A MPB na ABL?

Postado em February 19, 2010
Categoria MPB, reflexão | Comente

Uma das discussões mais recorrentes em nosso meio é sobre os limites entre letra de música e poesia; tal discussão se manifesta geralmente nos seguintes termos: letra de música é poesia? No Brasil, tal discussão se faz frequente devido à grande qualidade atingida por nossos compositores em suas letras, penso que pelo menos desde Noel Rosa. Mas, definitivamente, não há um consenso (é claro, pois do contrário a discussão não seria recorrente). O poeta e professor de literatura Eucanaã Ferraz, por exemplo, organizou uma coletânea que inclui entre os versos de Carlos Drummond e João Cabral aqueles tirados das canções de Gil, Chico, Caetano etc. A coletânea, publicada em 2005 pela Objetiva, chama-se Veneno antimonotonia — título tomado de uma canção de Cazuza, “Todo amor que houver nessa vida”, e que deu nome também a um ótimo álbum de Cássia Eller, de 1997. Por outro lado, o também poeta Bruno Tolentino, bastante apreciado por alguns dos meus vizinhos do Breviário, mostrou em uma entrevista concedida ao Jornal de Poesia sua preocupação em educar os filhos num país em que Caetano Veloso era ensinado às crianças ao lado de Olavo Bilac; diz o provocador:

“Se fizerem um show com todas as músicas de Noel Rosa, Tom Jobim ou Ary Barroso, eu vou e assisto dez vezes. Mas saio de lá sem achar que passei a tarde numa biblioteca. Não se trata de cultura e muito menos de alta cultura. Gosto da música popular brasileira e também da de outros países, mas a música popular não se confunde com a erudita. Então, como é que letra de música vai se confundir com poesia?”

Pessoalmente, acho que a distinção entre cultura erudita e popular não faz mais tanto sentido hoje quanto fez em dias remotos, mas também não acho que os âmbitos em debate, poesia e letra de música, devam ser integrados de maneira irrefletida. Tão pouco liquida a questão o fato de poesia e canção terem uma mesma origem e continuarem indissociáveis em culturas, digamos, arcaicas; assim como é inútil evocar os exemplos da poesia grega antiga, dos trovadores de Provença ou mesmo dos poetas românticos, que se voltaram para as formas do cancioneiro popular, dando-lhes uma configuração mais sofisticada. Inútil porque a questão atualmente é outra, porque a poesia é outra. Desde que a poesia iniciou o processo que a levaria à liberdade diante das formas fixas, que tinham sua origem na música e na oralidade, conquistou uma gama enorme de possibilidades técnicas; além disso, ao tornar-se algo que não é mais feito para a recitação pública, mas para a leitura silenciosa e concentrada, a poesia ganhou também em possibilidades cognitivas, podendo explorar melhor as sutilezas e ambiguidades de seu conteúdo.

Por essas conquistas da poesia moderna, acho que a questão aparece deslocada quando se apresenta em termos de identidade ou semelhança entre poesia e canção; é como se o que estivesse em jogo fosse uma essência da poesia que se manifestasse igualmente nas letras de música quando bem realizadas. Não creio que uma ontologia das formas de expressão literária possa nos levar para muito longe do beco sem saída que nos encontramos hoje ao abordar tal assunto. Para mim, o que deveria ser perguntado é: até que ponto uma letra de canção, destituída de seu acompanhamento musical, consegue se sustentar numa leitura mais exigente? Ou ainda: até que ponto a letra de canção popular apresenta, de maneira satisfatória, procedimentos técnicos e possibilidades interpretativas que nos permitam incluí-la numa discussão que trate de poesia? Há como o crítico, acostumado a lidar com os cânones da poesia, orientar seu arsenal analítico e metodológico para a letra de uma canção popular sem sentir que está diante de uma expressão artística menor? Esta é a questão sobre a qual pretendo me debruçar nos próximos posts.

Comentários

RSS feed

Comentários »

Nenhum comentário.

Nome (obrigatório)
E-mail (obrigatório - não será publicado)
URI
Seu Comentário
Você pode usar <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong> em seu comentário.