Soneto sem assunto

Postado em July 11, 2008
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Escrevendo um soneto às dez e meia
da noite, este soneto que é sem tema
feito um ovo que é só casca, sem gema;
um soneto sem sangue, só de veias.

Como quem resolvesse um teorema
construindo um objeto sem matéria
prima, faço um soneto sem idéias.
Será que este soneto é um poema?

Não, pois como Aristóteles dizia:
“Por ser escrito em versos um tratado,
havemos de chamá-lo poesia?”.

Pirotecnia pura! Mas, agora,
que o soneto está quase terminado,
o relógio registra: duas horas.

Picnic em Auschwitz

Postado em July 6, 2008
Categoria: poesia | 2 comentários

Entre um cigarro e outro
a Imperatriz de Auschwitz
tomava chá com bolachas
à luz do abajour encapado
com pele de cigano, projetando
sobre as paredes encardidas
um enxame de mariposas
incendiadas.

Através da janela vê-
se um poeta crucificado
entre dois psicanalistas e
sobre o seu cadáver delicado
abelhas esclerosadas
preparam a ferrugem.

Très chic, a
Imperatriz de Auschwitz
adubava com vísceras incineradas
as flores que germinavam flácidas
entre cactos e canteiros de
arame farpado.

Ao pé da cruz, onde o limo
encharcado de sangue coagula
cogumelos e lagartas, uma doce
garotinha mastiga um pássaro,
uma garota sem cabeça.

E a Imperatriz de Auschwitz
com seus músculos de chumbo
e borracha, um corpo se con
torcendo em colapso, urrava
currada por um panzer
entre um cigarro e outro.

O filantropo

Postado em July 2, 2008
Categoria: conto | Comente

Madrugada de sábado para domingo

Uma caminhonete branca deslizava lentamente no asfalto, como um bicho farejando a presa. Através do vidro, os travestis eram bizarros manequins numa vitrine, afetados e desproporcionais, fazendo caras e bocas — sobretudo bocas; peixes exóticos num aquário de neon. A caminhonete se aproxima de uma esquina e o vidro desce, semicerrado:

— Quanto é o programa?

— É cinqüenta o completo, bonitão.

O travesti desaparece sugado para dentro do carro.

— Prá onde a gente vai?

— Prá minha chácara; fica aqui pertinho. Aproveita a viagem.

O barulho do chiclete rodando na boca escandalosamente escarlate do travesti incomodava; ligou o rádio — música sertaneja.

— Só toca bosta uma hora dessas.

E o chiclete girando na boca do travesti, estalando molhado, dando nos nervos…

— Já chega! Cospe fora essa porra logo!

— Tá bom, calma … credo! Eu hein? Homem estressado…

Baixou o vidro e cuspiu o chiclete.

— Falta muito ainda?

— Dá prá calar a boca?!

O travesti com a boca toda pintada parecia um palhaço desesperado, desses que assustam criancinhas.

Saíram da cidade, passaram por uma porteira e pegaram uma estrada de terra cercada de mato baixo por todos os lados, chegando num galpão. Estacionou o carro.

— É aqui. Pode descer.

Desceram e entraram no galpão subitamente iluminado por duas lâmpadas fluorescentes: dois pontos de exclamação interrompendo o escuro!!

— Que lugar mais esquisito…

Com um único golpe de machado, a cabeça do travesti foi arrebentada, deixando no assoalho uma mancha pastosa parecida com batom.

Domingo de noite

Atrás da igreja, uma caminhonete branca distribuía comida entre os mendigos. No prato, uma carne rosada e macia, adocicada, boiava num caldo meio ralo, meio morno.

Persistia no ar um levíssimo cheiro de perfume barato.

Pierre Menard, a fraude?

Postado em June 23, 2008
Categoria: crítica | 2 comentários

Salvo engano, o “Pierre Menard, autor do Quixote” é um dos textos mais citados, se não o mais citado, de Jorge Luís Borges. No entanto, ao que me parece, até agora um certo detalhe não foi devidamente levado em consideração, e esse detalhe, ainda que não mude a compreensão atual que se tem do conto, serve para relativizar algumas conclusões habituais. Em tempo: na falta do original em espanhol de Ficciones, estou me servindo da tradução, aliás muito satisfatória, de Carlos Nejar, que consegue transpor para o português algumas sutilezas do original, sem a consideração das quais este esboço de ensaio não faria o menor sentido.

No texto que abre Ficções e que antecede “Pierre Menard…”, “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, o narrador e Bioy Casares discutem “a elaboração de um romance em primeira pessoa, cujo narrador omitisse ou desconfigurasse os fatos e incorresse em diversas contradições, que permitissem a poucos leitores — a muito poucos leitores — a adivinhação de uma realidade atroz ou banal”. Esse procedimento, que costumamos chamar de narrador não confiável e que é bastante familiar aos leitores de Machado de Assis, parece-me um princípio que se deve levar em conta em “Pierre Menard…”, no qual, por trás da execução parcial e milagrosa de uma tarefa impossível, a realidade banal da fraude se insinua.

Vários são os índices que contribuem na formação de um narrador não confiável, dentre eles um certo tom irônico dissimulado que em alguns momentos se torna explícito. Isso acontece, por exemplo, quando o narrador de “Pierre Menard…” trata da figura da condessa de Bagnoregio. Sobre o marido da condessa, o “filantropo internacional” Simón Kautzch, o narrador diz ser ele “tão caluniado — ai! — pelas vítimas de suas desinteressadas manobras”. Ora, como o autor de “manobras” que causam “vítimas” pode ser considerado um “filantropo”? E como tais manobras podem ser “desinteressadas”? A palavra “vítima”, ao que se deve acrescentar a afetação da interjeição “ai!”, aponta para a legitimidade das “calúnias” que deixam de ser, por isso mesmo, calúnias. No seu ensaio “Arte de injuriar”, Borges apresenta um catálogo de procedimentos difamatórios que parecem ter sido empregados ao longo do conto.

Tratando do periódico anual publicado pela condessa, o narrador o evoca como um “vitorioso volume” a partir das palavras Gabriele D’Anunzio, um de seus colaboradores, lançado com o objetivo de apresentar “uma autêntica efígie de sua pessoa [da condessa], tão exposta (na razão direta de sua beleza e de sua atuação) a interpretações errôneas ou apressadas”. A pretexto de defender a honra de sua benfeitora, o narrador acaba colocando-a em dúvida ao fazer menção às acusações que atestam contra a sua integridade moral.

Ao chamar a revista de “vitorioso volume”, o narrador deixa tudo muito claro. Vemos então que a ação do conto se passa no interior de um círculo fechado, apoiado sobre o mecenato da baronesa de Bacourt e da condessa de Bagnoregio, através do qual um grupo de homens de letras tenta obter prestígio social. Trata-se de uma via de mão dupla: os homens de letras conseguem certa visibilidade ao freqüentar os salões da elite, enquanto esta pode gozar do prestígio de patrocinadora das artes e das letras. Para que essa troca se dê, no entanto, os homens de letras se vêem obrigados a defender a honra questionável da condessa e de seu marido. É de dentro desse círculo que saem o narrador do conto e a sua personagem principal, Pierre Menard.

Para atestar a credibilidade do seu relato, o narrador cita o aval que lhe fora concedido pela condessa, sendo ela mesma alguém a quem não podemos dar nenhuma credibilidade. Nesse ponto, toda a confiabilidade do relato passa depender unicamente da boa vontade do leitor, mas a prudência aconselha que se mantenham todas as reservas. Logo de saída, o narrador critica o catálogo que Madame Henri Bachalier teria feito da obra de Pierre Menard, dizendo: “São, portanto, imperdoáveis, as omissões e adições perpetradas por Madame Henri Bachelier num catálogo falaz que certo jornal, cuja tendência protestante [grifo do autor] não é segredo, teve a desconsideração de infligir a seus deploráveis leitores — embora estes sejam poucos e calvinistas, quando não maçons e circuncisos”. O preconceito religioso demonstrado, ao qual se acrescenta uma nota anti-semita, é mais um índice a se somar na construção do caráter duvidoso do narrador e denuncia a sua total falta de isenção diante do que está sendo narrado.

A acusação feita contra o catálogo de Madame Bachalier tem também como função preservar o prestígio do grupo ao qual o narrador faz parte, numa tentativa de manter o monopólio sobre a obra de Pierre Menard, como atesta a seguinte passagem: “Os amigos autênticos de Menard viram com alarme esse catálogo e ainda com certa tristeza. Dir-se-ia que ontem nos reunimos diante do mármore final e entre os ciprestes infaustos já o Erro trata de empanar sua Memória…”. A retórica gordurosa da última frase, com os seus clichês detestáveis, como “mármore final”, é mais uma afetação que podemos pôr na conta desse narrador que cada vez mais se afasta do estilo habitual do autor de Ficções. Mas o que queríamos sublinhar com essa passagem é que o narrador pretende manter o exclusivismo do grupo da condessa Bagnoregio com relação aos escritos de Menard como uma espécie de espólio.

Identificado o narrador de “Pierre Menard…” como um narrador não confiável, cabe-nos agora nos determos sobre a “ação” do conto propriamente dita, ou seja: a história do esforço que Pierre Menard empreendeu na sua tentativa de escrever palavra por palavra o Dom Quixote de Cervantes sem, contudo, lançar mão de cópia ou de transcrição mecânica. Pierre Menard queria, por seus próprios meios e criação, chegar a um texto idêntico ao do Quixote de Cervantes. Antes, contudo, vale a pena dar uma olhada no perfil que o narrador constrói de Pierre Menard e na descrição de suas obras.

Se o narrador do conto não é confiável, o mesmo podemos dizer de Pierre Menard. Dentre sua produção ensaística, podemos encontrar uma invenctiva contra Paul Valéry que corresponderia ao “reverso exato de sua verdadeira opinião sobre Valéry”. Numa nota de rodapé, a respeito de “uma versão literal da versão literal que fez Quevedo da Introduction à la Vie Dévote de São Francisco de Sales”, o narrador, por não encontrar nenhum vestígio dessa obra na biblioteca de Menard, conclui: “Deve tratar-se de uma brincadeira de nosso amigo, mal-ouvida”. Outra obra do escritor seria “um artigo para enriquecer o xadrez eliminando um dos peões de torre”, no qual “Menard propõe, recomenda, polemiza e acaba por rejeitar essa inovação”. Esses elementos contribuem para a atribuição de um caráter não confiável e volúvel a Pierre Menard que deve ser levado em conta durante a leitura das passagens, citadas pelo narrador, de sua correspondência.

Numa carta escrita ao narrador, Menard explica o método pelo qual pretende concluir a sua tarefa de escrever novamente o Quixote: “Meu solitário jogo está governado por duas leis polares. A primeira permite-me ensaiar variantes de tipo formal ou psicológico; a segunda obriga-me a sacrificá-las ao texto ‘original’ e a raciocinar de modo irrefutável sobre essa aniquilação…”. A partir desse processo, Menard teria conseguido escrever os capítulos nono, trigésimo oitavo e um fragmento do vigésimo segundo da primeira parte de Dom Quixote. No entanto, o narrador não consegue encontrar um único rascunho dessas versões anteriores, aludindo a uma passagem da carta em que Menard disse ter resolvido, deliberadamente, perder as “etapas intermediárias” de seu trabalho. Numa nota de rodapé adiante, o narrador diz que o escritor costumava queimar os seus cadernos de rascunhos em seus passeios ao entardecer.

Isso nos leva às seguintes questões: será que esses rascunhos realmente existiram? Será que o conto nos leva a crer que Pierre Menard não teria escrito de fato os tais fragmentos do Quixote e que tudo não passaria de uma farsa ou de uma piada, ou ambas, criada pelo narrador do conto ou por Menard, ou ambos? Talvez sim, talvez não. Afinal, Capitu traiu ou não traiu Bentinho? O que eu queria destacar é que não há sequer um ponto seguro no texto que torne o seu enunciado confiável, pois narrador e personagem principal mentem descaradamente e repetidas vezes. Diante da teia de mentiras em que os dois se embrenham, a possibilidade de que Menard tenha conseguido, pelo menos parcialmente, cumprir o seu ambicioso projeto se torna ainda mais incrível, com toda a ambigüidade que tal palavra possa ter.

As texturas do verde

Postado em June 15, 2008
Categoria: poesia | 4 comentários

Observe essa pêra
sobre a mesa, observe
sua casca transparente
(invólucro cristalino)
e a polpa descarnada,
sem espessura,

onde a mordida
resvala no vazio de um verde
oco, cor sem coisa: simulacro.

Um verde diverso
do verde venoso do rio
que corta a minha aldeia,
o Rio Verde, de um verde
que se alimenta na lenta
voragem do limo.

Não o destilado verde
marinho, relâmpago
numa esmeralda, mas
o verde opaco de um verde
quase marrom, verde sem viço
e vazio de cor: verde vácuo.

Verde que te quero verdes, vários.

Furor parnasiano

Postado em June 4, 2008
Categoria: metalinguagem, poesia | 2 comentários

Eu sou a Musa Impassível,
a Virgem de amianto
impermeável ao sôfrego
fogo das tuas entranhas.

Dos meus seios, jorram
cascatas de mármore,
arquiteturas, estátuas
de antigos deuses
mutilados, mas
nenhuma gota
que aplaque a súplica
dos teus lábios ávidos.

Contra um cinto de castidade
forjado no bronze, a frio,
os teus dedos se deflagram
no meu corpo seminu;
é inútil! Trouxeste
a chave (de ouro)?

Eu, a Musa Impassível,
estéril e etérea, um frígido
Moloch; nas minhas coxas,
o poema é um coito sem gozo.

Borges, autor do Quixote

Postado em June 2, 2008
Categoria: crítica | 2 comentários

O Dom Quixote, de Cervantes, é uma sombra constante a rondar os labirintos e os jogos de espelho da obra de Borges; sua presença é igualmente perceptível na produção ensaística do escritor argentino. Não estou falando apenas do conto “Pierre Menard, autor do Quixote”, nem do despojamento estilístico que Borges identificou em Cervantes e que parece lhe servir como modelo de expressão em contraposição a uma suposta “ética supersticiosa” do leitor e do escritor modernos. Na verdade, o que quero dizer é que grande parte daqueles procedimentos que costumamos classificar como tipicamente “borgianos” já estão prefigurados, em diferentes graus de desenvolvimento, naquele que é considerado como o primeiro romance moderno da literatura ocidental. No entanto, Borges não se limitou a reproduzir esses procedimentos, mas os transformou em princípios estruturais de sua ficção — aquilo o que em Cervantes aparece como um elemento subordinado à ação, Borges transforma no motivo da ação de seus contos.

Veja-se o exemplo do capítulo VI da primeira parte de Dom Quixote, quando o cura e o barbeiro, preocupados com a saúde mental do cavaleiro de triste figura, fazem uma seleção de quais livros deveriam ser queimados ou preservados na biblioteca de seu amigo; cada livro examinado pelo cura é acompanhado por um comentário pelo qual se procura justificar a sua condenação ou absolvição a partir de considerações estéticas e morais. De um modo geral, tratam-se de livros de cavalaria, mas há muitos outros de gêneros variados.

Esse tipo de “crítica literária” (crítica feita através da literatura), não necessariamente um caso de crítica de literatura, aparece em outros momentos do livro, mas sempre como um apêndice da ação; uma ação que se dá a partir de uma estrutura episódica, não linear, ainda que cronológica. Em Borges, no entanto, o comentário literário torna-se a própria espinha dorsal da ação, converte-se em princípio de organização do enredo, transformando o conto no pastiche de uma resenha ou de um ensaio erudito, com ar diletante. Isso ocorre, por exemplo, em “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, em “Pierre Menard, autor do Quixote” e em “Exame da obra de Herbert Quain”.

Outro expediente tipicamente borgiano que encontramos no Dom Quixote é o arrolamento de uma série de fontes bibliográficas das quais o romance de Cervantes pretenderia ser uma transcrição fiel; essas fontes, obviamente, são tão ficcionais quanto todo o resto do livro. Embora tenha sido herdado das narrativas tradicionais, nas quais serve para coroar com a autoridade da tradição o que está sendo narrado, e amplamente disseminado na ficção posterior, para criar um “efeito de real”, esse procedimento é utilizado de forma bastante peculiar em Cervantes. No capítulo IX, a interrupção abrupta da ação do episódio anterior é justificada pela incompletude do relato no qual Cervantes estava se baseando, situação que só viria a ser sanada com o encontro fortuito de uma versão em árabe da história de Dom Quixote.

Vemos que, além de sua intenção irônica de querer inscrever os feitos de sua tresloucada e ridícula personagem nas páginas da História, espaço até então reservado para os grandes homens, Cervantes utiliza o comentário sobre suas supostas fontes bibliográficas como um recurso para reter a ação, somando-o a vários outros recursos empregados no controle do ritmo narrativo. Entre aqueles que empregaram esse mesmo procedimento de maneira original e inventiva, poderíamos dizer que de maneira igualmente irônica, estão Poe e Henry James.

No entanto, é Borges, em “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, que leva esse procedimento às últimas conseqüências. O conto apresenta uma personagem narradora que, através de uma conversa casual com um amigo, toma conhecimento de um país desconhecido, chamado Uqbar, citado numa enciclopédia. Dentre as informações apresentadas no misterioso verbete, que mais parece um acréscimo na versão original da enciclopédia, está que toda a literatura de Uqbar se passa nas regiões imaginárias de Mlejnas e Tlön. Casualmente, como acontece com o “autor” de Dom Quixote com relação ao manuscrito árabe, chega às mãos da personagem o décimo primeiro volume de A First Encyclopaedia of Tlön, a enciclopédia do mundo imaginário criado pelos habitantes de Uqbar, na qual estão descritos, dentre outras coisas, as línguas faladas em Tlön e os seus sistemas filosóficos. Descobre-se mais tarde que o próprio país de Uqbar havia sido inventado por uma ordem secreta chamada Orbis Tertius.

Se Cervantes pretende, ironicamente, simular a factibilidade histórica de sua personagem através da invenção de fontes historiográficas, a personagem de Borges nos descreve, em forma de paráfrase, o sistema filosófico criado pelos homens de um mundo inventado pelos habitantes de um país imaginário. Cervantes, a propósito de atestar a veracidade de sua fantasia, faz do real um blefe no jogo da ficção, expandindo e estirando os seus limites externos; Borges, por sua vez, explora os limites internos da ficção, fazendo-a dobrar várias vezes sobre si mesma, numa espiral em movimento contínuo e centrípeto.

Outro expediente tão ao gosto de Borges é o do duplo, ou da duplicação. Temos o exemplo óbvio do conto “O outro”, em que um Borges nonagenário encontra Borges aos vinte anos de idade, ou a confusão entre criador e criatura em “Ruínas circulares”. Em Dom Quixote, temos a personagem do cura criticando a obra La Galatea, de seu próprio autor, Cervantes, a quem define como um grande amigo; mais surpreendente, entretanto, são os episódios da segunda parte em que Dom Quixote e Sancho Pança se deparam com os vestígios da passagem de seus duplos, saídos da obra de Avellaneda que escreveu, digamos, uma continuação apócrifa da primeira parte de Dom Quixote. Quixote e Pança chegam a se encontrar com Dom Álvaro Tarfe, personagem saída do Quixote de Avellaneda, a quem conseguem convencer serem eles os “originais”.

Os procedimentos tomados da obra de Cervantes, em Borges, servem a outros propósitos e são usados em sentido diverso ao de sua concepção original, e essa diferença constitui-se, por si só, motivo de interesse para a crítica literária. Porém, não é o meu objetivo levantar essa questão neste espaço. Contentemo-nos, por ora, com a seguinte conclusão: muitos dos procedimentos que formam o caráter particular e original da obra de Borges podem ser encontrados, em alguma medida, no Dom Quixote, onde assumem uma função subordinada à ação do romance; na ficção borgiana, ao contrário, esses procedimentos são integrados à engenharia narrativa, passando então a ação a se desenvolver a partir deles, motivada por eles.

Mais um pré-genealógico

Postado em May 23, 2008
Categoria: poesia, pré-genealógico | 2 comentários

Dama-da-noite

A dama-da-noite
incendeia a lua,
a lua cheia.

Tem o perfume
da pêra madura,
o cheiro fecundo
do esperma.

Dama das noites,
das noivas,
das lésbicas,
prostitutas,
flor.

O sabor da noite
é licor de frutas
cítricas.

Dueto com João Cabral

Postado em May 16, 2008
Categoria: metalinguagem, poesia | Comente

A concretude do cantar
se comprova na procura
da palavra-coisa,

na concisão da coisa em si
que se resume a seu resumo,
a seu sintético sumo.

A língua lima o canto
áspera e à espera do que é bruto.
Que o verso reste sempre sóbrio
se despojando do que nele
seja luxo ou nulo, oco
por dentro e por fora.

Por isso escuto atentamente
o canto escasso e dissecado
e conto os pés desse compasso:
são oito pés descalços, de aço.

Excesso de ascese e assepsia.

A (re)invenção do fogo

Postado em May 7, 2008
Categoria: metalinguagem, poesia | Comente

Se penso “fogo”, logo
atravesso o avesso
dessa idéia, penso
coisas fluidas, como
a flama e a chama
que se derrama
sobre a brasa.

A idéia se delineia
ao contrário, logo
se penso “fogo”, penso
coisas espessas, como
a fibra flamejante
que se deflagra
num incêndio.

E se penso “fogo”,
logo penso apenas
coisas suspensas, como
o embaraço das labaredas
que se rebelam
ao revés do vento
(reinvento o fogo).

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