Noturno

Postado em July 25, 2009
Categoria poesia | 4 comentários

A nata do sol se desfaz
num clarão esmaecido e
sobre as águas entorpecidas
que fiam macias o lodo doce
as engrenagens da via-láctea
se põem em movimento triturando
o vidro trêmulo das estrelas.

Nuvens de pássaros em pânico
desaparecem no volátil violáceo
azougue da noite entre escombros
de constelações, ruínas reluzentes
de antigos signos.

As pessoas voltam para casa
imersas num devaneio turvo
e as casas, paredes caiadas
de escaras, se arrastam pela rua
que se estende até a praça da
Matriz onde a cidade dá um nó cego
estancando o labirinto; carros
escorrem pelo ralo das esquinas
e mariposas bailarinam
em torno de uma lâmpada pálida.

Vísceras vicejantes, a hera
digere lentamente uma casa
e as primeiras chispas do orvalho
crepitam sobre a calha, cristalinas.

Num jardim pulsam rosas
encardidas, cardíacas,
eriçadas em espinhos
como fios desencapados,
rosas cúpricas, escuras,
destilando perfume
e ferrugem, rosas
em farrapos de pétalas
como lábios leporinos.

O luar disseca o horizonte
entulhado de montanhas
e a seda fluida da neblina
se alastra alabastrina pelas
ruas, submergindo os postes
como mastros de um naufrágio
regular; as dozes badaladas
desabam sobre as casas
dispersando os pensamentos.

Gota a gota, a madrugada
vai diluindo o dia das pessoas,
dissolvendo as vozes no silêncio,
enquanto as coisas, vacilantes,
soçobram nas sombras,
nas cinzas da lembrança,
desaparecem úmidas de sono…

Comentários

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4 Comentários »

2009-07-25 19:59:38

Esta é a versão mais atualizada do poema. Não estou bem certo se é isso mesmo, mas está quase lá. Resolvi tirar a referência a Carmo de Minas para deixar o poema mais solto para o leitor; afinal de contas, Carmo de Minas não é uma cidade muito diferente de outras tantas do interior.

 
Emmanuel
2009-07-26 09:30:20

Brincando de jogo dos sete erros… Mexi no poema de novo. Coisa pouca.

 
2009-08-01 04:01:07

Divino, Emmanuel. Vontade de comer o seu poema: parti-lo com as mãos como um pão e levá-lo à boca aos pedaços, e deixá-lo derreter na boca, sentindo a viscosidade do trigo como se sente o desfazer de uma hóstia na boca, crua, sem vinho. O seu poema é uma hóstia jamais abençoada. Hóstia sagrada no trigo, não nos altares. Que delícia, amém.

Emmanuel
2009-08-02 04:28:57

Obrigado pelos elogios entusiasmados, Lorena! Espero que o poema faça realmente jus a eles.

 
 
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