Mais um pré-genealógico
Dama-da-noite A dama-da-noite incendeia a lua, a lua cheia. Tem o perfume da pêra madura, o cheiro fecundo do esperma. Dama das noites, das noivas, das lésbicas, prostitutas, flor. O sabor da noite é licor de frutas cítricas.
Dueto com João Cabral
A concretude do cantar se comprova na procura da palavra-coisa, na concisão da coisa em si que se resume a seu resumo, a seu sintético sumo. A língua lima o canto áspera e à espera do que é bruto. Que o verso reste sempre sóbrio se despojando do que nele seja luxo ou nulo, oco [...]
A (re)invenção do fogo
Se penso “fogo”, logo atravesso o avesso dessa idéia, penso coisas fluidas, como a flama e a chama que se derrama sobre a brasa. A idéia se delineia ao contrário, logo se penso “fogo”, penso coisas espessas, como a fibra flamejante que se deflagra num incêndio. E se penso “fogo”, logo penso apenas coisas suspensas, [...]
Igreja de São Pedro, Mariana
Vista de noite, a Igreja de São Pedro mais parece uma esfinge decapitada, mas assim que o sol desata os nós da neblina, nada evoca a equívoca imagem de um enigma. A fachada, virgem de qualquer tinta, lembra a argila fresca que pulsa em certas frutas, como a manga quando dentes e lábios a dissecam. [...]
Igreja do Pilar, Ouro Preto
Pisar na Igreja do Pilar é romper a finíssima nata das sombras que encobrem a entrada de um mistério. Dentro da igreja, gangrena o ouro, um ouro escuro e encarnado (encardido), cujo amarelo macilento não alimenta o teu corpo ávido de cor (de azul, talvez). Tudo aqui, desde o ar salobro e insalubre, visa apenas [...]
Action-painting
Contra a claridade opaca do branco, explodem cores cruas em carne viva, como vísceras sobre o alabastro. Num espasmo premeditado, o artista atira labaredas de seda sobre a tela, espirais pirotécnicas repletas de cólera colorida. Perseguindo o rastro acrobático de um traço dilacerado, estilhaços de pássaro num vôo improvável.
Poema
O meu poema trança nervo, cristal e fibra em filigrana, meu poema forjado na frígida franja de uma estrela de neon prepara uma palavra e a palavra acrobata arrebata um pássaro que se dissolve no eco do próprio canto, voz em pleno vôo.
Eucaristia
Como que arrebatado pelo êxtase turbulento do Teu corpo, alvíssaras de delícias e delírios, eu me transubstancio em pura chama. A língua se inflama, labareda consumindo a carne, cauterizando os lábios cálidos de uma chaga. Entre os meus dedos, desabrocha a Rosa Mística, faço-lhe carícias como quem desfiasse um rosário perpétuo. E na tortuosa liturgia [...]
Entropia
Persigo um labirinto por vielas elásticas que se enlaçam no fulcro de um brando furacão. Ousarei atravessar esse labirinto bailarino onde paredes labaredas se consomem no cálido frescor da madrugada? Persisto. Persigo uma vertigem. Tudo me parece turvo e um flácido reflexo flutua sobre a superfície espessa da noite, é a lua e o seu [...]
Uma lira para Marília
Não sou pastor nenhum, nem tenho algum rebanho, então ouve o meu canto que só o que tenho a oferecer-te é este canto estancado na seda de um torniquete. Será delírio, Marília, que me faz soar esta lira dilacerada? Vejo-te nua sob o luar que escorre dos penhascos feito um calafrio, e nua és como [...]
« go back — keep looking »