Montagem/tropicalismo

Postado em February 28, 2010
Categoria MPB, reflexão | 1 comentário

“Dois pedaços de filme de qualquer tipo, colocados juntos, inevitavelmente criam um novo conceito, uma nova qualidade, que surge da justaposição. Esta não é, de modo algum, uma característica peculiar do cinema, mas um fenômeno encontrado sempre que lidamos com a justaposição de dois fatos, dois fenômenos, dois objetos. Estamos acostumados a fazer, quase que automaticamente, uma síntese dedutiva definida e óbvia quando quaisquer objetos isolados são colocados à nossa frente lado a lado.” (Sergei Eisenstein)

“O método da montagem é óbvio: o jogo de detalhes justapostos — planos em si mesmos, imutáveis a até não-relacionados, mas a partir dos quais é criada e desejada a imagem do conjunto.” (Sergei Eisenstein)

“O que, então, caracteriza a montagem e, consequentemente, sua célula — o plano?/ A colisão. O conflito de duas peças em oposição entre si. O conflito. A colisão.” (Sergei Eisenstein)

“Em vez de trabalharmos em conjunto no sentido de encontrar um som homogêneo que definisse o novo estilo [o tropicalismo], preferimos utilizar uma ou outra sonoridade reconhecível da música comercial, fazendo do arranjo um elemento independente que clarificasse a canção mas também se chocasse com ela. De certa forma, o que queríamos fazer equivalia a ‘samplear’ retalhos musicais, e tomávamos os arranjos como ready-mades.” (Caetano Veloso)

“A montagem é a capitulação intra-estética da arte perante o que lhe é heterogêneo. A negação da síntese torna-se princípio de configuração.” (Theodor Adorno)

“Furando a maré redundante de violas e marias, a letra de ‘Alegria, Alegria’ traz o imprevisto da realidade urbana, múltipla e fragmentária, captada, isomorficamente, através de uma linguagem nova, também fragmentária, onde predominam estilhaços da ‘implosão informativa’ moderna: crimes, espaçonaves, guerrilhas, cardinales, caras de presidentes, beijos, dentes, pernas, bandeiras, bomba ou Brigitte Bardot. É o mundo das bancas de revista, o mundo de tanta notícia, isto é, o mundo da comunicação rápida, do mosaico informativo de que fala Marshall McLuhan. Nesse sentido, pode-se afirmar que ‘Alegria, Alegria’ descreve o caminho inverso de ‘A Banda’. Das duas marchas, esta mergulha no passado, na busca evocativa da pureza das bandinhas e dos coretos da infância. ‘Alegria, Alegria’, ao contrário, se encharca de presente, se envolve diretamente no dia-a-dia da comunicação moderna, urbana, do Brasil e do mundo.” (Augusto de Campos)

“Tinha que ser uma marchinha alegre, de algum modo contaminada pelo pop internacional, e trazendo na letra algum toque crítico-amoroso sobre o mundo onde esse pop se dava. O esquema de retrato, na primeira pessoa, de um jovem típico da cidade (o Rio, agora), com fortes sugestões visuais, criadas, se possível, pela simples menção de nomes de produtos, personalidades, lugares e funções era o ideal para os novos propósitos. Entre as imagens eleitas, a menção à Coca-Cola como que definia as feições da composição: inaugural e surgindo ali como não-intencionalmente, a Coca-Cola fez com que se recebesse ‘Alegria, alegria’ como um marco histórico instantâneo”. (Caetano Veloso)

“Contra tal subjetivização [do impressionismo] protesta a montagem, descoberta na colagem dos cortes de jornais e coisas semelhantes, nos anos heróicos do cubismo. A aparência da arte deve romper-se, enquanto a obra introduz em si as ruínas literais e não fictícias de empiria, reconhece a rotura e a transforma em efeito estético. A arte quer confessar a sua impotência perante a totalidade do capitalismo tardio e inaugurar a sua supressão.” (Theodor Adorno)

“Arriscando um pouco, talvez se possa dizer que o efeito básico do Tropicalismo está justamente na submissão de anacronismos desse tipo, grotescos à primeira vista, inevitáveis à segunda, à luz branca do ultramoderno, transformando-se o resultado em alegoria do Brasil. A reserva de imagens e emoções próprias ao país patriarcal, rural e urbano é exposta à forma ou técnica mais avançada ou na moda mundial — música eletrônica, montagem eisensteiniana, cores e montagem do pop, prosa de Finnegans wake, cena ao mesmo tempo crua e alegórica, atacando fisicamente a plateia. O resultado da combinação é literalmente um disparate — é esta a primeira impressão — em cujo desacerto porém está configurado um abismo histórico real, a conjugação de etapas diferentes do desenvolvimento capitalista. São muitas as ambiguidades e tensões nesta construção.” (Roberto Schwarz)

“Aliás, este fundo de imagens tradicionais é muitas vezes representado através de seus decalques em radionovela, opereta, cassinos e congêneres, o que dá um dos melhores efeitos do tropicalismo: o antigo e autêntico era ele mesmo tão faminto de efeito quanto o deboche comercial de nossos dias, com a diferença de que está fora de moda.” (Roberto Schwarz)

“O princípio estilístico do livro [Alexandersplatz, de Döblin] é a montagem. Material impresso de toda ordem, de origem pequeno-burguesa, histórias escandalosas, acidentes, sensações de 1928, canções populares e anúncios enxameiam nesse texto. A montagem faz explodir o ‘romance’, estrutural e estilisticamente, e abre novas possibilidades, de caráter épico. Principalmente na forma. O material da montagem está longe de ser arbitrário. A verdadeira montagem se baseia no documento. Em sua luta fanática contra a obra de arte, o dadaísmo colocou a seu serviço a vida cotidiana, através da montagem. Foi o primeiro a proclamar, ainda que de forma insegura, a hegemonia exclusiva do autêntico. Em seus melhores momentos, o cinema tentou habituar-nos à montagem. Agora, ela se tornou pela primeira vez utilizável para a literatura épica. Os versículos da Bíblia, as estatísticas, os textos publicitários são usados por Döblin para conferir autoridade à ação épica. Eles correspondem aos versos estereotipados da antiga epopeia.” (Walter Benjamin)

“A canção que Gil escolhera para apresentar o ainda não nomeado tropicalismo ao público do festival era uma adaptação de temas básicos da capoeira ao método harmônico de cortes bruscos como sustentação da narrativa fortemente visual, na letra, de um crime passional ocorrido entre gente humilde num domingo em Salvador. Enquanto minha canção se referia a estrelas de cinema (Brigitte Bardot, Claudia Cardinale), o ‘Domingo no parque’ fora concebido quase como um filme.” (Caetano Veloso)

“Da mesma forma que a excelente letra de Gilberto Gil para ‘Domingo no Parque’, a de Caetano Veloso tem características cinematográficas. Mas, como me observou Décio Pignatari, enquanto a letra de Gil lembra as montagens eisenstenianas, com seus closes e suas fusões (‘O sorvete é morango – é vermelho / Oi girando e a rosa – é vermelha / Oi girando, girando – é vermelha / Oi girando, girando – Olha a faca / Olha o sangue na mão – ê José / Juliana no chão – ê José / Outro corpo caído – ê José / Seu amigo João – ê José’), a de Caetano Veloso é uma ‘letra-câmera-na-mão’, mais ao modo informal e aberto de um Godard, colhendo a realidade casual ‘por entre fotos e nomes’”. (Augusto de Campos)

“Compare-se a tela em que se projeta o filme com a tela em que se encontra o quadro. Na primeira, a imagem se move, mas na segunda, não. Esta convida o espectador à contemplação; diante dela, ele pode abandonar-se às suas associações. Diante do filme, isso não é mais possível. Mas o espectador percebe uma imagem, ela não é mais a mesma. Ela não pode ser fixada, nem como um quadro nem como algo de real. A associação de ideias do espectador é interrompida imediatamente, com a mudança da imagem. Nisso se baseia o efeito de choque provocado pelo cinema, que, como qualquer outro choque, precisa ser interceptado por uma atenção aguda. O cinema é a forma de arte correspondente aos perigos existentes mais intensos com os quais se confronta o homem contemporâneo. Ele corresponde a metamorfoses profundas do aparelho perceptivo, como as que experimentam o passante, numa escala individual, quando enfrenta o tráfico, e como as experimenta, numa escala histórica, todo aquele que combate a ordem social vigente.” (Walter Benjamin)

“É questionável, no entanto, a possibilidade de se atribuir ao procedimento artístico da montagem também um significado político. Contra isso depõe o fato de a montagem ter sido utilizada não só pelos futuristas italianos, de quem em absoluto não se pode dizer que tivessem pretendido abolir o capitalismo, como pelos vanguardistas russos depois da Revolução de Outubro, trabalhando numa sociedade socialista em construção.” (Peter Bürger)

Referências bibliográficas

ADORNO, Theodor W. Teoria estética. Tradução Artur Morão. Lisboa: Edições 70, 2006.
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. Tradução Sergio Paulo Rouanet. 7ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. Obras escolhidas, vol. I.
BÜRGER, Peter. Teoria da vanguarda. Tradução José Pedro Antunes. São Paulo: Cosac Naify, 2008.
CAMPOS, Augusto de. “A explosão de ‘Alegria, alegria’”. In: Balanço da Bossa e outras bossas. 5ª ed. São Paulo: Perspectiva, 1993.
EISENSTEIN, Serguei. “Palavra e imagem”. In: O sentido do filme.Tradução Teresa Ottoni. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002.
————— . A forma do filme. Tradução Teresa Otonni. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002.
SCHWARZ, Roberto. “Cultura e política, 1964-1969”. In: O pai de família e outros ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
VELOSO, Caetano. Verdade tropical. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

Comentários

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1 Comentário »

2010-03-01 03:57:34

Este post tem como função evidenciar as fontes que me serviram de referência no meu estudo sobre as letras das canções tropicalistas. Não o fiz no próprio texto para não deixá-lo saturado de citações, nem com uma cara muito acadêmica.

 
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