Sobre a marginal
Feito um bombardeio, a noite se abate sobre São Paulo e a cidade arde, incandescente. Num céu estilhaçado, a lua escorre pelos olhos, fosca e opaca, cor de cocaína batizada, e me deixa chapado respirando a fumaça cruenta do asfalto.
Poema bonsai
Podo o poema pensando num bon sai, penso-o crescendo dentro do tempo (mas não no espaço) como processo.
Reflexão sobre o cristal
Observo o cristal: o lampejo, sua língua de relâmpago, labareda em que as coisas se consomem sem calor, límpida fagulha. Observo o cristal e o cristal disseca os meus olhos, dissolve os meus nervos retesos em estado de pânico, o cristal bebe os meus olhos. Observo o cristal pressentindo o preciso palpitar de um relógio; [...]
Soneto branco
Queria o meu soneto da cor branca, todo branco, que nunca fosse negro, pois o negro é profundo, cheio de ecos e coisas das quais só se sente o cheiro. O branco não. O branco é superfície e silêncio, o suspense de um relâmpago retido na espessura de um espelho. Branco é a cor das [...]
Soneto bossa nova
Não conhecia o mar, mas já ouvia por detrás das montanhas lá de Minas a voz, o violão e a disciplina de um certo João, vindo da Bahia, que tantas coisas novas descrevia: a beleza sem culpa das meninas, as praias que o sol nítido ilumina, a voz, o violão e a poesia. Lá de [...]
Corolário da mesa (pré-genealógico)
A matéria morta da mesa nunca será flácida ou torta, dela se faz porta, cadeira e os braços daquele que a corta. A matéria dura da mesa, com sua difícil costura, é feito nervura de pedra, feito cirurgia sem cura. A matéria densa da mesa, sua arquitetura suspensa, mantém sempre tensa postura onde nunca pousa [...]
Soneto sem assunto
Escrevendo um soneto às dez e meia da noite, este soneto que é sem tema feito um ovo que é só casca, sem gema; um soneto sem sangue, só de veias. Como quem resolvesse um teorema construindo um objeto sem matéria prima, faço um soneto sem idéias. Será que este soneto é um poema? Não, [...]
Picnic em Auschwitz
Entre um cigarro e outro a Imperatriz de Auschwitz tomava chá com bolachas à luz do abajour encapado com pele de cigano, projetando sobre as paredes encardidas um enxame de mariposas incendiadas. Através da janela vê- se um poeta crucificado entre dois psicanalistas e sobre o seu cadáver delicado abelhas esclerosadas preparam a ferrugem. Très [...]
As texturas do verde
Observe essa pêra sobre a mesa, observe sua casca transparente (invólucro cristalino) e a polpa descarnada, sem espessura, onde a mordida resvala no vazio de um verde oco, cor sem coisa: simulacro. Um verde diverso do verde venoso do rio que corta a minha aldeia, o Rio Verde, de um verde que se alimenta na [...]
Furor parnasiano
Eu sou a Musa Impassível, a Virgem de amianto impermeável ao sôfrego fogo das tuas entranhas. Dos meus seios, jorram cascatas de mármore, arquiteturas, estátuas de antigos deuses mutilados, mas nenhuma gota que aplaque a súplica dos teus lábios ávidos. Contra um cinto de castidade forjado no bronze, a frio, os teus dedos se deflagram [...]
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