Soneto idílico

As ninfas que viviam aos sorrisos, cantando pelos bosques, de alegria, estrangulei-as todas e o faria mais uma vez, se assim fosse preciso. Uma a uma, num sádico rodízio de carnes inda trêmulas, e frias; e depois pratiquei necrofilia, tudo em honra e louvor a Dioniso! As ninfas sifilíticas, tais pragas, devorei-as prostrado em reverência, [...]

Soneto branco

Queria o meu soneto da cor branca, todo branco, que nunca fosse negro, pois o negro é profundo, cheio de ecos e coisas das quais só se sente o cheiro. O branco não. O branco é superfície e silêncio, o suspense de um relâmpago retido na espessura de um espelho. Branco é a cor das [...]

Soneto bossa nova

Não conhecia o mar, mas já ouvia por detrás das montanhas lá de Minas a voz, o violão e a disciplina de um certo João, vindo da Bahia, que tantas coisas novas descrevia: a beleza sem culpa das meninas, as praias que o sol nítido ilumina, a voz, o violão e a poesia. Lá de [...]

Soneto sem assunto

Escrevendo um soneto às dez e meia da noite, este soneto que é sem tema feito um ovo que é só casca, sem gema; um soneto sem sangue, só de veias. Como quem resolvesse um teorema construindo um objeto sem matéria prima, faço um soneto sem idéias. Será que este soneto é um poema? Não, [...]

Soneto piedoso

Penso num Jesus pregado na cruz, talhado bem com cuidados de arte e um pano vermelho cobrindo as partes pouquíssimas vezes postas à luz. Penso num Jesus na cruz: Ó Jesus, teu coração tão santo é um enfarte! Teu corpo na cruz foi o estandarte com manchas de sangue e bolhas de pus! Deixou-te o [...]

Soneto caixa de música

A bela bailarina perolada que dança delicada na neblina salta sobre a calçada e desatina; num só gesto, ilumina a madrugada. Nas trevas entreabertas de uma esquina, cria asas cristalinas, uma fada, a leve bailarina alienada na luz calcificada da retina. Num flexível floreio, ela flutua sobre as pedras da rua e do passeio, e [...]

O objeto soneto

A princípio, teremos dois quartetos no começo da página, por cima, e depois: dois tercetos, cinco rimas, chave de ouro, fechando este soneto que o poeta, em trabalho de arquiteto, organiza, constrói, refaz e lima, perseguindo com custo a obra-prima, e eis os quatorze versos: que perfeitos! Na métrica, persistem as cesuras, que o bom [...]