Reflexão sobre o cristal
Postado em August 19, 2008
Categoria poesia |
Observo o cristal:
o lampejo, sua língua
de relâmpago, labareda
em que as coisas se consomem
sem calor, límpida fagulha.
Observo o cristal
e o cristal disseca
os meus olhos, dissolve
os meus nervos retesos
em estado de pânico, o
cristal bebe os meus olhos.
Se observo o cristal,
o meu olhar toca
o cristal, e a sua textura
é um quase textura,
textura nenhuma.
Observo o cristal, esse
espesso vazio, abismo
adensado em superfície,
onde a vertigem, estática,
consiste no suspense;
espessa assepsia.
Observo o cristal
pressentindo o preciso
palpitar de um relógio; ad
miro o cristal: o seu tenso
silêncio, a fibra quebradiça.
A quem puder interessar, continue acompanhando a discussão nos comentários do “Origami”.
Interessante notar como os processos da sua poesia vão se repetindo e se decantando. Neste seu poema parecem ter se sintetizado os esquemas de vários outros, como o “Invenção do Fogo”, o “Origami” e outros, embora ache estes últimos mais interessantes e vivos, talvez porque a repetição dos mesmos processos em diferentes poemas ofusque um pouco do brilho dos poemas posteriores. A plena consciência de tais processos também pode levar a sua “cristalização” em fórmula, tome cuidado. Mesmo assim gostei do poema: ainda há algo de fresco nele, você tem um gosto notável para imagens.
Danilo,
Essa questão da cristalização em fórmula, eu já havia me atentado para ela. Mas senti a necessidade de escrever esse poema assim mesmo.
Obrigado pelo comentário!
Lembra-me um pouco (um pouco) o que você faz: http://www.eucanaaferraz.com.br/poema_05.html
Preciso ler melhor os últimos passos da discussão para entender os poréns que me restam. O post do Origami pode se tornar o fórum oficial sobre a poesia de Emmanuel Santiago.
Valeu pela dica, Lorena. Gostei bastante da poesia do Eucanaã.
ps: Eu digitei uma língua (dois-pontos-e-pê), não esse sorrisinho ridículo.