Poema bonsai
Postado em March 22, 2010
Categoria poesia, vídeo | 3 comentários
Como disse no post anterior, a questão do tempo na poesia vem me preocupando faz algum tempo; então aí vai mais um vídeo, dessa vez de um poema de minha própria autoria, já publicado por aqui.
Achei interessante — mais este que o do Áporo. Nesse, visualiza-se o conteúdo do poema: o crescimento do poema como processo, num movimento de poda pelo qual ele ocupa cada vez menos espaço físico, ao mesmo tempo em que se expande na medida do adensamento dos significados. O vídeo mostra isso acontecendo. Assisti várias vezes.
Mas confesso que estou com medo de você tomar gosto pela coisa e começar a compor poemas em flash, tipo o Gullar…
Lorena,
Quando você fala de poemas em flash do Gullar, está falando dos e-poemas dele, ou da poesia mais recente?
Para mim, o vídeo é uma ferramenta de experimentação, mas duvido que eu vá me restringir a seu uso. Como disse, o vídeo parece-me uma forma de explicitar o ritmo e o tempo configurado no poema, uma maneira de me tornar mais consciente deste último.
Poemas como o “Bonsai” e o “Soneto sem assunto” evidenciam essa preocupação, que acaba por culminar no “Noturno”, em que até hoje me encontro às voltas com uma forma que consiga transmitir a experiência da passagem do tempo e não apenas indicá-la no enunciado. Em alguma medida, tal problema já estava contido no “Entropia”, em que optei por uma suspensão do tempo a partir da segunda parte do poema. O “Noturno” é uma tentativa de solucionar determinados problemas que ficaram pendentes com o “Entropia”.
Desde que resolvi “fechar” o “Rima incidental”, que inicialmente fazia parte de um projeto de formação de um arcabouço técnico, e tendo alcançado, creio eu, satisfatoriamente esse objetivo, perguntava-me qual seria o estímulo para o que viria depois; e tentava encontrar alguma orientação na produção contemporânea. Acho que o “Noturno” me apontou um caminho que, entretanto, coloca-me solitário no cenário atual, o que é bom. A epígrafe do “Rima…” é um trecho do “Four quartets”, do Eliot, sobre o tempo, e hoje ela faz muito mais sentido após poemas como o “Bonsai”, o “Sem assunto” e, principalmente, o “Noturno”:
Words move, music moves
Only in time; but that which is only living
Can only die. Words, after speech, reach
Into the silence. Only by the form, the pattern,
Can words or music reach
The stillness, as a Chinese jar still
Moves perpetually in its stillness.
É curioso que, para chegar a um entendimento mais pleno dessa epígrafe, tenha que ter escrito o livro inteiro; a preocupação que move os últimos poemas do livro já está contida na epígrafe, mas acabei por atingir o cerne do problema por um caminho próprio, em muitos momentos bastante distinto do trilhado por Eliot. A principal diferença é que Eliot escreveu o monumental “Four quartets”, na minha opinião, a grande realização poética do século XX, enquanto eu escrevi o “Noturno”, poema de fatura muito mais modesta, apesar de eu ter atingido nele o ápice das minhas possibilidades técnicas e ainda não ter conseguido dar conta da totalidade das exigências formais que o poema me impôs (até hoje, sinto que o “Noturno” está além da minha capacidade atual, por isso ele se encontra oficialmente na gaveta).
Essas são minhas preocupações atuais, e a experiência em vídeo é um mero suporte secundário para desdobrá-las, portanto creio ser difícil que eu acabe me acomodando nela.
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