Pierre Menard, a fraude?

Postado em June 23, 2008
Categoria crítica | 20 comentários

Salvo engano, o “Pierre Menard, autor do Quixote” é um dos textos mais citados, se não o mais citado, de Jorge Luís Borges. No entanto, ao que me parece, até agora um certo detalhe não foi devidamente levado em consideração, e esse detalhe, ainda que não mude a compreensão atual que se tem do conto, serve para relativizar algumas conclusões habituais. Em tempo: na falta do original em espanhol de Ficciones, estou me servindo da tradução, aliás muito satisfatória, de Carlos Nejar, que consegue transpor para o português algumas sutilezas do original, sem a consideração das quais este esboço de ensaio não faria o menor sentido.

No texto que abre Ficções e que antecede “Pierre Menard…”, “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, o narrador e Bioy Casares discutem “a elaboração de um romance em primeira pessoa, cujo narrador omitisse ou desconfigurasse os fatos e incorresse em diversas contradições, que permitissem a poucos leitores — a muito poucos leitores — a adivinhação de uma realidade atroz ou banal”. Esse procedimento, que costumamos chamar de narrador não confiável e que é bastante familiar aos leitores de Machado de Assis, parece-me um princípio que se deve levar em conta em “Pierre Menard…”, no qual, por trás da execução parcial e milagrosa de uma tarefa impossível, a realidade banal da fraude se insinua.

Vários são os índices que contribuem na formação de um narrador não confiável, dentre eles um certo tom irônico dissimulado que em alguns momentos se torna explícito. Isso acontece, por exemplo, quando o narrador de “Pierre Menard…” trata da figura da condessa de Bagnoregio. Sobre o marido da condessa, o “filantropo internacional” Simón Kautzch, o narrador diz ser ele “tão caluniado — ai! — pelas vítimas de suas desinteressadas manobras”. Ora, como o autor de “manobras” que causam “vítimas” pode ser considerado um “filantropo”? E como tais manobras podem ser “desinteressadas”? A palavra “vítima”, ao que se deve acrescentar a afetação da interjeição “ai!”, aponta para a legitimidade das “calúnias” que deixam de ser, por isso mesmo, calúnias. No seu ensaio “Arte de injuriar”, Borges apresenta um catálogo de procedimentos difamatórios que parecem ter sido empregados ao longo do conto.

Tratando do periódico anual publicado pela condessa, o narrador o evoca como um “vitorioso volume” a partir das palavras Gabriele D’Anunzio, um de seus colaboradores, lançado com o objetivo de apresentar “uma autêntica efígie de sua pessoa [da condessa], tão exposta (na razão direta de sua beleza e de sua atuação) a interpretações errôneas ou apressadas”. A pretexto de defender a honra de sua benfeitora, o narrador acaba colocando em evidência as acusações que atestam contra a sua integridade moral.

Ao chamar a revista de “vitorioso volume”, o narrador deixa tudo muito claro. Vemos então que a ação do conto se passa no interior de um círculo fechado, apoiado sobre o mecenato da baronesa de Bacourt e da condessa de Bagnoregio, através do qual um grupo de homens de letras tenta obter prestígio social. Trata-se de uma via de mão dupla: os homens de letras conseguem certa visibilidade ao freqüentar os salões da elite, enquanto esta pode gozar do prestígio de patrocinadora das artes e das letras. Para que essa troca se dê, no entanto, os homens de letras se vêem obrigados a defender a honra questionável da condessa e de seu marido. É de dentro desse círculo viciado que saem o narrador do conto e a sua personagem principal, Pierre Menard.

Para atestar a credibilidade do seu relato, o narrador cita o aval que lhe fora concedido pela condessa, sendo ela mesma alguém a quem não podemos dar nenhuma credibilidade. Nesse ponto, toda a confiabilidade do relato passa depender unicamente da boa vontade do leitor, mas a prudência aconselha que se mantenham todas as reservas. Logo de saída, o narrador critica o catálogo que Madame Henri Bachalier teria feito da obra de Pierre Menard, dizendo: “São, portanto, imperdoáveis, as omissões e adições perpetradas por Madame Henri Bachelier num catálogo falaz que certo jornal, cuja tendência protestante [grifo do autor] não é segredo, teve a desconsideração de infligir a seus deploráveis leitores — embora estes sejam poucos e calvinistas, quando não maçons e circuncisos”. O preconceito religioso demonstrado, ao qual se acrescenta uma nota anti-semita, é mais um índice a se somar na construção do caráter duvidoso do narrador e denuncia a sua total falta de isenção diante do que está sendo narrado.

A acusação feita contra o catálogo de Madame Bachalier tem também como função preservar o prestígio do grupo ao qual o narrador faz parte, numa tentativa de manter o monopólio sobre a obra de Pierre Menard, como atesta a seguinte passagem: “Os amigos autênticos de Menard viram com alarme esse catálogo e ainda com certa tristeza. Dir-se-ia que ontem nos reunimos diante do mármore final e entre os ciprestes infaustos já o Erro trata de empanar sua Memória…”. A retórica gordurosa da última frase, com os seus clichês detestáveis, como “mármore final”, é mais uma afetação que podemos pôr na conta desse narrador que cada vez mais se afasta do estilo habitual do autor de Ficções. Mas o que queríamos sublinhar com essa passagem é que o narrador pretende manter o exclusivismo do grupo da condessa Bagnoregio com relação aos escritos de Menard como uma espécie de espólio.

Identificado o narrador de “Pierre Menard…” como um narrador não confiável, cabe-nos agora nos determos sobre a “ação” do conto propriamente dita, ou seja: a história do esforço que Pierre Menard empreendeu na sua tentativa de escrever palavra por palavra o Dom Quixote de Cervantes sem, contudo, lançar mão de cópia ou de transcrição mecânica. Pierre Menard queria, por seus próprios meios e criação, chegar a um texto idêntico ao do Quixote de Cervantes. Antes, contudo, vale a pena dar uma olhada no perfil que o narrador constrói de Pierre Menard e na descrição de suas obras.

Se o narrador do conto não é confiável, o mesmo podemos dizer de Pierre Menard. Dentre sua produção ensaística, podemos encontrar uma invenctiva contra Paul Valéry que corresponderia ao “reverso exato de sua verdadeira opinião sobre Valéry”. Numa nota de rodapé, a respeito de “uma versão literal da versão literal que fez Quevedo da Introduction à la Vie Dévote de São Francisco de Sales”, o narrador, por não encontrar nenhum vestígio dessa obra na biblioteca de Menard, conclui: “Deve tratar-se de uma brincadeira de nosso amigo, mal-ouvida”. Outra obra do escritor seria “um artigo para enriquecer o xadrez eliminando um dos peões de torre”, no qual “Menard propõe, recomenda, polemiza e acaba por rejeitar essa inovação”. Esses elementos contribuem para a atribuição de um caráter não confiável e volúvel a Pierre Menard que deve ser levado em conta durante a leitura das passagens, citadas pelo narrador, de sua correspondência.

Numa carta escrita ao narrador, Menard explica o método pelo qual pretende concluir a sua tarefa de escrever novamente o Quixote: “Meu solitário jogo está governado por duas leis polares. A primeira permite-me ensaiar variantes de tipo formal ou psicológico; a segunda obriga-me a sacrificá-las ao texto ‘original’ e a raciocinar de modo irrefutável sobre essa aniquilação…”. A partir desse processo, Menard teria conseguido escrever os capítulos nono, trigésimo oitavo e um fragmento do vigésimo segundo da primeira parte de Dom Quixote. No entanto, o narrador não consegue encontrar um único rascunho dessas versões anteriores, aludindo a uma passagem da carta em que Menard disse ter resolvido, deliberadamente, perder as “etapas intermediárias” de seu trabalho. Numa nota de rodapé adiante, o narrador diz que o escritor costumava queimar os seus cadernos de rascunhos em seus passeios ao entardecer.

Isso nos leva às seguintes questões: será que esses rascunhos realmente existiram? Será que o conto nos leva a crer que Pierre Menard não teria escrito de fato os tais fragmentos do Quixote e que tudo não passaria de uma farsa ou de uma piada, ou ambas, criada pelo narrador do conto ou por Menard, ou ambos? Talvez sim, talvez não. Afinal, Capitu traiu ou não traiu Bentinho? O que eu queria destacar é que não há sequer um ponto seguro no texto que torne o seu enunciado confiável, pois narrador e personagem principal mentem descaradamente e repetidas vezes. Diante da teia de mentiras em que os dois se embrenham, a possibilidade de que Menard tenha conseguido, pelo menos parcialmente, cumprir o seu ambicioso projeto se torna ainda mais incrível, com toda a ambigüidade que tal palavra possa ter.

Comentários

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20 Comentários »

SHIRLEI ALVES
2008-10-23 17:01:03

Análise bastante elucidativa da obra de Borges e da natureza da relação obra, autor, leitor.

 
Emmanuel
2008-11-04 14:51:48

Obrigado, Shirley! Era tudo o que eu gostaria de ouvir.

 
J-M. Emir
2009-04-02 17:22:37

Precisa rever seus conceitos, estudar a crítica borgiana e as crítica acerca de Borges. Se vc tivesse prestado atenção na sua leitura, teria percebido que a obra de Menard está em duas categorias: a “visível” e a “invisível”. Portanto, caro ‘crítico’, a grande questão que norteia sua ‘crítica’, “será que esses rascunhos [o Quixote de Menard, a obra invisível] realmente existiram?”, é tão vazia quanto sua atenção.

Isso não era o que você gostaria de ouvir.

 
Emmanuel
2009-04-03 13:49:56

Caro J-M. Emir,

Em primeiro lugar, não acho que a enunciação de lugares-comuns da crítica borgiana e do conto moderno, como a separação entre “visível” e “invisível”, devesse impedir que outras análises sejam feitas. Se você acha que a minha análise não é pertinente, deveria contestar os meus argumentos com elementos tirados do texto, e não apenas se escondendo por trás da autoridade da “crítica borgiana e acerca de Borges”, o que é uma atitude no mínimo preguiçosa.

Em segundo lugar, não digo que estou dando a palavra final sobre o conto; apenas estou levantando uma discussão que, até onde eu saiba, ainda não foi feita. Acredito que parte da riqueza de uma obra literária está no seu poder de permitir variadas interpretações, contanto que elas não sejam contraditórias com o texto. A palavra final, portanto, é do texto. Qualquer prova ou refutação deveria partir desse princípio.

Em terceiro lugar, se tivesse lido até o final do último parágrafo, teria lido: “O que eu queria destacar é que não há sequer um ponto seguro no texto que torne o seu enunciado confiável, pois narrador e personagem principal mentem descaradamente e repetidas vezes”. O que estou dizendo é que o importante não é saber se Pierre Menard escreveu ou não o “Quixote”, mas sim que o narrador do conto foi construído de acordo com aquilo o que Henry James chamou de “narrador posto em situação”, que é quando o narrador, por estar integrado ao universo que está narrando como personagem, apresenta uma parcialidade em seu ponto de vista, seja por alguma limitação dada pelas condições, seja por ser parte especialmente interessada.

Ao perguntar: “Afinal, Capitu traiu ou não Bentinho?”, estou evocando o exemplo de “Dom Casmurro” no qual a questão da traição não importa; o que importa é a maneira como Machado de Assis constrói o seu narrador de modo que não podemos confiar nele, mas não a tal ponto que possamos descartar completamente a hipótese da traição (a respeito, cf. SCHWARZ, Roberto. “A poética envenenada de Dom Casmurro”. In – “Duas meninas”. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, pp. 7-41).

Para finalizar, gostaria de dizer que estou plenamente seguro de ter demonstrado que o narrador de Pierre Menrad apresenta um caráter não-confiável. Para refutar o meu ponto de vista, seria preciso que você fosse ao texto e dissesse em que ponto o meu argumento está em discordância com ele. Pode ser que você tenha razão, ou não; o que só saberemos se você for ao texto ao invés de apenas contrapor à minha análise a de outros críticos (sim, sou “crítico” literário, com diploma e tudo, pode conferir o meu Lattes na página do CNPq, que anda meio desatualizado, é verdade), principalmente quando tais críticos não estão tratando da mesma questão que eu.

De qualquer modo, obrigado pelo comentário!

 
Emmanuel
2009-04-03 14:28:11

Só para esclarecer mais uma coisa: o meu post não tem como objetivo ser um texto acadêmico, por isso não indico as refrências bibliográficas, dado o fato de que um texto escrito num blog se destina a uma variedade de leitores que podem ou não estar familiarizados com os protocolos acadêmicos. Citando Bakhtin, poderia dizer assim:

“Também isentamos nosso trabalho do lastro supérfluo de citações e referências que, geralmente, não têm significação metodológica direta para estudos não históricos e, num trabalho conciso de caráter sistemático, são completamente infrutíferas: elas são desnecessárias ao leitor competente e inúteis ao que não o é”.

O que não deixa de ser uma citação irônica, em se tratando do que ela diz.

 
Camila
2009-09-17 00:13:17

J-M. Emir: parece até que tens uma rixa!
que infatilidades!

 
2009-12-10 14:08:36

Ao ler este teu post estava me lembrando de um livro de Enrique Vila-Matas, Bartleby e Cia, no qual este autor cita um suposto livro, de nome “Instituto Pierre Menard”, atribuindo-o a um suposto autor chamado Roberto Moretti.
Vila-Matas afirma que este romance é uma sátira da obra de Robert Walser, “Instituto Benjamenta”. E, segundo ele, o próprio Walser, bem como Bartleby, personagem emblemática dentro da obra de Melville, são dois dos personagens deste livro, que tem como enredo um instituto onde todos os alunos são ensinados a dizer “não” a um milhão de propostas, das mais descabidas às mais tentadoras. Nada mais, além disso, acontece no romance. Ao fim, todos saem do instituto como felizes e consumados copistas.
A coisa toda fica interessante quando se tenta descobrir alguma coisa sobre a existência tanto do livro quanto do autor citado por Vila-Matas e se descobre que não há simplesmente nada em canto algum atestando a existência (ou inexistência) de ambos.
É sabido, pelo boca do próprio Vila-Matas, que há neste seu livro pelos menos uma meia-dúzia de escritores inventados (mas nem por isso inexistentes) aos quais ele faz referências veladas, utilizando-os como uma espécie de código secreto e muito sutil como se quisesse que poucos leitores – muito poucos leitores – tivessem acesso às verdadeiras imagens que ele cria com essas suas referências veladas.
Gostaria se já leu este romance e, caso seja positiva a resposta para esta pergunta, se conseguiu inferir isso a que me referi ou algo parecido.
Até mais ler.
Grato.

P.S.
Peço perdão por minha péssima gramática e sintaxe. Ainda não estou muito adaptado a escrita com palavras.

2009-12-13 06:14:03

Carlos Soares,

Não conheço esse romance, mas procurarei lê-lo, pois certamente acrescentará algo às reflexões que venho fazendo ultimamente de como Borges sintetiza certas tendências da literatura e do pensamento do século XX.

Muito obrigado pelo comentário e pela dica do romance!

 
 
2009-12-16 10:25:28

“Eu quero mais é que Emmanuel cante!”

Disponha, meu camarada.
Eu estive lendo O Aleph e também estava tendo uma sacadas nessa direção para qual – assim me parece – você aponta teus esforços.
Na verdade existe um outro romance de Vila-Matas que se faz “complementar”, por assim dizer, ao primeiro romance que mencionei. O nome do segundo livro é “O mal de Montano”. Ambos saíram pela Cosac & Naify.
Bem, gostaria de ler as outras partes dos estudos que você está desenvolvendo. Embora eu tenho sido alfabetizado tardiamente e, por conta disso, só tenha tido acesso tido contato com o conhecimento acadêmico formal após uma longa jornada por outras paragens, acho que posso, além de aprender com teus ensaios, ajudar de alguma forma.
É… acho que é mais ou menos isso.

Até mais ler e abraços.

 
2010-07-28 20:40:58

nations uncertain shelf

 
 
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