Poema bonsai

Podo o poema pensando num bon sai, penso-o crescendo dentro do tempo (mas não no espaço) como processo.

Soneto branco

Queria o meu soneto da cor branca, todo branco, que nunca fosse negro, pois o negro é profundo, cheio de ecos e coisas das quais só se sente o cheiro. O branco não. O branco é superfície e silêncio, o suspense de um relâmpago retido na espessura de um espelho. Branco é a cor das [...]

Furor parnasiano

Eu sou a Musa Impassível, a Virgem de amianto impermeável ao sôfrego fogo das tuas entranhas. Dos meus seios, jorram cascatas de mármore, arquiteturas, estátuas de antigos deuses mutilados, mas nenhuma gota que aplaque a súplica dos teus lábios ávidos. Contra um cinto de castidade forjado no bronze, a frio, os teus dedos se deflagram [...]

Dueto com João Cabral

A concretude do cantar se comprova na procura da palavra-coisa, na concisão da coisa em si que se resume a seu resumo, a seu sintético sumo. A língua lima o canto áspera e à espera do que é bruto. Que o verso reste sempre sóbrio se despojando do que nele seja luxo ou nulo, oco [...]

A (re)invenção do fogo

Se penso “fogo”, logo atravesso o avesso dessa idéia, penso coisas fluidas, como a flama e a chama que se derrama sobre a brasa. A idéia se delineia ao contrário, logo se penso “fogo”, penso coisas espessas, como a fibra flamejante que se deflagra num incêndio. E se penso “fogo”, logo penso apenas coisas suspensas, [...]

Poema

O meu poema trança nervo, cristal e fibra em filigrana, meu poema forjado na frígida franja de uma estrela de neon prepara uma palavra e a palavra acrobata arrebata um pássaro que se dissolve no eco do próprio canto, voz em pleno vôo.

A fábula de Fabergé

Se Olavo Bilac procura a palavra polida feito a pérola (escafandrista pescador de esmeraldas na espuma das estrelas) é para depois prepará-la dissipando as impurezas da prosódia, de modo que a melodia soe cintilante em ouvidos de ourives. Mas, ao comparar-se ao ourives, talvez pensasse nas engrenagens de um Fabergé onde o sublime se processa [...]

O objeto soneto

A princípio, teremos dois quartetos no começo da página, por cima, e depois: dois tercetos, cinco rimas, chave de ouro, fechando este soneto que o poeta, em trabalho de arquiteto, organiza, constrói, refaz e lima, perseguindo com custo a obra-prima, e eis os quatorze versos: que perfeitos! Na métrica, persistem as cesuras, que o bom [...]

Genealogia persa

Na difícil tessitura do tapete persa, fez-se o jogo de xadrez: cálculo absoluto, como num conto de Borges, bordado em elipses e labirinto, leopardos em fuga geométrica sobre a partitura. Um trabalho análogo ao do poeta: arquitetar o obstáculo, o abstrato, costurando obcecado cada coágulo de silêncio em corolário. Carrossel barroco, o xadrez antecipa a [...]