Dos anais da história literária

Postado em February 11, 2009
Categoria poesia | 2 comentários

Enquanto Valéry
jogava com o acaso
e roubava nos dados
(os dados viciados de
Mallarmé), Paul Verlaine
comia o rabo de Rimbaud.

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2 Comentários »

2009-03-15 16:56:51

Estou para comentar seu poema: em chave completamente diversa daquela que você cultiva — embora pudéssemos discutir até que ponto vai esta “diversidade”, tendo-se em consideração não apenas a “aparência formal” (expressão inexata…) mas também o que esta forma comunica —, este poema passaria facilmente como um epígono da poesia “marginal” brasileira dos 1970, no que ela tinha de mais refinado.

Não sei até que ponto a iconoclastia com os cânones franceses é “novidade” em si mesmo, mas isso não tira os méritos do poema. Só queria fazer uma pequena sugestão — embora saiba que você é muito mais atento ao objeto-poema do que eu — que, creio, traria ainda mais fomento ao poema: se o primeiro verso fosse “Enquanto Paul Valéry”? Deste modo, as associações entre mestre-discípulo teriam sua paranomásia (PAUL VaLéRy / PAUL VeRLaine) reforçada — sim, uma associação invertida, posto que Valéry é discípulo de Mallarmé e, ao contrário, Verlaine é “mestre” de Rimbaud. Além disso, os sobrenomes de Mallarmé e Rimbaud — únicos no poema assim mencionados — reforçariam-se como poetas de maior destaque — sei, é discutível — e reconhecimento do que Valéry e Verlaine.

Na ciranda das letras de dados (viciados), às vezes quem é comido surpreende até quem o come — Rimbaud que o, sempre, diga. Ainda é possível jogar com o acaso?

 
2009-03-16 02:45:29

Renan, este é um poema sem muitas pretensões; fi-lo simplesmente como um exercício, como pastiche de poema piada. Mas, de certa forma, não deixa de ser um tanto auto-irônico, na medida em que Mallarmé e Verlaine tem algo que ver com a minha poesia – mas não procurei nenhuma novidade nele; é um pastiche que se quer absolutamente convencional, tanto na forma sintética, quanto no trocadilho (que eu realmente detesto), no humor grosseiro e fácil. Também não pretendia que o tema tivesse qualquer novidade. Já a relação com a poesia marginal faz todo o sentido.

Quanto à repetição do “Paul”, cheguei a considerar a questão, dado que sou muito chegado a simetrias, mas o resultado não me soou bem ao ouvido interno, assim como a exclusão do “Paul” de Verlaine também chegou a ser cogitada. Do modo como está, pareceu-me mais “redondo”, e costumo obedecer ao meu ouvido intermo, mesmo quando ele me obriga a abrir mão de sugestões interessantes. Não sei se me explico direito: assim, como está, o poema me parece mais “certo”, ritmicamente falando, ainda que eu não saiba explicar bem esse meu ouvido interno, que costumo creditar à experiência acumulada durante esses anos como poeta.

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