Borges, autor do Quixote
Postado em June 2, 2008
Categoria crítica |
O Dom Quixote, de Cervantes, é uma sombra constante a rondar os labirintos e os jogos de espelho da obra de Borges; sua presença é igualmente perceptível na produção ensaística do escritor argentino. Não estou falando apenas do conto “Pierre Menard, autor do Quixote”, nem do despojamento estilístico que Borges identificou em Cervantes e que parece lhe servir como modelo de expressão em contraposição a uma suposta “ética supersticiosa” do leitor e do escritor modernos. Na verdade, o que quero dizer é que grande parte daqueles procedimentos que costumamos classificar como tipicamente “borgianos” já estão prefigurados, em diferentes graus de desenvolvimento, naquele que é considerado como o primeiro romance moderno da literatura ocidental. No entanto, Borges não se limitou a reproduzir esses procedimentos, mas os transformou em princípios estruturais de sua ficção — aquilo o que em Cervantes aparece como um elemento subordinado à ação, Borges transforma no motivo da ação de seus contos.
Veja-se o exemplo do capítulo VI da primeira parte de Dom Quixote, quando o cura e o barbeiro, preocupados com a saúde mental do cavaleiro de triste figura, fazem uma seleção de quais livros deveriam ser queimados ou preservados na biblioteca de seu amigo; cada livro examinado pelo cura é acompanhado por um comentário pelo qual se procura justificar a sua condenação ou absolvição a partir de considerações estéticas e morais. De um modo geral, tratam-se de livros de cavalaria, mas há muitos outros de gêneros variados.
Esse tipo de “crítica literária” (crítica feita através da literatura), não necessariamente um caso de crítica de literatura, aparece em outros momentos do livro, mas sempre como um apêndice da ação; uma ação que se dá a partir de uma estrutura episódica, não linear, ainda que cronológica. Em Borges, no entanto, o comentário literário torna-se a própria espinha dorsal da ação, converte-se em princípio de organização do enredo, transformando o conto no pastiche de uma resenha ou de um ensaio erudito, com ar diletante. Isso ocorre, por exemplo, em “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, em “Pierre Menard, autor do Quixote” e em “Exame da obra de Herbert Quain”.
Outro expediente tipicamente borgiano que encontramos no Dom Quixote é o arrolamento de uma série de fontes bibliográficas das quais o romance de Cervantes pretenderia ser uma transcrição fiel; essas fontes, obviamente, são tão ficcionais quanto todo o resto do livro. Embora tenha sido herdado das narrativas tradicionais, nas quais serve para coroar com a autoridade da tradição o que está sendo narrado, e amplamente disseminado na ficção posterior, para criar um “efeito de real”, esse procedimento é utilizado de forma bastante peculiar em Cervantes. No capítulo IX, a interrupção abrupta da ação do episódio anterior é justificada pela incompletude do relato no qual Cervantes estava se baseando, situação que só viria a ser sanada com o encontro fortuito de uma versão em árabe da história de Dom Quixote.
Vemos que, além de sua intenção irônica de querer inscrever os feitos de sua tresloucada e ridícula personagem nas páginas da História, espaço até então reservado para os grandes homens, Cervantes utiliza o comentário sobre suas supostas fontes bibliográficas como um recurso para reter a ação, somando-o a vários outros recursos empregados no controle do ritmo narrativo. Entre aqueles que empregaram esse mesmo procedimento de maneira original e inventiva, poderíamos dizer que de maneira igualmente irônica, estão Poe e Henry James.
No entanto, é Borges, em “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, que leva esse procedimento às últimas conseqüências. O conto apresenta uma personagem narradora que, através de uma conversa casual com um amigo, toma conhecimento de um país desconhecido, chamado Uqbar, citado numa enciclopédia. Dentre as informações apresentadas no misterioso verbete, que mais parece um acréscimo na versão original da enciclopédia, está que toda a literatura de Uqbar se passa nas regiões imaginárias de Mlejnas e Tlön. Casualmente, como acontece com o “autor” de Dom Quixote com relação ao manuscrito árabe, chega às mãos da personagem o décimo primeiro volume de A First Encyclopaedia of Tlön, a enciclopédia do mundo imaginário criado pelos habitantes de Uqbar, na qual estão descritos, dentre outras coisas, as línguas faladas em Tlön e os seus sistemas filosóficos. Descobre-se mais tarde que o próprio país de Uqbar havia sido inventado por uma ordem secreta chamada Orbis Tertius.
Se Cervantes pretende, ironicamente, simular a factibilidade histórica de sua personagem através da invenção de fontes historiográficas, a personagem de Borges nos descreve, em forma de paráfrase, o sistema filosófico criado pelos homens de um mundo inventado pelos habitantes de um país imaginário. Cervantes, a propósito de atestar a veracidade de sua fantasia, faz do real um blefe no jogo da ficção, expandindo e estirando os seus limites externos; Borges, por sua vez, explora os limites internos da ficção, fazendo-a dobrar várias vezes sobre si mesma, numa espiral em movimento contínuo e centrípeto.
Outro expediente tão ao gosto de Borges é o do duplo, ou da duplicação. Temos o exemplo óbvio do conto “O outro”, em que um Borges nonagenário encontra Borges aos vinte anos de idade, ou a confusão entre criador e criatura em “Ruínas circulares”. Em Dom Quixote, temos a personagem do cura criticando a obra La Galatea, de seu próprio autor, Cervantes, a quem define como um grande amigo; mais surpreendente, entretanto, são os episódios da segunda parte em que Dom Quixote e Sancho Pança se deparam com os vestígios da passagem de seus duplos, saídos da obra de Avellaneda que escreveu, digamos, uma continuação apócrifa da primeira parte de Dom Quixote. Quixote e Pança chegam a se encontrar com Dom Álvaro Tarfe, personagem saída do Quixote de Avellaneda, a quem conseguem convencer serem eles os “originais”.
Os procedimentos tomados da obra de Cervantes, em Borges, servem a outros propósitos e são usados em sentido diverso ao de sua concepção original, e essa diferença constitui-se, por si só, motivo de interesse para a crítica literária. Porém, não é o meu objetivo levantar essa questão neste espaço. Contentemo-nos, por ora, com a seguinte conclusão: muitos dos procedimentos que formam o caráter particular e original da obra de Borges podem ser encontrados, em alguma medida, no Dom Quixote, onde assumem uma função subordinada à ação do romance; na ficção borgiana, ao contrário, esses procedimentos são integrados à engenharia narrativa, passando então a ação a se desenvolver a partir deles, motivada por eles.
Puxa Emmanuel, eu precisava vir aqui mais vezes. Estou em dívida com minha própria leitura! Outra coisa que preciso fazer mais é ler Borges. Por sinal, o Pierre Ménard foi o primeiro conto que li dele, se é que dá pra chamar de conto. Achei tão estranho, tão inventivo, que nunca esqueci, li as Ficções com um prazer enorme, depois, não sei por quê, abandonei sua obra. Está mais do que na hora de voltar.
Diego,
Borges é sempre uma experiência única. Vale a pena lê-lo, relê-lo, enfim, lê-lo sempre! Para mim, o “Ficciones” é o melhor livro do Borges, mas qualquer outra coisa dele em prosa ainda é excelente.