Soneto bossa nova

Postado em July 17, 2008
Categoria poesia, soneto |

Não conhecia o mar, mas já ouvia
por detrás das montanhas lá de Minas
a voz, o violão e a disciplina
de um certo João, vindo da Bahia,

que tantas coisas novas descrevia:
a beleza sem culpa das meninas,
as praias que o sol nítido ilumina,
a voz, o violão e a poesia.

Lá de Minas, eu via o Corcovado
e aprendia novíssimas tristezas,
um tênue desespero delicado.

E o que mais me ensinou João Gilberto?
Um rigor conjugado com leveza
que põe este soneto a descoberto.

Comentários

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8 Comentários »

2008-07-18 00:35:16

Recusei-me a procurar sentidos implícitos e matemáticas métricas e rímicas. Aliás, decidi que daqui em diante só lerei sua poesia assim: com os sentidos abertos e cognição destensionada. Não acredito em poesia para ser lida com ajuda de lupa e dicionários (não é necessariamente o caso da sua). Do presente soneto eu gostei simplesmente por tê-lo achado “gracioso”.

Também achei interessante o soneto abaixo, mas ele me causou a nítida impressão de poema-em-que-o-Emmanuel-quer-enganar-o-leitor, como se não fosse só aquilo. E eu procurei e não encontrei o que mais pudesse haver de significação que os meus sentidos não pudessem captar destensionados, então concluí o dito acima: que o que houver na sua poesia de captável com lupa e dicionários eu prefiro não saber. Quase como um teste mesmo, para eu entender melhor o que você escreve e o que eu acho disto.

Enfim, pensamento meu de cunho pessoal, que achei por bem dividir com você.

 
2008-07-18 00:39:06

Ah, ficou confuso. O “poema-para-enganar-o-leitor” a que me refiro é o Soneto Sem Assunto. Havia esquecido do poema da mesa entre ele e o último post.

 
2008-07-18 01:28:31

Ok, volto para fazer uma última retificação: eu até acredito em poesia para ser lida com “lupa e dicionários” (leia-se “extremamente hermética”), mas, especificamente no seu caso, quero ter a experiência da leitura desarmada.

 
Emmanuel
2008-07-18 18:43:14

Lorena,

Entendi perfeitamente o que você está dizendo, não se preocupe. Não vejo problemas nisso, pois seria tirânico da minha parte querer determinar como as pessoas devem ler a minha poesia (tirânico e megalomaníaco).

No entanto, só devo esclarecer uma coisa. Embora ninguém possa determinar como os outros lerão a sua obra, algo das intenções do artista, quando bem realizado o objeto de sua arte, serão “objetivadas”. Quer dizer que se torna possível retraçar as intenções do autor a partir de sua objetivação na obra de arte. Isso porque eu não acredito em criação absolutamente involuntária, o que não quer dizer que não haja algo de involuntário, assim como as necessidades internas do objeto artístico, as suas leis imanentes das quais o poeta deve dar conta para que a obra seja bem realizada, podem contrariar ou frustrar as intenções de seu autor.

Estou dizendo isso tudo só para fazer uma advertência. Ao fazer-se de cega para determinadas objetivações do objeto, é provável que alguns poemas, sobretudo os mais altamente racionalizados, pareçam puramente arbitrários ou aleatórios. Mas isso talvez não porque o sejam, mas porque o leitor se eximiu de decifrar o poema. Toda arte possui um elemento enigmático, umas mais do que as outras.

Um perigo dessa postura, a de não decifrar o que o poema espera de si mesmo enquanto objetivação das intenções de seu autor e de sua causalidade interna, é procurar no poema o que ele não pretende oferecer, e depois dizer: o poema falhou. É o que eu sempre falo de tentar se colocar sob o ponto de vista do poema para apreciá-lo.

O que eu acho de mais interessante na poesia, e na arte de uma forma geral, é que ela faz com que nós nos abramos para um outro, mas para nos abrirmos a ele é necessário primeiro que nós o entendamos, que nos identifiquemos com ele. Diferente disso é quando procuramos identificar a nós mesmos no outro, narcisicamente. Ou seja: esperamos que o objeto atenda às nossas expectativas enquanto nós mesmos nos recusamos a nos colocar dentro da lógica que o poema propõe.

Cada artista e cada obra de arte impõe ao leitor um modo próprio, um ponto de vista determinado para a sua recepção. É a interação entre esse ponto de vista, que a obra traz internalizado, e o ponto de vista específico de cada leitor que nós chamamos de experiência estética. Do contrário, corre-se o risco de que essa experiência se resuma a uma simples projeção do eu sobre a obra de arte, convertendo o objeto em um veículo de satisfação puramente emocional, que é a função da arte kitsch.

No final das contas, o que eu estou defendendo aqui é que, de fato, alguns poemas meus requerem uma reflexão mais armada, mais consciente, e algumas vezes se recusam deliberadamente a se submeter aos parâmetros de recepção habituais da poesia. É preciso levar isso em consideração.

2008-07-19 21:42:18

Sim, estou ciente de tudo que você falou. Apenas, como tentei deixar claro, quero submeter especificamente a sua poesia à leitura desarmada, como um teste para saber até que ponto as suas instâncias mais herméticas são realmente necessárias, impõem-se, ou se chegam a ser meras arbitrariedades que só se encontram nos poemas quando você as explica.

O fato é que, não tendo mais dialogado pessoalmente com você, seus poemas têm me soado diferentes, acho que “descontaminados” da sua autoria. Resta aproveitar isso e aprofundar esse ângulo novo, o do leitor que lê Emmanuel Santiago sem saber que se trata, por exemplo, de um poeta da minúcia.

As impressões que eu colher adiante, em contraste com as primeiras, podem ser de algum interesse.

Emmanuel
2008-07-21 16:56:32

Ok, façamos o teste. Só não sei se é possível me ler sem perceber que eu sou um “poeta da minúcia”, posto que o trabalho com a minúcia é tão evidente no meu trabalho.

(Comments wont nest below this level)
 
 
 
2008-07-19 15:02:06

Olá, Emmanuel,

Diante deste soneto resolvo ficar em silêncio. Olhando, ouvindo, gostaria de tê-lo escrito. Uma sacada, a partir dela avisto, sempre o soneto nos seus termos, feito, eu gosto, sem comentários. Bebericando em silêncio, aprecio. Mais nada.

Emmanuel
2008-07-21 16:58:42

Ludambula,

Só posso agradecer por esse elogio! Muito obrigado!

 
 
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