Mudança de endereço
Postado em
December 9, 2009
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Estou de saída do Breviário. Sem mais delongas, anotem meu novo endereço: http://relances.wordpress.com
A Vaca e o Lada
Postado em
October 21, 2009
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Ou como derrubar críticos de arte que não fazem pesquisa.
Maneiras das asneiras
Postado em
October 18, 2009
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Sou um entusiasta, como alguns sabem, da Dicta & Contradicta. Nada melhor, nada mais saudável do que a discordância – e um veículo que traga uma perspectiva conservadora, ou mesmo religiosa, sempre será bem-vindo. Mas há momentos em que o relógio pessoal diz: hora de repudiar.
Já conversei com Joel Pinheiro em um dos posts do blog da Dicta, o que não me impede de considerar este último post dele uma asneira. E espero que esta denominação não se converta diretamente em ataque. Afinal, há mais do que vaidades em uma discussão, seja sobre qual assunto for.
Quem ler o texto de Joel Pinheiro verá uma historinha curiosa de um tal Carlos, que imbuído das “melhores intenções” sacrifica indivíduos pensando em um “bem maior”. Por mais caricatural que a história tenha pretendido ser, salta aos olhos a impossibilidade de seu autor de, fora referências inverossímeis, retratar de algum modo uma certa mentalidade.
Seu personagem, por exemplo, prefere entregar um mendigo à morte porque os órgãos do moribundo serviriam a outras pessoas, necessitadas de implantes para sobreviver. Ora, isso não é nem de longe uma caricatura das ideias que posicionam o “bem comum” acima do “bem individual”. Aliás, como definir o “bem comum” sem uma noção clara de indivíduo? Apenas este tem consciência do que lhe é bom ou mau, e o “bem comum” nada mais é do que a definição simples: aquilo que serve bem aos indivíduos e não lhes fere qualquer direito.
Visivelmente, o Carlos da história de Joel Pinheiro não vê as coisas desse modo, arraigado que está a uma noção pragmatista própria de nossos tempos, mas também do fascismo e do stalinismo: algo nos atrapalha?, tudo bem, removamos este obstáculo. Talvez existam pessoas que pensem assim, embora nunca ao ponto da auto-degola, como o personagem de Joel Pinheiro.
A caricatura tem validade enquanto representação deliberadamente exagerada da realidade. O objetivo de Joel era reforçar o caráter pretensamente mórbido e inconsequente das pessoas que preferem agir pela coletividade em detrimento de uma certa noção de indivíduo. O que essa caricatura alcança é dizer mais sobre seu autor: ele não parece acreditar em boas ações vindas de pessoas que acreditam no “bem comum”. Enfim, sataniza um modo de pensar.
Seria igualmente possível pensar em um Carlos que começa a considerar somente o culto à individualidade como caminho para a felicidade e daí tirar as mais estapafúrdias conclusões, mas não quero replicar caricaturas.
40 anos
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September 26, 2009
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O desafio do conservadorismo
Postado em
August 13, 2009
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O advento da Internet foi uma bênção para os debates sobre todo tipo de coisa, desde política e economia até as artes. Como a literatura é meu maior interesse (e pouco tenho tratado dela por aqui), faz sentido que eu reflita um pouco sobre como se dá o debate sobre as artes na Internet, e principalmente como o debate virtual se relaciona com o debate “real” – ou melhor, o que vai para a Academia, para as páginas de revistas, para os livros.
Uma das grandes conquistas da Internet foi ressuscitar pensamentos que perderam espaço continuamente ao longo do debate literário, monopolizado hoje por acadêmicos e/ou pessoas ligadas às universidades. Vou cometer uma generalização, imprópria como sempre, mas para facilitar minha exposição: o principal retorno foi de um pensamento conservador em relação à literatura. Várias figuras, como Bruno Tolentino, passaram a ser mais conhecidas do público “iniciado”, justamente devido à repercussão obtida principalmente via Internet. Talvez o maior discípulo (entre os jovens) de Tolentino, Érico Nogueira, mantém um blog muito bom sobre literatura, que acompanho. Além dele, os idealizadores da Dicta & Contradicta e o recém-malhado neste blog, Pedro Sette Câmara, e muitos outros, vêm contribuindo com uma visão diferente sobre as artes em geral.
Na Academia de hoje há diversas correntes em conflito, mas todas elas têm origem ou relação com a esquerda política: desde a Teoria Crítica derivada da escola de Frankfurt, passando pelo multiculturalismo, pela crítica neoconcretista, até chegarmos ao ainda vivo estruturalismo, todos têm algo em comum: não veem nenhum tipo de valor universal e imutável, e concentram-se nas construções de seu tempo. Alguns analisam a literatura em conjunção com a sociedade em que surgem ou suas ideologias, outros tratam das novidades formais, etc.
E é isso que o conservadorismo traz de novo, paradoxalmente: a discussão sobre valores humanos que são representados literariamente, vendo a literatura como uma tradição de grandes autores falando sobre grandes temas. Mas ainda há muito o que evoluir até que esse novo conservadorismo consiga voltar ao cerne do debate crítico-literário – e hoje a academia detém esse espaço, para o bem e para o mal. Reparo em Érico Nogueira e outros do grupo da Dicta, como Martim Vasques da Cunha, uma sensibilidade para esse fato, mas nem sempre os vejo capazes de articular uma boa resposta ao domínio alheio na academia. Vamos por partes:
- o último grande intelectual brasileiro identificado com valores conservadores foi José Guilherme Merquior. Um grande ensaísta, sem dúvida, mas parte do seu legado é visivelmente pouco acurado. Li, por intermédio do Emmanuel Santiago, um texto de Merquior sobre a Fábula de Anfion, de João Cabral, e devo reconhecer que Merquior faz uma leitura equivocada do poema. Bom, isso não é desonra: quase todo mundo naufragou ao ler Cabral criticamente, eu incluído, em meu primeiro trabalho acadêmico. O fato é que o legado de Merquior é significativo: seu último texto publicado, em uma coletânea sobre a América Latina, falava justamente da crítica literária brasileira, e sabia reconhecer os avanços proporcionados por Antonio Candido e Roberto Schwarz, sem se esquecer de Luiz Costa Lima e outros, sempre limados da história aqui na USP.
- saber reconhecer um grande trabalho não é difícil, e os estudiosos que cito como membros dessa nova tendência conservadora certamente o fazem. Difícil é aprender com eles, e mais importante, demonstrar suas inconsistências. E é nisso que tenho visto falhas. O exemplo recente do centenário da morte de Machado de Assis ilustra bem o que digo: o conservadorismo atuou de modo a enaltecer as qualidades do bruxo, que são inegáveis, mas seu trabalho de defesa contra o que chamam “visão marxista de Machado” (e convenhamos, é mesmo) dada por Roberto Schwarz foi inconsistente. Não adianta, hoje, recordar o quanto Machado foi um gênio espetacular sem demonstrar com clareza os motivos de sua validade ainda hoje, os motivos pelos quais se tornou um artista espetacular, sem dúvida o centro do cânone brasileiro – e tudo isso somado a uma resposta firme contra o que considerarem indevido na análise schwarziana. É necessário dialogar firmemente com o texto, apontar falhas ou, melhor ainda, lê-lo dentro de sua própria perspectiva. Há incoerências no trabalho de muitos dos acadêmicos, inclusive dos celebrados. Aqueles que querem tomar um lugar no debate precisam questioná-las diretamente.
- há sempre o risco de radicalização. Diante de um cenário desse tipo, as pessoas tendem a se aproximar do lado mais forte – e hoje o lado mais forte é a academia de esquerda (hoje estou péssimo com as generalizações). Muitas pessoas, muitas mesmo, que adorariam ler algo sobre Tolentino, se afastam pois este já está posicionado dentro de um debate bastante polêmico. Convém resgatar as possibilidades de uma leitura conservadora no que esta teve de melhor no passado, mas sem se esquecer do que ela precisa oferecer nos dias de hoje. E considerando uma sociedade em que o pós-modernismo aparece como uma “filosofia” por pura preguiça de filosofar acerca de qualquer assunto, uma leitura conservadora precisa provar que pressupostos de Johnson, Pater e Wilson são ainda atuais, mas balizá-los com uma leitura também social dos fenômenos. O que digo é: o conservadorismo precisa aprender a jogar também dentro das regras da academia de esquerda, sob o risco de enclausurar-se em discursos meramente laudatórios sobre este ou aquele autor. Seguir o caminho que proponho evitaria parte da radicalização e ainda permitiria aos conservadores trabalhar com o campo semântico da maioria dos leitores de literatura e de crítica literária. Agregar-se ao debate, não negá-lo. Nesse ponto louvo principalmente Érico Nogueira, que tem debatido longamente com Ricardo Domeneck sobre a validade de certas poéticas, em especial a sua própria e a de Bruno Tolentino. Se retoricamente Domeneck ainda parece ter uma certa primazia, pois lida com conceitos mais estabelecidos (pela longa tradição crítica poundiana que prosperou no Brasil graças ao grupo Noigandres), não tenho dúvidas de que criticamente Nogueira tem qualidade para colaborar ativamente com o debate, e eventualmente até demonstrar equívocos na argumentação de Domeneck (que, até onde acompanhei, é um pouco rarefeita enquanto definição de uma temporalidade do fazer poético – às vezes esta parece arbitrariamente estabelecida).
Por fim, considero que o grande desafio, hoje, do conservadorismo nas artes é construir um campo teórico em que possam, ao mesmo tempo, discutir na mesma língua dos seus adversários (retoricamente falando) e cristalizar melhor as diferenças entre si. Vencido este estágio, é uma questão de tempo para que surjam críticos mais próximos deste viés nas academias de Letras espalhadas pelo país, e então poderemos ressuscitar algumas das questões mais amplas que foram enterradas por culpa da anuência geral dos debatedores, como a tão mal debatida validade da narrativa intimista de um Cornélio Penna ou de Lúcio Cardoso. Mas este será o assunto de outro post.
A diferença pela semelhança: como “converter” o ateísmo em uma crença
Postado em
July 22, 2009
Categoria: Relances | 11 comentários
Às vezes deparamos com bobagens tão gigantes, tão descoladas da realidade e tão propensas a tornar uma discussão algo menor que supérflua, que ficamos até insensíveis às suas implicações e nosso primeiro impulso é ignorá-las, seja solenemente, seja com uma espécie mínima de revolta. Mas acho que é necessário superar esses sentimentos e entrar numa espécie de suspension of disbelief que permita analisar a gigantesca bobagem segundo os parâmetros do bom senso. Ajuda a civilizar os próprios pensamentos.
Digo isso pois não é outro o caso de Pedro Sette Câmara. A despeito de minhas eventuais concordâncias ou discordâncias com ele, que me parece ser ao menos um leitor dedicado e capaz de identificar as qualidades de textos literários, por exemplo, essa tentativa de definir a diferença entre “crentes” e “ateus” não passa de um vendaval de besteiras, errado em suas premissas desde o título.
Ora, é uma falsa polaridade esta entre “ateus” e “crentes”. O óbvio seria afirmar a diferença entre “crentes” e “descrentes”, ou “teístas” e “ateus”. Por mais chatinho que pareça, não é demais lembrar que é possível ser ateu (ou seja, não acreditar em qualquer tipo de Deus) e ser “crente” em algo sobrenatural ou metafísico – o budismo é uma crença sem Deus. Mas vamos assumir como correta essa afirmação, de uma diferença entre crentes e ateus. Segue o texto:
Em termos de experiência, pergunto-me qual será a diferença fundamental e real entre crentes e descrentes, entre religiosos e ateus. As semelhanças são muito fáceis de apontar. Ambos dirão que apenas se submetem à verdade; ambos dirão que seguem suas consciências; ambos dirão, mais ainda, que o que os diferencia do outro lado é o estar certo, o ter razão; também dirão que são humildes, uns porque aceitam Deus, outros porque aceitam os limites do conhecimento humano; e não se deve esquecer que uns considerarão os outros a praga da humanidade. Nisto tudo crentes e descrentes podem ser iguais. Mas qual será o fundamento subjetivo de sua diferença? Haverá uma atitude fundamental que distinga um grupo do outro?
Apesar das semelhanças serem “fáceis de apontar”, há um monte de besteiras arroladas como comuns de dois gêneros. A primeira: “submissão à verdade”. Como isso pode ser? Não considero que exista uma verdade – e afirmar o princípio de realidade em nome da “verdade” não vale. Muito menos sou submisso a uma verdade qualquer; tenho impressões que podem ser ou não verificadas por outras pessoas, mas nunca podem ser consideradas como “verdade”, ou algo que me seja inescapável. Não sou refém de minhas opiniões; posso mudá-las se considerar isso uma atitude coerente. Submissão à verdade é, grosso modo, coisa de crentes, pois creem que essa verdade existe e pode ser apreendida, seja pela religião ou pela experiência pessoal.
Outra besteira é dizer que crentes e descrentes têm em comum o achar que têm razão e o outro lado não. Isso pode acontecer, mas não é uma lei geral – ou estaria Sette Câmara importando intolerância e instalando-a nos outros? É o que se segue quando diz que ambos os lados consideram o outro como “praga da humanidade”. Por favor. O fato de haver descrentes (e crentes) que assim pensem não constitui uma semelhança entre os dois modos de ver o mundo – é uma característica que pode ser verificada em ambos os grupos, mas não considerada como princípio.
Claro que falo como crente. E não posso empreender uma investigação destas sem boa vontade para com o lado descrente. Essa boa vontade me obriga ao seguinte: devo supor que um ateu é tão sinceramente ateu quanto eu sou católico; que, assim como não julgo a mim mesmo um imbecil, também não vou julgá-lo imbecil; que não serei condescendente, e que tentarei colocar para mim mesmo a pergunta: “Se eu fosse parar de crer, ou se fosse pensar que não há Deus, como chegaria a isso, sem qualquer desonestidade? O que me levaria até esse estado?” Claro que qualquer um pode apontar que provavelmente a minha consciência já não é tão pura a ponto de servir de modelo; mas eu só posso dizer que ao “amar ao próximo como a mim mesmo” vou tentar considerá-lo como eu me consideraria.
Não precisa se esforçar tanto, Pedro. Sabemos que você falará de um ponto de vista crente, assim como eu falo de um ponto de vista descrente. Entretanto, o exercício de se colocar no ponto de vista alheio é equivocado quando se procede a uma auto-análise. Os motivos pelos quais PSC deixaria de crer de modo algum seriam os meus, os seus, os motivos de qualquer um. Considerar os argumentos alheios basta; fazer um esforço que leva a si mesmo não me parece analisar o outro lado. Seria preferível assumir alguns preconceitos, justos ou não, que levassem a um possível equívoco sobre o outro lado, mas mantendo a postura de analisá-lo, e não elocubrar sobre a própria descrença hipotética. Sem contar o óbvio: é possível não acreditar em Deus por um simples desinteresse no ato.
O empreendimento me parece quase impossível, para dizer a verdade. Ou melhor: parece que só é possível chegar a uma hipótese e esperar que os ateus não se sintam mal representados, como se a minha hipótese contivesse sua condenação implícita. Aliás, também admito que eu gostaria de chegar a uma enunciação dessa diferença que fosse retoricamente aceitável tanto para crentes quanto para descrentes.
Eu também gostaria de agradar gregos e troianos, mas, quando o problema já foi tão mal colocado, fica difícil não se sentir mal representado. Se eu fosse crente também já estaria me perguntando (“como assim, considero ‘descrentes’ como ‘praga da humanidade’? A Inquisição já passou e não a defendo”) se é possível este texto levar a uma definição aceitável do ateísmo ou do teísmo. Que dirá então da diferença entre ambos?
Mas ainda assim ele tenta. E a coisa fica até engraçada:
O melhor que consegui até agora foi o seguinte: diante da complexidade do mundo, o crente pressente a existência de uma inteligência transcendental, ao passo que, para o ateu, esse pressentimento é um passo indevido, uma projeção de quem observa o mundo.
Há vários descrentes que duvidariam dessa sentença, e eu sou um deles. Não sei se a crença em algo superior é um “passo indevido”. É uma escolha que faz bem a muitos milhões de pessoas ao redor do mundo. Quando não se convertem em fundamentalismo ou intromissão no Estado laico, as religiões são bem-vindas. Seria um passo indevido se este conduzisse o crente a uma alienação irreversível de sua sociedade e suas diferenças – ou seja, fechar-se para o mundo e proclamar como válidos apenas seus próprios valores. É preciso aceitar a “validade social” dos que não creem ou creem de modo diverso, ou o crente se torna um teocrata em potencial. Dirimido esse risco, que no nosso mundo é uma realidade palpável – os maiores níveis estatísticos de preconceito social não são contra negros ou homossexuais, mas contra ateus (embora nestes o preconceito seja bem menos violento que naqueles) – , não há como considerar escolhas individuais como “passos indevidos”. Isso é arrogância de quem acha que porta uma verdade – é o caso de muitos descrentes, mas não de todos, evidentemente.
O crente, ao perceber algo mais vasto que sua própria inteligência, julga tratar-se da obra de outra inteligência; o ateu, ao perceber algo mais vasto que sua própria inteligência, julga que o domínio dessa vastidão virá com o tempo.
Essa talvez seja a maior bobagem do texto. Ateus não necessariamente acham que o mundo estará em suas mãos algum dia. Quem acha que a ciência pode explicar tudo, colocar tudo em tubos de ensaio mentais e enfim proclamar uma verdade última não pode estar correto. Isso, sim, é uma semelhança entre crentes e descrentes: em ambos os grupos há “arrogantes” e “humildes”, e se me conto entre estes não é por afetar superioridade moral, mas por não ter outra escolha. Sempre haverá mistérios para a ciência, nunca haverá um domínio completo sobre o “algo mais vasto” que nossa inteligência. Sugerir esse tipo de pensamento para definir ateus é de um primarismo mais que vulgar.
Parece que as duas atitudes refletem duas posições a respeito de uma possível ciência universal. De um lado, o crente pergunta ao ateu: “E quando ficar evidente que a ciência universal é impossível, você passará a crer?” E o ateu pergunta: “E se a ciência universal acontecer, você deixará de crer?” É um tanto irresistível observar que, dita assim, a posição atéia parece se basear não num prometeanismo voluntarista, mas num prometeanismo inevitável: a transcendência não será mais necessária porque conquistá-la é só uma questão de tempo.
É a extensão do argumento ridículo acima exposto. As perguntas não são essas, pois ambas são apenas retóricas. Como uma “ciência universal” pode ser diretamente proclamada como impossível? É o mesmo que afirmar, puerilmente, que um dia será possível provar cabalmente a existência ou não de Deus. Nunca será. Nem mesmo se Jesus Cristo voltar e tocar o terror isso será possível, pois nunca poderemos confirmar se é mesmo Deus ou um ser mais poderoso de outra dimensão, e outras coisas que um cético com imaginação suficiente (ou leitura de revistas em quadrinhos suficiente) poderia afirmar. Claro, na ocorrência de um Juízo Final ou coisa do gênero eu dificilmente continuaria a descrer. Só o que posso afirmar é que não me arrependeria de ter sido um descrente – pois foi assim que achei melhor viver minha vida. O argumento ateu favorável à ciência não diz que esta vai resolver todos os mistérios, mas que pode e deve tentar resolvê-los. Se não se entender isso, nada mais se entende.
O que percebo, enfim, é que o texto é mais uma tentativa de igualar o ateísmo ao teísmo, assumindo a pecha de “irracionalismo” que se pôs neste para tentar imputar àquele o mesmo defeito. E daí demonstrar que os ateus são bibelôs de uma crença nas possibilidades científicas. Sinceramente, peço ao sr. Pedro Sette Câmara o seguinte: não considere que os ateus são “crentes na ciência universal”. Isso é uma besteira do tamanho de um deus.
UPDATE
A discussão no post do Sérgio de Biasi (amigo de Pedro Sette Câmara) toca em alguns pontos discutidos neste post. Já a refutação lógica do argumento de Santo Anselmo, eu prefiro não comentar – não entendo nada de lógica.
Reinaldo Azevedo tentando arvorar-se como mentor intelectual
Postado em
June 24, 2009
Categoria: Relances | Um comentário
Reinaldo Azevedo consegue ser muitas vezes surpreendente – está aí a paulatina análise de seus textos feita pelo Hermenauta. Como este não se pronunciou sobre o caso USP, nem imagino que fará (normalmente o Hermenauta fala sobre os assuntos que acompanha de perto, e não deve ser o caso da USP), prefiro eu mesmo comentar a intenção de Tio Rei tornar-se mentor intelectual dos manifestantes “antigreve” na USP.
Como prova meu post sobre a atuação da PM no último dia 9, sou muito crítico ao Movimento Estudantil, posição que em parte compartilho com Idelber Avelar: o movimento é muito ultrapassado em seus métodos de arregimentação e discussão. Mas isso não invalida a justeza de pautas como uma discussão mais ampla da UNIVESP, o que é negado sistematicamente pelo governo estadual e pela reitoria.
Por outro lado, há os alunos que, cansados das constantes greves, resolveram enfim mobilizar-se em sentido contrário. E é a esse grupo que Reinaldo Azevedo tenta ditar os rumos:
Não se deve esperar um movimento com milhares de estudantes — infelizmente. As razões são muitas. Gente que entra na universidade para estudar não tem muita prática nesse negócio de “se mobilizar”. Fosse assim, imaginem se os tontons-maCUTs conseguiriam se impor pela força, como fazem. Seria, assim, um placar de mais de 78 mil contra mil, se tanto…
Quem não é profissional da baderna tem dificuldade até de arranjar a infraestrutura para esse tipo de evento, como aparelho de som, palanquinho etc. E, se posso dar uma dica, lembro: não descuidem, pouco importa o número de manifestantes, da segurança. Lembrem-se de que aqueles que não têm razão contam com um único aliado: a intimidação. O negócio é não ceder às provocações dos tontons-maCUTs.
Havendo imprensa presente, basta uma declaração: “Somos a maioria e respeitamos o direito da minoria; só queremos que a minoria respeite o nosso”. Também nesse caso, é preciso tomar cuidado com o agente provocador, gente que vai lá com a matéria já escrita, só esperando uma fala ou outra mais duras para caracterizar os não-grevistas como “reacionários”, protegendo, assim, aqueles que, de fato, se comportam como fascistas.[grifos meus]
Ai ai… Primeiro: está mais do que claro que não são “78 mil contra mil”. O último ato contra a presença da PM no campus da capital reuniu mais de 3 mil pessoas no vão do MASP – e eu, bem como muitos, não estive presente. Sem contar que essa polarização tosca entre “os que querem estudar” e “os baderneiros” é grosseira e interessa apenas a um lado. É totalmente falsa.
Depois Tio Rei dá dicas, como manter a preocupação com a “segurança”. Oras, como se fosse do interesse dos estudantes ir lá dar alguns sopapos em meia dúzia de manifestantes. Todos os vídeos em que se indica alguma truculência dos estudantes favoráveis à greve são incompletos: omitem as faixas levadas pelos “antigreve”, nada democráticas: “Morra Brandão”, “Chupa Brandão”, sem contar uma com Serra armado dizendo “PM Neles!”
Para completar, Reizão manda uma daquelas retóricas escolares sobre democracia, sobre direitos da maioria e da minoria. Oras, se o direito da minoria que é citado na frase é o direito de greve, como pode ser compatível com os “antigreve”? Não que eles não tenham direito de ser contra esta greve (sem negar, obviamente, o direito de sua existência) – eu mesmo fui até o dia 9. Mas há mais nuanças do que o Tio Rei faz parecer. Vou me fixar na principal:
Por mais que se critique o ME, não se pode acusá-los de desconhecer os motivos de defender a pauta que defendem. Aqui mesmo provei como a UNIVESP é um câncer em gestação, que precisa ser revisto e/ou combatido. Por outro lado, nenhum dos manifestantes “antigreve” apresentou até agora conhecer o estado das coisas na Universidade de São Paulo. Ao contrário: caracterizam seu movimento como um ato de repúdio que tem tanta representação política quanto o “Cansei”. É apenas um gritinho – e eles orientaram os presentes a gritar “não” contra a greve, em um dos atos mais bregas já vistos na USP – contra “tudo isso que está aí”. Não há uma discussão verdadeiramente política, exposição democrática de discordâncias ou uma tolerância com a divergência presente. Ou seja, estão mimetizando os mesmos erros do ME, isolando-se com o uso de uma palavra de ordem que desaparecerá tão logo a greve termine.
A morte da política é um efeito danoso de polarizações do tipo, em que se opõem “bandidos x mocinhos”, “baderneiros x alunos supimpa”, “comunistinhas x fascistinhas”. Ao invés de tentar transformar a USP por meio de sua atuação, preferem reclamar algo mimadamente. Isso não é bom nem mesmo para a posição deles; se querem construir alternativas às greves constantes, esse tipo de manifestação é um tiro n’água.
Enquanto mantiverem-se reféns da postura reativa e convenientemente desinformada de um Reinaldo Azevedo, nada mais farão além de postergar indefinidamente melhorias no próprio Movimento Estudantil. A sugestão do vejista de que a imprensa estará pronta a tomar o lado dos estudantes grevistas é tão falsa quanto uma nota de 3,50 – basta notar que em nenhum momento os motivos da greve foram abordados de maneira abrangente, o que sem dúvida levaria os “antigreve” a relativizar um pouco suas próprias posições. Ou eles são tão “tolerantes” que não conseguem ver um argumento a favor da greve sem achar que é “coisa de tontons-maCUTs”? Investir na polarização foi um erro do ME; insistir nela só vai piorar as coisas para os que são “antigreve”.
Sentença anula absurdos da lei antifumo
Postado em
June 23, 2009
Categoria: Relances | 10 comentários
Notícia recente dá conta da revogação de partes da lei antifumo aprovada no Estado de São Paulo, prevista para entrar em vigor no começo de agosto. O que é espantoso é o que foi noticiado com muita desinformação: partes extremamente autoritárias da lei, revogadas hoje, são incrivelmente incompatíveis com o mínimo conceito de democracia. Vamos ver parte a parte:
O juiz Valter Alexandre Mena, da 3ª Vara da Fazenda Pública de São Paulo, suspendeu nesta terça-feira (23) parte dos efeitos da lei antifumo em São Paulo. A decisão restabelece a possibilidade de existência de fumódromos em ambientes fechados e retira dos empresários a obrigação por fiscalizar e orientar consumidores, além de suspender as sanções por descumprimento da lei antifumo. A Secretaria de Justiça e da Cidadania informou que ainda não foi notificada oficialmente da decisão e que a sentença não altera a entrada da lei em vigor em agosto. Também deixou claro que vai recorrer.
Ora, se houve uma sentença de revogação a lei não pode entrar em vigor sem as devidas alterações. Cabe recurso, mas se este não for julgado até o dia em que a lei antifumo passar a valer, ou se for indeferido, cabe à Secretaria e ao governo acatar a decisão da Justiça. Ou o Poder Executivo quer passar por cima do Judiciário?
A decisão de 75 páginas decorre de julgamento de mandado de segurança impetrado pela Abresi (Associação Brasileira de Gastronomia, Hospedagem e Turismo) contra a Fundação Procon, ligada à Secretaria Estadual de Justiça e Cidadania, Vigilância Sanitária, Polícia Militar, Polícia Civil e Guarda Civil Municipal.
“Concedo a segurança para suspender a eficácia da norma no que proíbe a existência de fumódromos nos termos previstos na lei federal 9.294/96″, diz o despacho.
Uma das objeções à lei desde o princípio era o flagrante desrespeito à lei federal, que não sugere a existência de fumódromos, mas os estabelece. O juiz nada mais fez além de garantir a validade da lei federal em território nacional que, sinto informar ao Sr. José Serra, ainda inclui o estado de São Paulo.
O juiz suspendeu também a parte da lei que impunha ao empresário a obrigação de exercer poder de polícia e que obrigava o empresário a distribuir gratuitamente formulários de denúncia.
A decisão também suspendeu a ameaça de sanções pelo descumprimento da norma.
Essa parte passava despercebida pela maior parte dos veículos que comentaram a lei. E é uma irresponsabilidade em forma de lei. Coagir o cidadão a atuar como poder policial, sob pena de multa, é um absurdo. Imaginemos a hipótese de um fumante desrespeitar a lei em um estabelecimento qualquer e continuar fumando. O dono do estabelecimento vai falar sobre a lei e o fumante reage agressivamente. O que o dono deve fazer? Chamar um segurança, a polícia, diriam os incautos. Mas nem todos os estabelecimentos têm seguranças, e a cobertura policial pode ser bastante falha. Nesse caso, o dono do lugar precisa se arriscar para cumprir a lei? Isso é expor cidadãos de bem a um risco desnecessário e a um dever que, decididamente, não é deles. Se o Estado tem o monopólio do uso da força é justamente para que os “homens comuns” não tenham de agir como poder repressor. Obrigar alguém a exercer esse poder é criar um estado policial.
A Secretaria da Justiça considerou a decisão equivocada e lembrou que o Brasil é signatário de uma convenção da Organização Mundial de Saúde muito mais restrititva do que a lei antifumo estadual e hierarquicamente superior à lei federal.
Uma besteira. As convenções da OMS não são hierarquicamente superiores pois existe algo chamado soberania nacional. Ainda que fossem, estas convenções são desrespeitadas de modo muito mais contundente do que a “permissividade” para com os fumantes: basta dizer que a saúde pública no Brasil está muito aquém do que as convenções pregam como obrigação de todos os governos signatários.
Sobre o argumento da Abresi a respeito do suposto conflito entre a lei estadual e a lei federal, a Secretaria da Justiça argumentou que o Supremo Tribunal Federal julgou matéria semelhante e julgou que o estado pode legislar concorrentemente com a União.
O argumento da Secretaria relaciona-se a uma jurisprudência que não é indicada no texto da notícia. Se ela existe, há que se confirmar se se trata de um caso equivalente ao da lei antifumo.
O advogado da Abresi, Marcus Vinicius Rosa, disse que a decisão judicial suspende a eficácia da lei antifumo. Essa foi a primeira decisão favorável à Abresi desde o início da batalha judicial em torno da lei antifumo.
Nada mais que o óbvio. Mas a Secretaria jacta-se de “que a sentença não altera a entrada da lei em vigor”. Espero que, caso a sentença seja mantida até o dia em que a lei começar a valer, não se realizem as blitze que o Sr. José Serra tanto anseia. Caso façam, que isso seja denunciado como o que é: um desrespeito às instâncias jurídicas, passível de punição e indenização, tanto aos estabelecimentos quanto aos fumantes que sejam constrangidos.
UNIVESP: piora iminente travestida de boa intenção
Postado em
June 20, 2009
Categoria: Relances | 13 comentários
Um dos pilares dos problemas atuais na Universidade de São Paulo é a vindoura instalação da assim chamada Universidade Virtual do Estado de São Paulo, a UNIVESP. Há uma desinformação assombrosa sobre o tema; pretendo expor em detalhes os problemas do projeto apresentado pelo governo estadual, não sem antes fazer algumas considerações a respeito do desconhecimento crônico da iniciativa.
Muitos alunos que se proclamam “contra a greve” e até “a favor da PM” não têm a mínima ideia do que é a UNIVESP e do que ela significa. Quando ficam sabendo que se trata de um projeto para criar cursos de ensino superior à distância, abraçam em maioria a defesa da iniciativa, sem fazer a devida reflexão sobre o tema: buscam argumentos a favor do ensino à distância que são não raro generalistas e improcedentes. Ora, não há a mínima lógica em apoiar algo que não se sabe o que é – e demonizar aqueles que são contra e conhecem os motivos para ter essa posição.
Não preciso dizer que seria desejável que a “maioria absoluta dos estudantes que é contra a greve” deveria ter embasamento em sua posição. Como já disse no post anterior, fui contrário à greve até o dia 9, quando passei a considerá-la necessária como resposta à ação violenta da PM. Antes disso, repetindo, era contrário, por motivos expostos no post anterior. Mas não me eximi e li o projeto que agora vou comentar.
***
O projeto começa com sua “Introdução” a dizer coisas muito justas e outras involuntariamente muito cômicas. A primeira das cômicas é a seguinte:
Os cursos de graduação, pós-graduação e extensão oferecidos pelas três universidades públicas do estado apresentam algumas das maiores relações de candidatos por vaga do país, o que confirma o alto nível oferecido na educação superior.
Esse fato, utilizado para falar bem das instituições de ensino superior acaba sendo mais uma prova de que há mais procura do que vagas, ou seja, uma relativa insuficiência. Mas é bom lembrar que o ensino superior universitário não precisa ser universal – insistir na “necessidade” de ampliar as vagas no ensino superior é desconhecer os problemas que já existem:
Entretanto, mesmo considerando-se as relações mundialmente acertas [sic] para a composição da pirâmide estudantil, e conseqüentemente da composição da pirâmide sócio-econômica, uma parcela bem pequena da comunidade estadual consegue o privilégio de desfrutar do ensino de qualidade oferecido pelas universidades públicas estaduais.
Aí entrariam discussões muito amplas, como a real necessidade da maioria da população ter um diploma de ensino superior. Sabemos que no Brasil há uma demanda irreal por diplomas, e qualquer torneiro mecânico teme precisar de um diploma de engenharia para conseguir emprego de… torneiro mecânico! É uma inversão completa de valores, representada até na recente música de Seu Jorge, Trabalhador brasileiro: “Tem gari por aí que é formado engenheiro.” Mas não vou entrar nesses debates. Vou considerar como justa e correta a busca por ampliar o acesso à universidade às diferentes camadas sociais.
Nesse sentido, a intenção do projeto já se revela em sua introdução: considerar o ensino à distância uma das formas de garantir esse acesso sem grandes gastos em infraestrutura, que seriam impedimentos fortes. Lembro aqui um texto de Claudio de Moura e Castro, em favor do ensino à distância:
Logo após a criação dos selos de correio, os novidadeiros correram a inventar um ensino por correspondência. Isso foi na Inglaterra, em meados do século XIX. No limiar do século XX, os Estados Unidos já ofereciam cursos superiores pelo correio. Na década de 30, três quartos dos engenheiros russos foram formados assim. Ou seja, novo não é.
(…)
Mas, no caso dos longos [cursos], o calcanhar de aquiles do EAD é a dificuldade de manter a motivação dos alunos. Evitar o abandono é uma luta ingente. Na prática, exige pessoas mais maduras e mais disciplinadas, pois são quatro anos estudando sozinhas. As telessalas, que reúnem os alunos com um monitor, têm o papel fundamental de criar um grupo solidário e dar ritmo aos estudos. E, se o patrão paga a conta, cai a deserção, pois abandonar o curso atrapalha a carreira. Também estimula a persistência se o diploma abre portas para empregos e traz benefícios tangíveis – o que explica o sucesso do Telecurso.
Enfim, há casos de grande sucesso do ensino à distância, embora seja preciso um trabalho para evitar a deserção e o que Claudio chama de “embromação”. Mas há dois pontos a se levantar no caso específico da UNIVESP: 1) ela se presta a formar licenciados, e não fornecer aprendizado técnico ou complementação de ensino fundamental e/ou médio – caso do Telecurso 2000; 2) é possível afirmar que a estrutura proposta para a UNIVESP servirá ao propósito nobre exposto na introdução de seu projeto?
Quanto ao primeiro ponto, já se deve questionar na base: é possível ensinar presencialmente formando-se à distância? Cursos relativos de alguma forma à pedagogia não podem deixar de dar ao aluno o caráter prático do específico metiér que é ensinar. Se os programas de estágio já são extremamente falhos na universidade, nada garante no projeto que haverá preocupação nesse sentido.
Já o segundo ponto merece uma análise mais detida, em especial contrapondo o projeto à argumentação. Partamos para um trecho posterior do projeto, já relativo ao público-alvo:
Num primeiro momento, espera-se que o projeto atenda parte da demanda por cursos superiores para os professores que ainda não o possuem, sem negligenciar o oferecimento inicial de alguns cursos de pós-graduação e M B As que possam promover a evolução de professores já graduados e que posteriormente possam atuar como multiplicadores e apoiadores do projeto.
Ou seja, professores que já trabalham como tal teriam a capacitação necessária para exercer a profissão. Ora, podemos ver isso de duas maneiras: uma aceitação da ideia de que há profissionais sem a qualificação necessária para ensinar trabalhando, não obstante sua não-formação. Por outro lado, sabemos da recente exigência, criada por lei estadual, de que todos os docentes da rede pública tenham ensino superior. Então a UNIVESP viria para corrigir esse problema. Ressalte-se que já há muitos anos essa situação dos docentes despreparados vem se agravando, e somente agora foi tomada uma atitude nesse sentido.
Mas, em seguida, a intenção de formar novos licenciados (e não apenas aprimorar os já empregados no ramo) fica patente:
Sugere-se que na fase inicial desta implantação, sejam objetivadas as áreas onde há maiores carências de formação ecapacitação docentes, de forma a aprimorar a educação básica no estado.
À parte a sintaxe sofrível do projeto, fica evidente a intenção de colocar os formados à distância para atender a demanda das escolas estaduais. O que entra em contradição com o discurso oficial anteriormente citado, de preferência aos professores que já trabalham no ensino público.
Mas vejamos os princípios operacionais do projeto:
Na primeira vertente, a TV Cultura, ainda operando em sua fase analógica, apresentaria ao menos duas horas de programação educacional por dia. Assim, haveria a possibilidade do oferecimento de meia hora diária de programação para cada um dos quatro cursos iniciais, permitindo o oferecimento de cinco disciplinas semanais em cada curso, média normal de disciplinas nos semestres letivos deste tipo de curso, além de dois cursos de pós-graduação baseados em transmissões realizadas aos sábados.
Sinto informar aos defensores do ensino à distância, mas o que vai acima é um acinte. Fazer uma cópia do Telecurso 2000 para formar professores é no mínimo ridículo. A estrutura de aulas pela TV pode servir para quem precisa completar falhas de formação, mas não para aquele que irá formar outras pessoas. Para isso é preciso muito mais do que conhecer o assunto que vai ser lecionado. Eu sei bastante de matemática, mas não me considero capaz de ensinar nem mesmo a aritmética elementar a alunos de primeira série pelo simples fato de que não tenho o mínimo treinamento necessário para lidar com os diferentes níveis de aprendizado dos alunos. Como alguém, assistindo programas educacionais na TV Cultura, pode aprender isso?
Mas ainda há coisas cômicas:
A relação do aluno com o professor responsável por uma disciplina, e com o tutor que acompanha a aprendizagem, pode acontecer de diferentes formas.
A primeira destas formas acontece quando da visualização do professor na televisão. Isto já promove uma certa relação pessoal, do mesmo tipo da que acontece entre o espectador e um ator.
Sem comentários. Adiante:
Entretanto, para que a aprendizagem seja continuamente orientada e incentivada, há que se criar uma estreita relação acadêmica entre alunos e professor. É nesta função que atua o professor-tutor, acompanhando e orientando todo o processo de aprendizagem.
Ou seja, o contato entre alunos e professores se dará por meio do intermediário “tutor”, que provavelmente será um pós-graduando regiamente mal pago para exercer o papel do professor para os que tiverem dúvidas ou problemas. Mas o projeto nada diz sobre como será exercido esse tutoramento. Resta a impressão de que será também à distância, condicionando todo o aprendizado a um esquema virtual que, como sabemos, não se verificará na prática. Em suma: os que assistirão programas na TV terão o papel de apresentar o que aprenderam para os alunos da rede pública sem terem passado por nenhuma assistência real – só a virtual.
Quem chama esse curso de “semipresencial” não sabe do que está falando. Apenas as provas seriam presenciais, e os atendimentos feitos pelos tutores em alguns casos. A relação aluno-professor seria totalmente virtual. Logo, a propalação do termo “semipresencial” serve apenas a um propósito: amenizar a opinião pública que, em princípio, tenderia a ver na iniciativa a ver apenas mais um ato destrutivo da educação no estado de São Paulo. Esta opinião não estaria equivocada.
Tenho uma irmã no ensino estadual, cursando o primeiro ano do colegial. Neste ano, ao invés de distribuírem os tradicionais livros didáticos (não raro cheios de erros, mas ainda assim livros), preferiram dar cadernos de exercícios referentes às matérias. São péssimos. Quem duvida de mim deveria procurar esses cadernos. Um deles, de biologia, tem um erro primário: confunde teia alimentar com cadeia alimentar. Minha irmã, no primeiro ano do colegial, ainda não sabe o que é a tabela periódica. Não há nada no caderno dos dois primeiros bimestres sobre o que é o primeiro passo no ensino de Química.
Ou seja, somando-se todos os fatores, que motivos temos para acreditar que o ensino à distância proposto pelo governo estadual não é apenas mais uma forma de dar status de diplomados a pessoas sem a mínima formação? Que motivos temos para achar que as pessoas que se formarem nesse programa terão outra alternativa fora dar aulas no ensino público, sem a preparação necessária? Que as três reitorias das universidades estaduais paulistas nada façam contra essa precarização iminente do conceito de ensino superior é algo que causa assombro. E que a mídia não mostre a íntegra desse programa quando ele é citado como um dos motivos da greve na USP é vergonhoso.
Aos que dizem “PM nesses vagabundos!”, fica meu sincero lamento. Principalmente aos alunos da Universidade de São Paulo que desconhecem tudo isso e apoiam a repressão violenta de um movimento que, se é extremamente falho, ultrapassado e em muitos momentos boçal, ainda assim tem a razão de revoltar-se contra essa política pública de educação que produzirá mais deficiências, sem resolver qualquer uma das já existentes.
UPDATE
Esqueci-me de citar o site em que encontrei o projeto da UNIVESP: o do CA da Biologia da USP.
Aqui está o link e o devido crédito à informação. Desculpas pelo lapso.
De como a Universidade de São Paulo se converte em palco de desmandos
Postado em
June 10, 2009
Categoria: Relances | 16 comentários
A essa altura a maior parte das pessoas interessadas já sabe o que houve na Universidade de São Paulo – ainda que as informações sejam desencontradas. Não é mais possível permanecer neutro em relação à situação que se criou. Claro que parte da imprensa fará questão em se manifestar favorável aos policiais que entraram em conflito com os estudantes que faziam um protesto em frente ao principal portão do campus da capital. Receio que meu texto será demasiado longo. Entretanto, faz-se necessário – ao menos para mim mesmo.
Comecemos pela pré-história do conflito: desde a notícia de que haveria cursos de ensino superior ministrados à distância oferecidos pela USP já neste ano o Movimento Estudantil – composto em boa parte de lunáticos dos mais variados partidos e por uma minoria esclarecida e preocupada com a situação do ensino no estado de São Paulo – estava tentando mobilizar os estudantes contra a medida. Chamada de UNIVESP, esta iniciativa beira o ridículo: a simples leitura do projeto mostra o descalabro e a ineficiência do governo em apresentar algo que realmente sirva aos interesses da sociedade. Um projeto tão ruim pode até ter boas intenções, mas isto não o torna menos estúpido. Portanto, é legítimo que os estudantes se reúnam a fim de apresentar alternativas menos danosas ao ensino.
O problema evidente é que a histeria é o tom dominante das pessoas que tentam organizar algo. Assim, impedem a discussão (qualquer matiz apresentado se torna “peleguice”) e afastam as pessoas sérias que gostariam de discutir o assunto. Eu incluído. Não farei jamais um mea culpa por não participar das “discussões” pois estas sempre são reativas e nunca propositivas. Não são sérias. Não compensam.
Para ajudar, essa pauta legítima foi obscurecida pela greve do SINTUSP, sindicato dos trabalhadores da USP. A recente demissão do diretor do sindicato, aka Brandão, dominava o debate. De um lado os que acham que a demissão pode até ter sido justa – eu incluído – e de outro os que têm a convicção de que foi um ato político ilegal. De todo modo, a UNIVESP ficou meio de lado até que a greve dos funcionários aparecesse – e então intensificaram-se as assembleias de curso na FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas), visando a construção de uma greve de estudantes.
No que uma greve dos estudantes ajudaria não dá para saber. Sou contra a greve por achar que, mesmo com pautas muito justas, esta é ultrapassada como sistema de atuação política. A ausência de discussão dentro do próprio ME potencializa o valor quase obsoleto da greve como instrumento de dissuasão política. Ou seja, o ME é refém da própria ineficiência.
Feitas as preliminares, vamos aos fatos. Os funcionários realizaram piquetes na reitoria, com o intuito de impedir não-adesões à greve. A reitoria, em um ato inédito, pediu a presença da PM para a reintegração de posse do edifício. É bom lembrar que houve uma ocupação da reitoria feita por estudantes há dois anos – e nem mesmo após mais de um mês de ocupação a polícia foi chamada para intervir. Ressalte-se que neste caso haveria, de fato, uma reintegração de posse. No caso atual a reintegração é no máximo parcial, visto que passei alguns dias em frente à reitoria e nada vi que fosse particularmente acintoso por parte dos funcionários em greve. De todo modo, no dia 1º de junho a PM estava no campus pela primeira vez em muitos anos.
Isso, obviamente, gerou revolta em boa parte dos estudantes ainda reticentes em entrar em greve – seja por falta de mobilização estudantil, seja por ausência de motivos reais. E a maioria dos cursos que tradicionalmente apoiam as manifestações entrou em greve. Poucos dias depois da PM entrar no campus, os professores também entraram em greve – e é bom dizer que eles estavam muito mais reticentes em entrar em greve, e não sem motivos: o plano de carreira deles pode ser alterado sem qualquer cerimônia, afetando boa parte dos docentes em médio e longo prazo.
Assim, com os 3 setores em greve (desconsiderando, por óbvio, os estudantes e professores de unidades como a FEA (Faculdade de Economia e Administração) e a Escola Politécnica (que abriga as várias engenharias), que nunca fazem parte das manifestações, seja pelo exagero do ME, seja por um conformismo típico de classe média), a reitora, que já havia metido os pés pelas mãos ao chamar a PM para resolver um assunto que só se agravaria com a presença de policiais, perdeu o controle da situação. Afinal, a força que o movimento dos estudantes não tinha surgiu e realizou atos em frente ao portão principal da universidade.
E chegamos ao dia 9 de junho de 2009, dia que restará infame para os anais da universidade. As notícias estão por aí, o Diego fez um bom resumo da situação. Agora passarei a uma parte mais pessoal do post.
Fui contra a greve em todos os momentos, mesmo após a presença da PM no campus. Não creio que a greve seja uma resposta adequada à situação, por vários motivos. Hoje, um pouco cansado pela leitura de Quincas Borba, resolvi tirar um cochilo na parte da tarde. Acordei às 18h45 com pessoas falando comigo no MSN, querendo saber se eu sabia do que estava acontecendo. Fui ver e fiquei estarrecido. Minutos depois meu pai me ligou, preocupado. Disse para eu não ir. Como sou meio impulsivo fui. E encontrei centenas de pessoas no meio da avenida Luciano Gualberto, numa assembleia. Soube do que houve.
Não tenho nenhuma simpatia pelos partidos que comandam o ME. Nenhuma simpatia pelas comparações de nosso período com a ditadura militar (antes alguma democracia que democracia nenhuma). Nenhuma simpatia para com grevistas de carteirinha, que em parte são responsáveis pelo que houve nesta terça-feira. Mas não posso deixar de afirmar o óbvio, o evidente: o governo e a reitoria passaram dos limites do tolerável.
Se enganam aqueles que dizem que foi algo “justo”. Não pode ser justo uma força da polícia perseguir pessoas por 500 metros adentro da universidade. Não pode ser justo todos os policiais presentes estarem sem a devida identificação. Não pode ser justo o comandante da polícia dizer que interviu porque policiais “tinham sido feito reféns”. Com quem este homem está brincando? É assim que ele pretende se sair da acusação de força desproporcional? É assim que pedem para que confiemos na polícia?
Não é mais possível permanecer neutro, como eu disse acima. É preciso mostrar que não se pode tratar deste modo pessoas que protestam pacificamente contra um governo que impõe decisões, abstém-se do diálogo e pretende garantir o monopólio da razão. Havia os manifestantes que buscavam confronto direto com a polícia? Claro que havia. Estes são uma minoria. E não devem servir de base para fazer centenas de pessoas de bem passarem momentos de medo. Os vídeos estão na internet. Está provado, de uma vez por todas, que esta senhora que se diz reitora, embora tenha auto-ajuda e Paulo Coelho como leituras preferidas, não tem mais a mínima condição de permanecer no topo da hierarquia de uma instituição que já teve mentes brilhantes deste país.
Miguel Reale, que muitos chamam de “direitista”, “reacionário”, “safado” e outras coisas piores, quando foi reitor da Universidade de São Paulo JAMAIS permitiu que a ditadura reprimisse estudantes dentro do campus. Ele era coerente com seus princípios, por mais questionáveis que sejam suas posições. É do jogo termos discordâncias. Mas não é do jogo intimidar os estudantes com a truculência típica da PM. Em Paraisópolis, neste ano mesmo, eles tinham a desculpa de que lá havia traficantes e bandidos. Hoje havia flores e palavras de ordem. Nada mais brega. Nada mais inofensivo.
Enquanto o governo estadual não oferecer diálogo, enquanto não abrir mão da bomba de efeito moral como instrumento político, enquanto esta reitora não renunciar ao cargo, estarei ao lado dos estudantes. E depois disso espero que o ME se modernize. Não se pode mais expor as pessoas a esse risco – mas impera a necessidade de eliminar esse risco. Leia-se: a polícia não negocia com estudantes.
UPDATE
Atualizarei aqui para incluir links que considero úteis e/ou interessantes:
Relato de um professor da EACH
Vídeo definitivo sobre o ocorrido
UPDATE 2
Aqui está a posição da reitoria. Nota-se que ela prefere culpar os manifestantes e apontar “danos ao patrimônio público”. Ridículo.
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