Mais um pré-genealógico
Postado em May 23, 2008
Categoria poesia, pré-genealógico | 3 comentários
Dama-da-noite
A dama-da-noite
incendeia a lua,
a lua cheia.
Tem o perfume
da pêra madura,
o cheiro fecundo
do esperma.
Dama das noites,
das noivas,
das lésbicas,
prostitutas,
flor.
O sabor da noite
é licor de frutas
cítricas.
Gostei muito desse. Não é “espetacular”, para falar como o Rômulo. Tem um tanto daquela “vida” que às vezes reclamamos mais à sua poesia.
Respondi ao comentário no meu blog.
Lorena,
Quero aproveitar a oportunidade que você me deu para expressar em público (a meia dúzia de pessoas que me lêem, se muito), a minha opinião sobre essa questão da falta de “vida” na minha poesia.
Em primeiro lugar, tenho uma vaga intuição do que as pessoas querem dizer ao identificar “vida” num poema e em outro não. Ou muito me engano, ou poemas como “Entropia”, “Uma lira para Marília”, “Igreja do Pilar”,”Eucaristia”, “Soneto piedoso”, entre alguns outros, satisfazem esse desejo por vida (se é que alguém sabe o que é vida). Disso tiro algumas conclusões:
1) Há um preconceito disseminado contra os poetas construtivistas. Isso é um fato. Embora a alguns possa parecer que a academia os indosse (os poetas construtivistas), é pura ilusão. Só há, talvez, no “cânone” da poesia brasileira, um único exemplar dessa espécie: João Cabral. Os concretistas ainda são um ponto polêmico e, certamente, são os grandes responsáveis pelo preconceito que a maioria dos leitores brasileiros nutre contra os construtivistas, justamente por terem transformado a poesia numa aplicação de conceitos teóricos.
A maioria dos leitores, ainda que inconscientemente, não consegue conjugar racionalidade e poesia, acha que a poesia só se manifesta lá onde a razão cala, ou onde ela reclama baixinho atrás da porta, como mulher de malandro nas músicas do Chico Buarque (todas as mulheres são mulheres de malandro na obra do Chico, o que faz ressoar Nelson Rodrigues: “toda mulher gosta de apanhar, só as neuróticas reclamam” – algo assim). Imagina-se que do trabalho sistemático e metódico não pode sair nenhuma beleza.
Acontece que, para mim, a beleza só vem depois de um longo trabalho de sedimentação e elaboração. Tudo o que eu escrevo de improviso é imprestável, e cada conquista minha dentro de um poema é o resultado de uma luta. A poesia simplesmente não flui de mim, nunca, por mais que eu o quisesse; é preciso arrancá-la à força de onde quer que ela esteja. Parte dessa dificuldade vem do fato que eu tento contornar todos os clichês da poesia sentimental, que é o lugar “natural” onde todo poeta se encontra ao iniciar um trabalho, portanto se faz necessário desautomatizar a linguagem.
Essa minha recusa ao sentimental não é um obstáculo inútil que eu criei para mim mesmo, trata-se de um gosto pessoal, pois acho que a poesia de índole romântica já deu o que tinha que dar, tornando-se uma pilha de tralhas inúteis de onde, vez por outra, brota uma flor, como a flor de lótus que brota em meio ao pântano. Essa flor para mim é mérito do poeta que, apesar de todo o ranço romântico, conseguiu produzir algo de original, mas essa originalidade é sempre contingente, na minha opinião.
O que me faz pensar que, se eu não tivesse postado comentários a respeito de alguns poemas meus, talvez poucas pessoas tivessem pressentido o furor paranasiano por trás deles. O meu método criativo, ao meu ver, contaminou, diante dos olhos dessas pessoas, o resultado final, o produto. O que me leva à segunda questão:
2)O preconceito contra o poeta construtivista estende-se à poesia metalingüística. Nunca alguém diz de um poema metalingüístico que ele tem vida, por melhor que seja ele – estou generalizando, é claro. Isso porque se considera, e isso não faz o menor sentido, que a poesia não pode ser o assunto da poesia! Sei que não é tão simples assim. Na verdade, como se considera que a poesia não pode surgir de uma criação metódica, um poema que revele ou espelhe de alguma forma esse método não pode ser considerada como verdadeira poesia.
Não consigo entender, pois eu vibro, gozo, quando leio os poemas metalingüísticos de um Cabral, de Paulo Henriques Britto. Para mim, eles são cheios de vida. O mesmo não contece com os poemas metalingüísticos de alguns poetas concretistas, porque para mim não basta que o poema seja metalingüístico para que eu o considere bom. O fato de haver leitores para Cabral e para o Britto serve para relativizar essa visão geral contra a qual estou argumentando agora.
Reparo que quando alguém classifica os meus poemas entre os vivos e os não vivos geralmente traça uma linha divisória entre os meus poemas metalingüísticos e os que não o são.
3)Poesia não é vida, e vida não é poesia. Quando quero vida, fecho o livro e vou fazer outra coisa. Não dá para querer substituir a vida real pela ficção. Quando sento-me diante de um livro, quero algo diferente, algo que só a poesia pode me dar, mas que não se confunde com escapismo. Acredito que há coisas que só a poesia pode dizer com relação ao mundo, é isso o que eu procuro encontrar. O que a vida pode me ensinar sobre o mundo, pretendo aprender vivendo.
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