Fera (pré-genealógico)
A fera dos olhos adormecida concentra no ar toda tensão de fera cativa. Quando desperta: parda pantera aberta em guerras, rosa toda espinhos. E a fera, furiosa, fareja, captura e devora. Mantém-se alerta à perplexidade, instinto límpido de pupila.
Corolário da mesa (pré-genealógico)
A matéria morta da mesa nunca será flácida ou torta, dela se faz porta, cadeira e os braços daquele que a corta. A matéria dura da mesa, com sua difícil costura, é feito nervura de pedra, feito cirurgia sem cura. A matéria densa da mesa, sua arquitetura suspensa, mantém sempre tensa postura onde nunca pousa [...]
Mais um pré-genealógico
Dama-da-noite A dama-da-noite incendeia a lua, a lua cheia. Tem o perfume da pêra madura, o cheiro fecundo do esperma. Dama das noites, das noivas, das lésbicas, prostitutas, flor. O sabor da noite é licor de frutas cítricas.
Outro pré-genealógico
Dionisíaca O vinho tinto que te molhou os lábios e afogueou os olhos fez despir-se na tua boca pétala por pétala a hemorragia lenta da lascívia.
Dois “pré-genealógicos”
Bailarina A bailarina gira: a respiração esquiva subindo em espirais e um sorriso equilibrado na ponta dos pés. Tensão entre música e musculatura. Dervixe Nos sinuosos signos da fumaça, um dervixe dançando se dilacera nos arabescos farpados da roseira: êxtase em elipses e espirais.
Os pré-genealógicos; “Vênus de Milo”
Quando resolvi manter um blog, pensei que seria uma boa oportunidade para trazer “a público”, ou pelo menos deixar registrado (partindo da possibilidade de que pouca gente os leia), alguns poemas que datam da minha graduação em Letras. Tais poemas, que os chamo pré-genealógicos, são o resultado de um período de seis meses sem escrever [...]