Picnic em Auschwitz
Postado em July 6, 2008
Categoria poesia |
Entre um cigarro e outro
a Imperatriz de Auschwitz
tomava chá com bolachas
à luz do abajour encapado
com pele de cigano, projetando
sobre as paredes encardidas
um enxame de mariposas
incendiadas.
Através da janela vê-
se um poeta crucificado
entre dois psicanalistas e
sobre o seu cadáver delicado
abelhas esclerosadas
preparam a ferrugem.
Très chic, a
Imperatriz de Auschwitz
adubava com vísceras incineradas
as flores que germinavam flácidas
entre cactos e canteiros de
arame farpado.
Ao pé da cruz, onde o limo
encharcado de sangue coagula
cogumelos e lagartas, uma doce
garotinha mastiga um pássaro,
uma garota sem cabeça.
E a Imperatriz de Auschwitz
com seus músculos de chumbo
e borracha, um corpo se con
torcendo em colapso, urrava
currada por um panzer
entre um cigarro e outro.
“Vida”
Mas, lendo agora, me ocorreu sugerir:
“Très chic, a
Imperatriz de Auschwitz
adubava com vísceras incineradas
as flores que germinavam
flácidas entre cactos e
canteiros de arame farpado.”
Questão de fluência.
Sobre o conto abaixo, ainda não estou certa do que dizer. Sei o que acho, mas não tenho as palavras certas.
Lorena,
Vendo os rascunhos do poema (e entre o primeiro deles e a sua versão final se passou mais de um ano), eu experimentei tudo o que é possibilidade de disponibilização das palavras em versos nessa estrofe, essa sua sugestão, inclusive. Curiosamente, essa estrofe foi a última a ser escrita.
Uma das coisas que me fez desistir dessa configuração que você apresentou é que os três últimos versos pareciam “derramar-se”, principalmente no caso do penúltimo verso, que me parece não ter um centro de gravitação forte para as palavras; ele aprece apenas um verso de transição, e não um verso que se sustente por si mesmo na estrutura da estrofe. É claro que essa impressão que tenho é pessoal, coisa do meu ouvido interno para poesia, que é difícil de explicar.
No entanto, vendo os rascunhos, acabei fazendo uma alteraçãozinha na estrofe, deixando-a de acordo com uma versão anterior. Trata-se da repartição do penúltimo para o último verso a partir do “de”, que antes iniciava o último verso.