Mais um pré-genealógico
Dama-da-noite
A dama-da-noite
incendeia a lua,
a lua cheia.
Tem o perfume
da pêra madura,
o cheiro fecundo
do esperma.
Dama das noites,
das noivas,
das lésbicas,
prostitutas,
flor.
O sabor da noite
é licor de frutas
cítricas.
Dueto com João Cabral
A concretude do cantar
se comprova na procura
da palavra-coisa,
na concisão da coisa em si
que se resume a seu resumo,
a seu sintético sumo.
A língua lima o canto
áspera e à espera do que é bruto.
Que o verso reste sempre sóbrio
se despojando do que nele
seja luxo ou nulo, oco
por dentro e por fora.
Por isso escuto atentamente
o canto […]
A (re)invenção do fogo
Se penso “fogo”, logo
atravesso o avesso
dessa idéia, penso
coisas fluidas, como
a flama e a chama
que se derrama
sobre a brasa.
A idéia se delineia
ao contrário, logo
se penso “fogo”, penso
coisas espessas, como
a fibra flamejante
que se deflagra
num incêndio.
E se penso “fogo”,
logo penso apenas
coisas suspensas, como
o embaraço das labaredas
que se rebelam
ao revés do vento
(reinvento o fogo).