Fera (pré-genealógico)

A fera dos olhos
adormecida
concentra no ar
toda tensão
de fera cativa.
Quando desperta:
parda pantera
aberta em guerras,
rosa toda espinhos.
E a fera,
furiosa,
fareja,
captura
e devora.
Mantém-se atenta
à perplexidade,
instinto límpido
de pupila.

A palavra “câncer”

A palavra “câncer”
ganhou contornos de
substância, palavra
encalacrada na garganta,
escalavrando as entranhas,
não estes grãos de grafite
que se evolam na voz
quando alguém a diz
displicente: “câncer”.

Sobre a marginal

Feito um bombardeio, a noite
se abate sobre São Paulo
e a cidade arde, incandescente.
Num céu estilhaçado, a lua escorre
pelos olhos, fosca e opaca, cor
de cocaína batizada, e
me deixa chapado respirando
a fumaça cruenta do asfalto.

Poema bonsai

Podo o poema
pensando num bon
sai, penso-o crescendo
dentro do tempo (mas não
no espaço) como processo.

Reflexão sobre o cristal

Observo o cristal:
o lampejo, sua língua
de relâmpago, labareda
em que as coisas se consomem
sem calor, límpida fagulha.
Observo o cristal
e o cristal disseca
os meus olhos, dissolve
os meus nervos retesos
em estado de pânico, o
cristal bebe os meus olhos.
Se observo o cristal,
o meu olhar toca
o cristal, e a sua textura
é um quase textura,
textura nenhuma.
Observo o cristal, esse
espesso vazio, abismo
adensado […]

Origami

De papel de seda finíssimo
fiz o teu corpo: fibra a fibra
modelada na pétala, forma
de pura textura e volume.
Sobre a límpida e mínima
película, moldei os teus seios
em torneios e volutas,
lívidos torvelinhos,
e os dedos se dedicaram
a cada minúcia sinuosa
na delicada dobradura do
sexo, desdobrando lábios
em abismos, labirintos.
Assim te concebo: nua
e toda nuances, criada
da lâmina de […]

Soneto branco

Queria o meu soneto da cor branca,
todo branco, que nunca fosse negro,
pois o negro é profundo, cheio de ecos
e coisas das quais só se sente o cheiro.
O branco não. O branco é superfície
e silêncio, o suspense de um relâmpago
retido na espessura de um espelho.
Branco é a cor das coisas sem conceito.
Não o branco solúvel, cor […]

Soneto bossa nova

Não conhecia o mar, mas já ouvia
por detrás das montanhas lá de Minas
a voz, o violão e a disciplina
de um certo João, vindo da Bahia,
que tantas coisas novas descrevia:
a beleza sem culpa das meninas,
as praias que o sol nítido ilumina,
a voz, o violão e a poesia.
Lá de Minas, eu via o Corcovado
e aprendia novíssimas tristezas,
um […]

Corolário da mesa (pré-genealógico)

A matéria morta da mesa
nunca será flácida ou torta,
dela se faz porta, cadeira
e os braços daquele que a corta.
A matéria dura da mesa,
com sua difícil costura,
é feito nervura de pedra,
feito cirurgia sem cura.
A matéria densa da mesa,
sua arquitetura suspensa,
mantém sempre tensa postura
onde nunca pousa doença.
A matéria reta da mesa,
prato de severa dieta,
é magra de arestas […]

Soneto sem assunto

Escrevendo um soneto às dez e meia
da noite, este soneto que é sem tema
feito um ovo que é só casca, sem gema;
um soneto sem sangue, só de veias.
Como quem resolvesse um teorema
construindo um objeto sem matéria
prima, faço um soneto sem idéias.
Será que este soneto é um poema?
Não, pois como Aristóteles dizia:
“Por ser escrito em versos […]

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