Pierre Menard, a fraude?
Salvo engano, o “Pierre Menard, autor do Quixote” é um dos textos mais citados, se não o mais citado, de Jorge Luís Borges. No entanto, ao que me parece, até agora um certo detalhe não foi devidamente levado em consideração, e esse detalhe, ainda que não mude a compreensão atual que se tem do conto, […]
As texturas do verde
Observe essa pêra
sobre a mesa, observe
sua casca transparente
(invólucro cristalino)
e a polpa descarnada,
sem espessura,
onde a mordida
resvala no vazio de um verde
oco, cor sem coisa: simulacro.
Um verde diverso
do verde venoso do rio
que corta a minha aldeia,
o Rio Verde, de um verde
que se alimenta na lenta
voragem do limo.
Não o destilado verde
marinho, relâmpago
numa esmeralda, mas
o verde […]
Furor parnasiano
Eu sou a Musa Impassível,
a Virgem de amianto
impermeável ao sôfrego
fogo das tuas entranhas.
Dos meus seios, jorram
cascatas de mármore,
arquiteturas, estátuas
de antigos deuses
mutilados, mas
nenhuma gota
que aplaque a súplica
dos teus lábios ávidos.
Contra um cinto de castidade
forjado no bronze, a frio,
os teus dedos se deflagram
no meu corpo seminu;
é inútil! Trouxeste
a chave (de ouro)?
Eu, a Musa Impassível,
estéril e etérea, um […]
Borges, autor do Quixote
O Dom Quixote, de Cervantes, é uma sombra constante a rondar os labirintos e os jogos de espelho da obra de Borges; sua presença é igualmente perceptível na produção ensaística do escritor argentino. Não estou falando apenas do conto “Pierre Menard, autor do Quixote”, nem do despojamento estilístico que Borges identificou em Cervantes e que […]