima, mas minha simpatia pelo poeta alagoano é bem maior.

Há gradações nesta fidelidade. Longe de querer esquematizar, ou criar uma tipologia, pretendo falar mais dos possíveis humores e conseqüências gerados por esta fidelidade que aponto. Será também um modo de deixar mais claro o que estou falando.

O modo mais brando de fidelidade é este que referi acima no caso Lima-Bandeira: a preferência pessoal, poucas vezes explicada objetivamente. Por alguma razão, por mais lateral que seja, ao invés de ler Shakespeare ou Dante, o leitor prefere voltar vezes sem conta ao autor com quem tem algo de pessoal. Em casos mais fortes, despreza-se até mesmo obrigações profissionais para se ter o prazer da (re)leitura do autor mais familiar.

Mas isso ainda é comum, para não dizer universal entre os leitores. Depois, há o momento em que a preferência deixa de ser apenas por um autor, mas também para todos os que se assemelham a ele. Um escritor semelhante passa a gozar de mais simpatia do que um escritor bastante diferente. Um leitor que gosta de Álvaro de Campos passa a deixar de gostar – ou até mesmo repelir veementemente – poetas como João Cabral (nesse caso, talvez, pelo motivo formal). O materialismo machadiano passa a ser repulsivo e mal apreciado por um entusiasta de Tolstói. O autor preferido passa a ser guia do juízo de valor feito pelo leitor.

Às vezes isso se intensifica. Nesse momento, o nível de fidelidade expressa passou do limite estético e passa a entrar em esferas mais, digamos, familiares. O autor não é mais considerado um autor, mas um amigo, um primo, um irmão, um pai. Já usei essa expressão diversas vezes – como quando disse que Whitman era um amigo para quem escrevia com pouca freqüência. Embora dizer isso possa ser uma metáfora – e no meu caso era -, torna-se cada vez mais real para o leitor. O que não deixa de representar um risco: a interlocução com uma obra literária é difícil, principalmente nos momentos de maior dependência emocional ou psicológica. Penso enganarem-se os que encontram algum alívio na Literatura. Todo bom autor, mesmo quando nos consola, é terrível, como disse Rilke sobre os anjos.

Desta cumplicidade para começar a considerar o autor praticamente um deus vai um passo. E o passo dado torna-se quase irreversível. É o momento em que reconhecemo-nos em cada linha escrita pelo autor, em que sentimos que este nos previu, ou até mesmo nos criou. E há os casos graves: realmente nos criou. Nossa personalidade inteira foi uma construção deste autor ou de uma obra específica. É como se, por exemplo, Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister também tivessem sido nossos anos de aprendizado, e nossa Sociedade da Torre fosse o próprio Goethe. O escritor torna-se um dos fantásticos personagens de Borges, o mago de As Ruínas Circulares, que

Quería soñar un hombre: quería soñarlo con integridad minuciosa e imponerlo a la realidad.

O mago efetivamente sonha um ser, mas ao fim do conto descobre também ter sido um sonho. O autor não tem esse problema, mas o leitor pode passar pelo momento de frustração de ver-se fruto de um sonho. Isso, no geral, não acontece: os personagens espúrios criados – leitores – passam pela vida e acreditam ter apenas um autor preferido, sem reparar que fizeram-se parte não-pretendida da obra literária.

Comentários

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15 Comentários »

beharren
2008-09-13 17:51:34

Não ficou muito claro se você realmente condena o que apontou, mas é quase inescapável essa transformação de apego estético em emocional ou familiar. E não vejo tanto prejuízo nisso.

Quanto a “sem reparar que fizeram-se parte não-pretendida da obra literária”, creio em Heidegger quando diz que nada é pretendido pela obra, o seu “obrar” não depende exclusivamente de pretensões do autor ou da obra. E, se esse “fazer parte” que você diz realmente ocorre, não vejo problemas nele também.

Emmanuel
2008-09-16 17:44:15

Beharren,

Não sei se é bem o caso de condenar ou não.Trata-se de uma constatação, não de um julgamento.

Além disso, não há prejuízo em se apegar a um autor e utilizá-lo como baliza para as demais leituras em termos. Pois cada obra possui uma lógica própria, e é preciso entendê-la, e não tentar aplicar sobre ela aquilo o que vale para uma outra obra ou autor. É como querer ler um Álvaro de Campos tendo João Cabral como referência. Não dá certo. Ou ler Clarice Lispector com olhos de Graciliano Ramos; ambos são ótimos escritores, mas bem diferentes.

2008-10-17 17:00:01

Emmanuel,

Beharren não mais, já consegui corrigir meu nome nos arcabouços do Wordpress.

A resposta vem quase um mês depois, mas só agora vi que você me respondeu.

Isso é o que eu conversei com o Vinícius depois que eu postei esse comentário. O texto dele não julga, e sim constata, claro. Mas há um bem pequeno ar de julgamento, um ar que escaparia talvez ao que ele queria quando fez o texto. Expressões como “penso enganarem-se os que encontram algum alívio na Literatura”, “risco para o leitor” são as que dão esse pequeno ar. Mas é só um pequeno ar.

(Comments wont nest below this level)
 
 
 
2008-09-14 18:59:25

Realmente, sempre que tenho a infelicidade de deparar com algum crítico literário (de bermudas? do século XVI?) lançando suas garrinhas imberbes e delicadas sobre a Mãe Natureza (Clarice), sinto-me pessoalmente agredida, roubada, violentada.

O pior é não chegar a ter argumentos que justifiquem a distância que certas pessoas deviam manter de certos livros. Mas deviam, é flagrantemente óbvio que sim. A própria Clarice sutilmente implora que só se aproximem de G.H. as pessoas “com alma já pronta”. Mas não. Lá vão cair de boca os Luíses XVI da vida, a concluir atônitos que se trata de discursivização da Epifania com uso de Discurso Indireto Livre. AAAAAAHHHHHHHHHHH!!!

Vão todos queimar na pedra-sabão do inferno (mármore é só para os verdadeiros Ruins), no círculo destinado a críticos literários.

relances
2008-09-15 10:25:50

Modera tua fúria, hehe. Eu falava principalmente dos leitores comuns; os “críticos” de hoje em dia tendem a tentar estabelecer a conhecida “relação objetiva” com a obra. Que também pode ser chamada de “relação estéril”, “relação inútil” ou, nas suas palavras, “meter as garras”. Mas isso é assunto para outro texto.

 
Emmanuel
2008-09-15 15:29:37

Lorena,

Mas quem poderá dizer que “A paixão segundo GH” não se trata da “discursivização da Epifania com uso de Discurso Indireto Livre”? O crítico disse o óbvio, fez apenas um comentário; isso ainda não é crítica. O problema está em reduzir toda a narrativa (será mesmo um romance?) a isso.

 
 
Emmanuel
2008-09-15 15:41:25

Vinícius,

Teria a acrescentar mais um ponto, que não contraria o que você disse. Essa constituição de um autor “familiar” é uma via de mão dupla. Do mesmo modo como certo autor passa a funcionar como uma baliza para a nossa apreciação estética, do mesmo modo, esse autor é, em larga medida, modelado por nós, por nossas experiências. Isso quer dizer que, talvez, o seu White Whitman familiar não é igual ao Whitman familiar de outra pessoa. Em outros termos: no processo de identificação com um determinado autor, acabamos projetando nós mesmos sobre ele. Isso é muito comum durante o período de “descoberta” da literatura, quando procuramos algo que dê voz àquilo o que sentimos necessidade de falar mas ainda não sabemos bem o que é ou não dispomos de meios para dizê-lo. Acho que, em determinado momento, temos de nos perguntar aquilo o que o autor está efetivamente dizendo, e não aquilo o que desajaríamos que ele dissesse ou achamos que ele está dizendo. É um momento difícil. É aí que acontece o momento crítico.

2008-09-16 17:24:32

Você tem razão; eu até diria que em muitos casos a projeção que é feita sobre o autor é concomitante à modelagem que este acaba realizando.

 
 
2008-09-16 18:57:45

De um livro como A Paixão segundo G.H., o sujeito fazer ESSE comentário… Só me resta rezar pela (condenação da) alma dele.

relances
2008-09-16 22:13:36

Curiosidadezinha nascida apenas de observar a indignação: o que você diria de A Paixão Segundo G.H.?

Eu sinceramente nada diria (faz tempo que li), exceto que é muito bom.

2008-09-17 19:03:21

Ponha duas pitadas de azeite tostado na impressora de coser carências.

(Comments wont nest below this level)
 
 
Emmanuel
2008-09-17 15:46:49

Lorena,

De fato, se o autor do texto ficou só na órbita daquele comentário que você citou, trata-se de uma redução grosseira.

 
 
2008-09-17 19:53:15

Provavelmente isso acontece com todo objeto de apreciação humana, contanto que você se concentre nele de maneira muito especial. Por isso surgem as escolas.

Por outro lado, não é um fenômeno detectável universalmente. Bem, talvez ele seja universal em algum momento da vida (por exemplo, quando se começa a estudar determinado objeto), mas existe um outro momento em que pode diluir-se até tornar-se irrelevante – ou seja, desaparecer virtualmente.

Em outros termos, acredito que essa fidelidade se dê não por imaturidade literária (como talvez tenha parecido pelo que disse acima), mas por uma certa coleção de experiências dos mais variados tipos, que se refletem num certo gosto e numa certa atitude diante da literatura. Ora, quando a coerência entre os diferentes aspectos desse gosto é complexa, atinge-se um nível de ecletismo que desfoca a atenção em aspectos muito concretos do texto. Daí você acaba por ser fiel não a um determinado autor, mas a todo o cânone, por exemplo, ou mesmo a um grupo mais extenso de textos – digamos toda a literatura legível (pleonástico? não sei não…).

Penso em muitas pessoas que conheço. Cícero, por exemplo, possuía um gosto filosófico múltiplo, incompreensível para os gregos da época. Juntava platonismo, aristotelismo e todas as outras escolas helenísticas. Gostava de tudo.

Eu sei do que não gosto; fora disso, gosto de praticamente tudo. O problema é que eu não gosto de muita coisa. Ou seja, meu problema haveria de ser não a fidelidade a um certo autor, mas uma ojeriza a muitos autores.

 
2008-09-21 22:40:37

{piada}

Quem é o Rafael acima? É o Pedante?

{/piada}

 
2008-09-21 23:21:15

Dante? Você disse Dante?
*risinhos abafados*

[modo Rui salsicha off]

 
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