Soneto branco

Queria o meu soneto da cor branca, todo branco, que nunca fosse negro, pois o negro é profundo, cheio de ecos e coisas das quais só se sente o cheiro. O branco não. O branco é superfície e silêncio, o suspense de um relâmpago retido na espessura de um espelho. Branco é a cor das [...]

Soneto bossa nova

Não conhecia o mar, mas já ouvia por detrás das montanhas lá de Minas a voz, o violão e a disciplina de um certo João, vindo da Bahia, que tantas coisas novas descrevia: a beleza sem culpa das meninas, as praias que o sol nítido ilumina, a voz, o violão e a poesia. Lá de [...]

Corolário da mesa (pré-genealógico)

A matéria morta da mesa nunca será flácida ou torta, dela se faz porta, cadeira e os braços daquele que a corta. A matéria dura da mesa, com sua difícil costura, é feito nervura de pedra, feito cirurgia sem cura. A matéria densa da mesa, sua arquitetura suspensa, mantém sempre tensa postura onde nunca pousa [...]

Soneto sem assunto

Escrevendo um soneto às dez e meia da noite, este soneto que é sem tema feito um ovo que é só casca, sem gema; um soneto sem sangue, só de veias. Como quem resolvesse um teorema construindo um objeto sem matéria prima, faço um soneto sem idéias. Será que este soneto é um poema? Não, [...]

Picnic em Auschwitz

Entre um cigarro e outro a Imperatriz de Auschwitz tomava chá com bolachas à luz do abajour encapado com pele de cigano, projetando sobre as paredes encardidas um enxame de mariposas incendiadas. Através da janela vê- se um poeta crucificado entre dois psicanalistas e sobre o seu cadáver delicado abelhas esclerosadas preparam a ferrugem. Très [...]

O filantropo

Madrugada de sábado para domingo Uma caminhonete branca deslizava lentamente no asfalto, como um bicho farejando a presa. Através do vidro, os travestis eram bizarros manequins numa vitrine, afetados e desproporcionais, fazendo caras e bocas — sobretudo bocas; peixes exóticos num aquário de neon. A caminhonete se aproxima de uma esquina e o vidro desce, [...]