Esse filme eu já vi
Postado em March 17, 2010
Categoria repercussão | Comente

Do filme Má Educação, de Pedro Almodóvar
Recentemente, a Diocese de Penedo anunciou o afastamento dos religiosos de Arapiraca envolvidos no escândalo sexual denunciado pelo programa Conexão Repórter, do SBT. Gostaria que a Diocese, assim como sua secretária — a senhora Maria Rosiete Nobre Pires — fossem mais claros com a população a respeito do que significa tal afastamento. Ontem, assisti a praticamente todos os telejornais da noite, e todos eles noticiavam o afastamento dos religiosos, sem explicar o que isso quer dizer. Explico: os religiosos foram temporariamente afastados de suas funções, mas continuam ligados à Igreja e não perderam seu estatuto sacerdotal. Na prática, ficarão de molho até que a poeira baixe, ou até que as investigações terminem, com ou sem a condenação deles; talvez até cumpram uma rápida pena. Depois, serão mandados para alguma paróquia distante para continuar exercendo suas funções, independentemente de terem sido condenados ou não. Talvez o monsenhor de 82 anos, pego com a boca na botija no vídeo veiculado durante a reportagem, seja aposentado e passe seus últimos dias de vida mais ou menos recluso numa instituição católica qualquer. É assim que a Igreja tem agido recorrentemente, e é assim que ela dá indícios que agirá no caso de Arapiraca. Foi como aconteceu em Mariana, com o padre Bonifácio Buzzi, que continuou abusando de menores mesmo depois de ter amargado algum tempo no xilindró.
É triste que a Igreja nunca aja no sentido de um afastamento definitivo dos padres envolvidos nesse tipo de crime, sujeitando as comunidades — que enxergam nos sacerdotes católicos uma figura digna de confiança — ao contato com pessoas de caráter muitas vezes sabidamente duvidoso, para dizer o mínimo. É pura irresponsabilidade! Mais triste ainda é saber que a Igreja atua sistematicamente no ocultamento desses crimes, como confirma o caso da Irlanda, em que, descobriu-se recentemente, menores foram levados a assinar um voto de silêncio acerca de seu envolvimento com um padre; isso aconteceu em 1975, mas só agora veio a público. Na Alemanha, um caso teria acontecido sob as fuças do atual Papa, quando este era arcebispo de Munique, em 1980; e o que Vossa (minha não) Santidade teria feito? Mandou o padre pedófilo para a terapia e depois permitiu que ele voltasse a ocupar suas funções novamente, e os abusos voltaram a se repetir. Para quem tiver paciência e estômago, há ainda as denúncias envolvendo o coral de meninos cantores da catedral de Regensburgo, dirigido de 1964 a 1993 pelo irmão de Bento XVI, o padre George Ratzinger; ainda que não pese sobre este último nenhuma acusação, convém lembrar que a série de abusos ocorreu entre 1958 e 1973, portanto durante nove anos da direação de George. No mínimo, podemos dizer que ele deveria estar mais atento com relação ao que acontecia debaixo de seu nariz.
No Brasil, estamos cansados de escutar que a impunidade galopante é um dos fatores a estimular a criminalidade entre nós. Este, inclusive, é o discurso oficial da CNBB. Numa nota divulgada no final do primeiro semestre de 2009, chamada “A superação da corrupção na política: salvaguarda da ética e da democracia”, lemos:
“A corrupção e a decorrente impunidade constituem grandes ameaças ao sistema democrático./ A corrupção aumenta o fosso das desigualdades sociais, como também a miséria, a fome e a pobreza. Além de ferir gravemente o princípio do destino universal dos bens, raramente se tem notícias sobre a restituição dos recursos e bens públicos usurpados. A corrupção trai a justiça e a ética social, compromete o funcionamento do Estado, decepciona e afasta o povo da participação política, levando-o ao desprezo, perplexidade, cansaço, revolta, e ao descrédito generalizado, não somente pelos políticos, mas também pelas Instituições Públicas.” (grifos meus)
Se é assim na política, será que não podemos dizer o mesmo a respeito de religião? Será que a reticência da Igreja em punir devidamente os padres pedófilos não favorece que tais crimes continuem a acontecer com tamanha frequência, além de erodir a imagem da instituição diante de seus fiéis? Por que excomungar a mãe que permitiu que sua filha de nove anos abortasse (não estou dizendo que, pelos princípios católicos, ela não deveria ser excomungada), mas não aqueles sacerdotes que, explorando a confiança que seu cargo inspira (e que é a Igreja que lhes concede), abusam sexualmente dos jovens que estão sob sua tutela espiritual? “O papel da Igreja não é punir”, alguns dirão, “pelo menos não mais”, eu acrescentaria. Mas eu já me daria por satisfeito se esses sacerdotes fossem definitivamente desligados de suas funções, de modo a evitar o contato deles com os fiéis em situação de vulnerabilidade psicológica. Em verdade lhes digo, a excomunhão poderia ser uma punição exemplar.
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