O filantropo
Postado em July 2, 2008
Categoria conto |
Madrugada de sábado para domingo
Uma caminhonete branca deslizava lentamente no asfalto, como um bicho farejando a presa. Através do vidro, os travestis eram bizarros manequins numa vitrine, afetados e desproporcionais, fazendo caras e bocas — sobretudo bocas; peixes exóticos num aquário de neon. A caminhonete se aproxima de uma esquina e o vidro desce, semicerrado:
— Quanto é o programa?
— É cinqüenta o completo, bonitão.
O travesti desaparece sugado para dentro do carro.
— Prá onde a gente vai?
— Prá minha chácara; fica aqui pertinho. Aproveita a viagem.
O barulho do chiclete rodando na boca escandalosamente escarlate do travesti incomodava; ligou o rádio — música sertaneja.
— Só toca bosta uma hora dessas.
E o chiclete girando na boca do travesti, estalando molhado, dando nos nervos…
— Já chega! Cospe fora essa porra logo!
— Tá bom, calma … credo! Eu hein? Homem estressado…
Baixou o vidro e cuspiu o chiclete.
— Falta muito ainda?
— Dá prá calar a boca?!
O travesti com a boca toda pintada parecia um palhaço desesperado, desses que assustam criancinhas.
Saíram da cidade, passaram por uma porteira e pegaram uma estrada de terra cercada de mato baixo por todos os lados, chegando num galpão. Estacionou o carro.
— É aqui. Pode descer.
Desceram e entraram no galpão subitamente iluminado por duas lâmpadas fluorescentes: dois pontos de exclamação interrompendo o escuro!!
— Que lugar mais esquisito…
Com um único golpe de machado, a cabeça do travesti foi arrebentada, deixando no assoalho uma mancha pastosa parecida com batom.
Domingo de noite
Atrás da igreja, uma caminhonete branca distribuía comida entre os mendigos. No prato, uma carne rosada e macia, adocicada, boiava num caldo meio ralo, meio morno.
Persistia no ar um levíssimo cheiro de perfume barato.
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