Origami

Postado em August 8, 2008
Categoria poesia |

De papel de seda finíssimo
fiz o teu corpo: fibra a fibra
modelada na pétala, forma
de pura textura e volume.

Sobre a límpida e mínima
película, moldei os teus seios
em torneios e volutas,
lívidos torvelinhos,

e os dedos se dedicaram
a cada minúcia sinuosa
na delicada dobradura do
sexo, desdobrando lábios
em abismos, labirintos.

Assim te concebo: nua
e toda nuances, criada
da lâmina de sal e espuma
do mar, como as ondas

que se espiralam peroladas
durante a queda (tens
a idêntica consistência
de uma onda do mar).

Comentários

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14 Comentários »

2008-08-08 23:16:19

Eis um poema belo, belíssimo; erótico-sensual, erótico-afetivo, preciso e delicado, perfeito origami.

Forma e afeto elaborando poesia. Porque não se é poeta só sendo virtuose, tem que ter também algo de vicioso, e aí o amor chega bem!
Trocadilho barato à parte…

Emmanuel
2008-08-11 17:33:55

Lorena,

Cada vez mais vejo que aquilo o que você procura na minha poesia é “mimese” - e aí não vai uma crítica. Você se aproxima da minha poesia mais pelos temas, mais pelo enunciado do que pela enunciação. O afeto que você vê em certas poesias não é tanto o que está envolvido no momento da composição do poema (mesmo porque alguns poemas levam meses para serem escritos, esse em especial um ano, o que tornaria impossível a manutenção de um mesmo estado de espírito ao longo de todo o processo de composição). O poema que lhe parece “vivo” ou afetuoso o é por afinidade temática, porque ele atualiza aqueles temas com os quais você identifica a poesia. Como eu disse, isso não é uma crítica. Só estou dizendo que é uma forma de ver a poesia que às vezes pode não dar certo comigo, porque não abarca a totalidade da minha produção que muitas vezes se quer abstrata, que não está interessada numa “mimese” da vida, de afetos ou do que quer que seja.

De qualquer modo, é sempre interessante receber os seus feedbacks, mesmo porque eles sempre me dão a oportunidade de “formar” um pouco o meu público, de apresentar aos meu leitores, poucos mas fiéis, o meu projeto de criação. Mas o que de mais proveitoso eu encontro nos seus comentários é mesmo essa perspectiva de um “outro”, que não sou eu e que, certamente, não é também aquele “leitor ideal” para quem eu escrevo. Você me conscientiza que, cada vez mais, eu escrevo para um leitor ideal. Não sei se isso é bom, mas estou disposto a correr o risco.

 
 
Emmanuel
2008-08-11 17:51:11

Aproveitarei um pouco este espaço para falar deste poema. Eu o fiz para dá-lo de presente de aniversário para a minha companheira, com quem vivo já tem um bom tempo. Para conseguir concluí-lo no prazo, tive de começá-lo um ano antes, período no qual eu o retomei repetidas vezes e no qual ele passou por repetidas versões até chegar ao que é hoje.

Tenho a pretensão, ou a ilusão, de ter resvalado na perfeição (uma perfeição relativa, é claro) umas três vezes. Quando digo que se trata de uma perfeição relativa, assim considero porque tais poemas satisfazem completamente as minhas expectativas atuais como criador, fazendo com que eu os considere irretocáveis. Portanto, eles são “per-feitos”, feitos completamente, e não há mais o que fazer neles, pelo menos não da parte de seu autor.

Os poemas que assim considero são o “Soneto caixa de música”, o “Ponto de fuga” e o “Origami”. Em cada um deles, à sua maneira, eu alcancei e consegui concretizar um ideal de poesia que eu vinha perseguindo até então. Neles também se verifica o ápice da minha habilidade técnica no período em que eu os havia escrito. São os três uma “vertigem de virtuose”.

 
2008-08-13 19:54:50

“Você se aproxima da minha poesia mais pelos temas, mais pelo enunciado do que pela enunciação”

Não é verdade. É quase o oposto. O que eu acho da sua poesia é que se trata em alguns momentos de enunciação (quase) sem enunciado, ou com enunciados parcos, desinteressantes. E não acho que isso se deva a eu me interessar por um número restrito de temas, pois é bem o contrário, eu sou mesmo “facinha” para me agradar de objetos. Você deu a entender, muito sutilmente, que eu gosto do Origami por ser um poema afetivo, erótico, e, se isso é verdadeiro, não tem nada a ver com a emoção que você sentia quando o compôs, mas com o que o poema consegue ser, de fato, autônomo, com ou sem Emmanuel-escrevendo-para-sua-esposa.

Mas isso não acontece com todos. Eu saio de alguns de seus poemas com a sensação de: nada. De fato, a exultação que você tem a partir deles, que é certamente legítima, não se opera em mim. Você diz que o problema está na minha leitura, eu digo que o problema está na minha leitura e nos seus poemas concomitantemente, um agindo sobre o outro, ambos agredindo-se.
Eis uma brecha, aliás, para comentar o conto “O Filantropo”. Lançarei mão de uma fala do Vinícius: achei-o oco. Porque ao que parece você aplicou princípios de poesia a prosa. Só que o signo linguístico da narrativa não se quer esquivo e obscuro como a palavra poética. O seu conto resultou num poema seu aberto, espraiado, como passado sob rolo compressor: oco, parco. Não chegando a ser um texto desprezível, daqueles que a gente lê e quer metralhar uma creche pinhada de criancinhas. Mas também não é genial como o conto que nos faz querer metralhar a creche pinhada de criancinhas. Se é que me faço entender…

O Diego me falou de uma explicação que você deu, de que o conto mimetiza o ato do sexo oral, mas, veja, pelo menos no meu entendimento isso sozinho escreve um poema, não um conto! Pode até constar significativamente num texto em prosa, mas que tenha algo no meio, alguma coisa DITA.
O que você tem a dizer, Emmanuel? Concretamente? Pois isso quase não consta nos seus poemas.

 
2008-08-13 19:58:58

(É incrível quantas vezes já se conversou sobre isso, e quantas vezes o assunto ressurge, e o quanto parece que sempre as mesmas coisas são ditas!…)

 
2008-08-14 22:30:19

Ah, eu reli meu comentário agora e fiquei a temer que uma longa crítica como essa talvez devesse ter ido por e-mail, não no seu espaço público. Desculpe-me se tiver sido inconveniente.

Mas torno a escrever mais para dizer que reli alguns dos seus poemas e não tive dúvida do seu talento de poeta. A crítica que eu fiz acima se aplica sobre uma nuance ínfima, conquanto essencial, que para mim aparta os seus poemas da perfeição. Mas é isso: a crítica é dizer que o bom podia ser perfeito. Mesmo os poemas de que eu por assim dizer não gosto, ficou certo agora, são bons. O que me incomoda é a sua dicção e o excesso de assepsia. Sinto por eles um incômodo estilístico e não os adoro, mas não há negar que são bons.

Emmanuel
2008-08-15 19:09:34

Lorena,

Não se faça de rogada pelos seus cometários. Pode ter certeza de que não fiquei chateado, nem surpreso. Houve alguns equívocos de comunicação; acredito que das duas partes. Mas não me furto a responder às suas questões, e espero respondê-las todas. Se alguma coisa ficou de fora, pode lembrar.

Quando eu disse que você se aproxima das minhas poesias pelo enunciado, acho que você não entendeu extamente o que eu quis dizer, pois o que você disse só comprova a minha visão. Você gosta (se aproxima) dos meus poemas quando eles parecem lhe dizer alguma coisa significante, que corresponde às suas expectativas como leitora de poesia, e não dada a realização concreta deles. Os outros, independentemente se são bem sucedidos ou não, você os classifica como “ocos”. Eu prefiro “abstratos”. O que não quer dizer que os meus poemas “não-ocos”, quando mal realizados, agradem a você; acredite, não faço pouco da sua sensibilidade como leitora.

Poemas como o “Ponto de fuga”, por exemplo, não são “ocos”, pois possuem um conteúdo muito bem definido. Eles são abstratos e, na verdade, muitos poemas meus são escritos justamente para frustar algumas expectativas da maioria dos leitores. Quando um poema meu parece fechar-se sobre si mesmo, isso não se deu por uma falha da minha parte, mas pelo contrário: fecham-se sobre si mesmos, parecem vazios de significação, porque assim eu os quis fazer.

Colocando tudo de forma bem clara, esperando que não haja mal entendidos: acho, de fato, que você tem uma expectativa “mimética” da poesia. No caso da lírica, a “mimese” pode ser tanto de “afetos” quanto de “objetos”. Mas há poemas meus que têm por “objeto” justamente o próprio processo de composição, portanto têm, sim, conteúdo; mas certamente não é um conteúdo que você reconhece como sendo poético. Estou dizendo que você não reconhece o abstrato como sendo poético, e quando digo abstrato não estou falando de objetos que não podem ser tocados ou sentidos, mas da própria “não-figuratividade”, do mesmo modo como se pode falar de “pintura abstrata”.

Aliás, nunca falamos sobre isso, e eu não sei se você gosta de pintura abstrata. De todo modo, eu gosto, e gosto muito. Veja-se o caso do meu “Soneto branco”; o que ele narra é uma busca pelo abstrato, por isso termina com aquele “Quadrado branco sobre fundo branco”, que é uma obra de Malevitch, um dos meus pintores favoritos. O que o eu quis dizer com esse soneto é que o meu ideal de poesia agora se encontra na mais radical abstração, como esta pode ser encontrada na referida obra de Malevitch.

Espero ter me feito entender agora: você aprecia na minha poesia sobretudo aquilo o que é mimético; nisso consiste o seu critério de gosto. Se um outro poema, não mimético, parece-lhe bem realizado, não é por causa disso que você vai gostar dele, embora reconheça haver nele algum valor puramente formal, “enunciação (quase) sem enunciado”. Talvez “bem realizado” nem seja o termo certo, pois para você, quem sabe, um poema nessas condições não foi realizado de uma maneira satisfatória. Mas só quero sublinhar: se eles são “ocos”, assim eles são porque eu o quis, e não porque alguma coisa saiu errada durante a composição.

Na verdade, o “Rima incidental” nasceu como um projeto de um livro puramente metalingüístico, em que o enunciado refletisse sempre a enunciação, e nada mais. O que acontece, entretanto, é que alguns projetos do passado acabaram voltando, e eu já encontrava os meios técnicos para concluí-los. Com isso, surgiu uma outra tendência dentro do livro, tendência essa que acabou gerando novos poemas. Mas o projeto incial era de que o livro seria apenas feito de experimentações formais. Poemas como o “Entropia”, portanto, são um desvio do caminho pré-traçado, mas eu não me ressinto deles, ao contrário: orgulho-me bastante, pois eles provam que, se eu quiser, eu posso fazer um poema que atenda às expectativas dos leitores que nutrem uma visão romântica da poesia (romântica não no sentido ingênuo do termo, mas Romântica, relacionada ao Romantismo) que eu penso sinceramente ser o seu caso. Se eu não o faço, é porque não o quis.

Muitos poemas eu escrevo no intuito de frustrar tais expectativas, e é muito natural que você se manifestasse contrariamente a eles, pois, de certa forma, você representa o “anti-leitor” dos meus poemas. Por isso gosto tanto de receber os seus comentários e, às vezes, provocá-la um pouco, como no meu comentário anterior, pois você me dá um parâmetro necessário. Fazendo uma analogia, um poeta que explora a “estética do choque” não recebe uma boa resposta se ninguém se choca com os poemas dele. Do mesmo modo, se o leitor contra quem eu me volto polemicamente com a minha poesia gostasse sempre dela, eu não estaria sendo bem sucedido no meu propósito de romper com o ranço romântico que, a meu ver, persiste na poesia. Nada contra o Romantismo, eu mesmo gosto muito dele, o meu problema é com ele alçado a critério único de valor poético; e com isso que eu quero romper. Toda ruptura busca o contrário do consenso.

Não espero agradar você sempre com a minha poesia, e em muitos casos chego a ficar satisfeito em desagradá-la. Se às vezes pareço ser mais energégico em minha defesa é que não quero que os meus poucos leitores pensem que compartilho com o ponto de vista que você adota com relação à minha poesia e passem a avaliá-la de acordo com ele. O que eu quero é sempre demarcar a diferença, mostrar que eu coloco outros critérios em jogo quando escrevo, e que eu não concordo com você no que se refere à sua visão da poesia. Fico feliz em poder ter sempre um diálogo franco com você, sem diplomacia inútil (pois há a útil) mas também sem sarcasmo ou ironia, pois isso para mim é o contrário de uma relação respeitosa.

Discordâncias às partes, você me dá sempre uma resposta muito preciosa dos meus poemas, apesar e principalmente por causa da sua teimosia em não querer entender alguns dos meus poemas pelos critérios deles mesmos, e não unicamente pelos seus critérios pessoais, pois não sinto da sua parte uma disposição para se desfazer por alguns instantes dos seus critérios e considerar os meus, o que eu tenho sempre feito com relação à sua poesia [se alguém não conhece o blog da Lorena, é o “Ricto”, relacionado como link]. Bom, mas o mundo não é justo e, além do mais, se algum dia você milagrosamente se “convertesse” à totatlidade da minha poesia eu perderia um parâmetro necessário para mim.

Sem nenhuma ironia, obrigado pelo cometário!

 
 
2008-08-15 19:32:15

Ah, esqueci-me do conto!

Devo dizer, de saída, que não concordo com você quando diz “o signo linguístico da narrativa não se quer esquivo e obscuro como a palavra poética. Por que não? Sou contrário a qualquer “a priori”. E o que me diz do Raduan Nassar de “Um copo de cólera” ou de “Lavoura arcaica”? Quem pode dizer o que o signo lingüístico da narrativa quer de si mesmo? Isso dependerá do signo, da narrativa e do autor. Sou contra leis estabelcidas de antemão.

No mais, não acho que os signos lingüísticos do meu conto sejam esquivos e obscuros. Eles são muito claros. E o Diego entendeu-me mal sobre o sexo oral; eu disse “fixação oral”, termo psicanalítico. As imagens são amarradas pela fixação oral do “filantropo”. Foi uma maneira de colocar a subjetividade da personagem que não é “vista”. Eu não evoco a personagem, nem por pronome. A maioria das imagens são projeções da subjetividade dessa personagem e antecipa a ação do conto.

Não há um sentido implícito a ser captado no conto, não que eu saiba.

No mais, o que posso falar é que, como prosador, eu ainda me sinto num estágio “pré-genealógico”. Estou tateando ainda e sei que o conto reflete algumas deficiências - disso resulta a diversão que eu sinto em escrever prosa, pois me sinto explorando algo novo. É o tipo de coisa que só se sana com a prática. Mas os defeitos do conto não devem ser atribuídos a um “hermetismo” que o conto não pretende.

 
2008-08-18 20:33:10

“O que você tem a dizer, Emmanuel? Concretamente? Pois isso quase não consta nos seus poemas.”

Pois é, a palavra em destaque aponta o âmago da nossa discordância: eu esperando de você enunciados concretos, enquanto o seu próprio desafio é compor poesia sobre a não-figuratividade… Entendi, entendi. Pelo menos com a cabeça, teoricamente, entendi.

Só queria esclarecer mais duas coisas: uma, que eu de fato acho poesia metalinguística chata, mas isso nem é o que mais me aparta dos seus poemas (eu gosto, por exemplo, do “Fábula de Fabergé”). O que mais me afasta dos seus poemas parece ser mesmo o hermetismo. Ainda (AINDA, depois de tanta discussão) pergunto-me se alguns significados que você atribui a poemas/versos/imagens não existem só na sua cabeça. Isto é, eu, leitor comum, não estou pescando a mensagem; leitor ingênuo ou poema-enigma? Gosto de pensar que você tem uma mente brilhante e está antevendo aquilo que os seus contemporâneos renegam como possível interpretação semiótica, mas que os futuros louvarão como uma escrita precisa e acertada. Honestamente torço por isso. Vou ficar feliz, no futuro, de ter alçado a bandeira da discórdia contra o bom e o justo (tipo Olavo Bilac dizendo, à morte de Augusto dos Anjos: ‘não se perdeu grande coisa’).
Também, o seu excesso de assepsia às vezes faz brochar a ascese. Em momentos diversos já presenciei, por exemplo, seu rigor etimológico ao escolher ou criticar as palavras de um texto, em que repetições de significado mesmo que remotas não são permitidas, etc. Fico pensando se não é de um pouco de “sujeira” que eu sinto falta na sua poesia - sujeira como na escrita do Vitor.

Tinha mais alguma coisa em mente para dizer, mas esqueci.

Também não nego que eu seja uma Romântica com direito a muito spleen, charutos e tudo mais. O problema é que daqui a pouco eu completo os 21 invernos gélidos e deprimidos (sou da 3a fase) e ainda não morri!

Boa sorte nessa sua empreitada maluca, Emmanuel! Quando nos encontrarmos no inferno, saberemos quem era o mais louco!

Emmanuel
2008-08-19 19:04:26

Lorena,

Parece que agora estamos entendidos então. O problema está no fato de que agora a discussão acaba, pois eu bem que estava gostando do debate.

Sobre o Nina, a poesia dele é a antípoda da minha. A sintaxe dele tem um arranjo horizontal, a minha vertical; a poesia dele é de caráter mais discursivo, a minha é “poetológica” (uso esse termo, quase patalógico, para não criar um mal entendido de que uma poesia discursiva não seja “poética”). Há também uma diferença fundamental com relação aos temas. Mas isso não impede que eu goste, e bastante, da poesia dele. Torçamos então pelo Vitor no concurso.

Um abraço!

 
 
2008-08-18 21:44:50

Ah! Falando em Vitor, o resultado do concurso foi adiado para 15/09.

 
Vinícius
2008-08-19 23:53:05

Apesar da discussão estar “encerrada”, vou meter o bedelho num ponto específico:

“O que mais me afasta dos seus poemas parece ser mesmo o hermetismo. Ainda (AINDA, depois de tanta discussão) pergunto-me se alguns significados que você atribui a poemas/versos/imagens não existem só na sua cabeça. Isto é, eu, leitor comum, não estou pescando a mensagem; leitor ingênuo ou poema-enigma?”

Uma pequena objeção: não necessariamente você, enquanto leitora, não está “pescando a mensagem”, pois por vezes a “mensagem” sequer existe. O hermetismo não pressupõe, pelo menos não no caso do Emmanuel, um corpo de símbolos e códigos decifráveis; alguns poemas dele são como os livros incompreensíveis da biblioteca de Babel: quem poderá dizer que não são escritos em uma língua tal, desconhecida? Ou seja, a mensagem do poema é, a priori, sempre o poema. Se será bom ou não, é outra história; a questão da qualidade você já reconheceu, então estamos falando sobre gostos, preferências (que, por incrível que pareça, não são muito diferentes entre mim e Lorena. Gosto das duas igrejas do Emmanuel justamente por incorporar em toda a metalingüística e vigor vocabular a construção de cenários tão objetivos quanto subjetivos.)

No meu entender (e também no do Emmanuel), é preciso explorar o poeta a escrever seu texto, imaginar os percalços por que passou, etc. Faço isso muito com Saramago, o tipo de autor que tem tudo para me desagradar. Mas não desagrada (pelo menos não em sua essência). Depois de aprender sua língua, toquei uma parte de seu gênio.

Fazer algo semelhante, fazer tal esforço, é o que impede nossas refutações (e aceitações) mais frívolas. Não vejo como, nesse tipo de leitura, alguns critérios básicos possam deixar de ser plenamente racionalizados. Se leio um poema e gosto, imediatamente me pergunto: por quê? O mesmo se dá quando não gosto. Claro que isso dura algum tempo. Para quem trabalha apenas na sensação obtida e não se propõe um trabalho extenso de raciocinar sobre as coisas, fica até curioso observar minha reação ao comentar, de saída, algo que acabei de ler. Minha impressão é que meu jeito de ser aparenta que eu tenha um parágrafo-ensaio-crítico para dizer assim que leio qualquer coisa. Exigir isso é como arrancar o feto e esperar que sobreviva.

O mesmo se dá com minhas opiniões sobre a poesia do Emmanuel, ainda muito contaminadas pelas opiniões dele próprio. A distância de agora, mais o amadurecimento da leitura, podem finalmente se converter na “opinião mais geral” que devo a ele há um bom tempo.

2008-08-22 18:23:53

Vinícius,

Muito bem observada a questão do hermetismo. Eu acrescentaria que o verdadeiro poema hermético quer-se hermético sempre; se, no futuro, a sua linguagem for assimilada e o conteúdo do poema passar a ser automaticamente decodificado, ele perdeu a sua essência, a sua substância. Deixa de ser um poema hermético para se tornar um vocabulário convencionalizado.

No meu “Ponto de fuga”, por exemplo, não me interessa que o leitor decodifique a experiência real por trás do poema, mas que este seja tomado como uma coisa em si, satisfeito em si mesmo.

Não são todos os meus poemas que pretendem dizer mais do que realmente dizem; na verdade, acho que, na maioria dos meus poemas, o sentido “extra-literal”, o conteúdo implícito, coincide plenamente com o literal. Não seria, portanto, o caso de decifrá-los. As exceções são, acho eu, o “Soneto caixa de música”, no qual a bailarina é a lua, e o “Picnic em Auschwitz” que, a despeito de sua aparência, é um poema anti-surrealista. Nesses casos, estou certo que consegui concretizar a minha intenção em elementos do texto.

Outros poemas têm um “quê” de hermetismo, como o “Entropia” e o “Uma lira para Marília”. No “Entropia”, trata-se de uma cara quimicamente alterado voltando para casa de noite, mas acho que isso fica meio óbvio como algumas pessoas já haviam me reportado antes que eu tivesse dito alguma coisa (o Diego, por exemplo). Em todo caso, acho que essa compreensão nem chega a acrescentar alguma coisa no poema, assim como a sua incompreenão não lhe subtrai nada. Um amigo meu, o Danilo, fez uma leitura muito interessante do poema como uma experiência da angústina pela ausência de Deus, embora esse não fosse o meu objetivo.

O “Uma lira” possui partes cifradas, em especial a estrofe que começa com “Como um facho…”, mas creio que, também nesse caso, não se perde nada ao tomá-la literalmente. Mas, mesmo assim, a estrofe pode ser decodificada se se atentar para o fato de que o “perolado” e o “azougue” dizem respeito ao esperma, pela cor. Nem é nada tão maluco, pois a lua, também branca, é geralmente relacionada, através da tradição, com o metálico e a pérola . A diferença é que, no meu caso, creio ter “criado”, até onde eu saiba, essa associação - além de ter elidido o termo da comparação, como num poema barroco. A mesma coisa deve ter acontecido com o primeiro cara que disse que os dentes de uma mulher se pareciam com pérolas. Portanto, a diferença entre o meu esperma perolado e a lua perolada, ou os dentes igualmente perolados, é que a minha imagem não é convencional, habitual, por enquanto.

Aliás, nem precisa ser gênio: o facho é uma figura fálica e, na tradição, tem sido utilizado como símbolo de virilidade e força, assim como o obelisco. O feixe de varas, por exemplo, era o símbolo do poder imperial na Roma antiga, símbolo retomado pelo fascismo italiano. E o que mais poderia ser uma “explosão perolada” saindo da “treva cruenta” de um sexo feminino? Não me passa outra coisa pela cabeça que não uma ejaculação. Principalmente se esse facho é comparado ao eu-lírico masculino do poema: “Como um facho, uma/ explosão perolada, rompo/ da treva cruenta do teu sexo”. O resto é conseqüência.

O que me interessa, no entanto, é que, através da elisão gradativa do refrão, repare-se que há uma perda gradativa de sentidos e, portanto, também de eloqüência, culminado numa dúvida irredutível: “Será delírio?”. O refrão, ao culminar no último verso em “delírio”, acompanha o movimento dessa perda gradual de sentidos no ato sexual, pois o que o poema descreve, de maneira até que bem explícita, é uma relação sexual, começando com o desnudar de Marília na segunda estrofe até a ejaculação na quarta (não estou contando o refrão). Acho que essa relação sexual é tão óbvia, principalmente na terceira estrofe, que seria até uma ofensa à inteligência dos meus leitores se eu tivesse que apontá-la no texto. De alguma maneira, também pensei que o hermetismo da quarta estrofe, a sua cerrada cifração, poderia ser relacioanda com a perda gradual do pensamento lógico no poema. Quando você, Vinícius, me falou que havia pensado que as imagens da quarta estrofe correspondiam a um estágio de piração do eu-lírico, fiquei tranqüilo, pois era bem isso que eu queria.

De qualquer maneira, acho que tudo isso que eu falei não precisa chegar à consciência do leitor; basta tentar apreender o poema sem procurar-lhe um sentido além daquilo o que ele diz. Ele descreve um delírio erótico, que tanto pode ser realidade quanto não, tanto faz. É só isso que o leitor precisa entender, e eu acho que isso não está oculto no poema.

O problema talvez esteja justamente em tentar procurar um algo mais, um esoterismo, um sentido oculto nele, pois eu, da minha parte, não pretendia que o poema fosse nada além de um delírio erótico e uma paródia do “Marília de Dirceu”. Mas, se, ao contrário disso, o leitor se preocupar em entender como eu cheguei ao que está escrito nele, “refazendo os meus passos”, talvez seja uma experiência gratificante para ele, mas isso não é necessário. Se procurar um sentido oculto, entretanto, é bem possível que saia frustrado.

Concluo, com a sua ajuda, Vinícius, que a minha poesia não é, de fato, hermética. Pode ser, no máximo, “difícil” no sentido que se diz que Fulano é um escritor mais difícil do que Ciclano, sem que, no entanto, Fulano seja necessariamente um escritor melhor do que Ciclano, ou vice-versa. Se escrevo difícil, não é por puro pedantismo, embora o pedantismo seja um traço de caráter meu, mas porque procuro uma complexidade lingüística para os meus poemas, uma complexidade também das idéias, mas não uma profundidade.

Acho que a profundidade é vertical, relacionada com conteúdos ocultos e sentidos extra-literais - nesse sentido, acho que o hermetismo se quer profundo. A complexidade, ao contrário, é horizontal, corresponde à minha tentativa de expressar uma idéia da forma mais precisa e justa possível (embora não de forma necessariamente clara), de maneira que todo o seu conteúdo latente, potencial, seja explicitado e verbalizado, esgotando os significados do poema em si mesmo. Isso não quer dizer que o poema não se ofereça para ser interpretado, mas o contrário: isso apenas demonstra que a interpretação de um poema deve ir além do que ele diz ou pretende dizer.

Acho que posso definir assim as minhas pretensões na poesia: tentar escrever as coisas de forma complexa, até as coisas mais simples, o que é, de certo modo, já torná-la complexa. Consiste, portanto, em, através do trabalho com a linguagem, descobrir a complexidade onde nem se suspeita que ela exista (numa mesa, por exemplo, ou numa aspirina). Mesmo, e principalmente, sabendo que essa complexidade é inventada, é uma complexidade, na verdade, da linguagem. Mas o que é a Filosofia se não encontrar nas coisas uma complexidade insuspeitada através do pensamento especulativo? A poesia, portanto, assim como a Filosofia, é uma forma de conhecimento, mas pelos seus meios específicos, e não por tentar emular as formas do conhecimento científico.

 
 
eu
2008-11-17 13:36:59

affz eu não achei nada aki nesse site…

vcs tem obrigação de nos dar as respostas

certas para nossas perguntas….

eu keria era analise do vocabulario

do livro marilia de dirceu

 
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