Poeminha (ou poema em mínimas linhas)

Suave, o
sol se dissolve
na saliva das nuvens
— pássaros de açúcar
derretem no ácido
crepúsculo.
Na garganta
das montanhas
arranham estrelas
pontiagudas.

Poema bonsai

Como disse no post anterior, a questão do tempo na poesia vem me preocupando faz algum tempo; então aí vai mais um vídeo, dessa vez de um poema de minha própria autoria, já publicado por aqui.

Áporo, Carlos Drummond de Andrade

De uns dois anos para cá, vem me preocupando a questão do tempo na poesia; não só o ritmo dos versos, como também a experiência do tempo configurada pelo poema. A despeito da experiência concretista, a literatura, tal qual a música, é uma arte que se elabora sobretudo no tempo. Passei então a me interessar [...]

Soneto idílico

As ninfas que viviam aos sorrisos,
cantando pelos bosques, de alegria,
estrangulei-as todas e o faria
mais uma vez, se assim fosse preciso.
Uma a uma, num sádico rodízio
de carnes inda trêmulas, e frias;
e depois pratiquei necrofilia,
tudo em honra e louvor a Dioniso!
As ninfas sifilíticas, tais pragas,
devorei-as prostrado em reverência,
primeiro o curanchim, depois as nádegas,
agradecendo aos deuses pela bênção
de [...]

Noturno

A nata do sol se desfaz
num clarão esmaecido e
sobre as águas entorpecidas
que fiam macias o lodo doce
as engrenagens da via-láctea
se põem em movimento triturando
o vidro trêmulo das estrelas.
Nuvens de pássaros em pânico
desaparecem no volátil violáceo
azougue da noite entre escombros
de constelações, ruínas reluzentes
de antigos signos.
As pessoas voltam para casa
imersas num devaneio turvo
e as casas, paredes caiadas
de [...]

Poema pseudo-oswaldiano à janela do circular

Na rua augusta
Moças em lingeries de neon
Oferecem seus sexos
Num anúncio pubicitário.

À mão livre

Uma mínima linha
ilumina o branco
do papel, sustenta
a tensa arquitetura
do instante:
risco.

Dos anais da história literária

Enquanto Valéry
jogava com o acaso
e roubava nos dados
(os dados viciados de
Mallarmé), Paul Verlaine
comia o rabo de Rimbaud.

Fera (pré-genealógico)

A fera dos olhos
adormecida
concentra no ar
toda tensão
de fera cativa.
Quando desperta:
parda pantera
aberta em guerras,
rosa toda espinhos.
E a fera,
furiosa,
fareja,
captura
e devora.
Mantém-se alerta
à perplexidade,
instinto límpido
de pupila.

A palavra “câncer”

A palavra “câncer”
ganhou contornos de
substância, palavra
encalacrada na garganta,
escalavrando as entranhas,
não estes grãos de grafite
que se evolam na voz
quando alguém a diz
displicente: “câncer”.

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