Igreja de São Pedro, Mariana

Postado em April 28, 2008
Categoria poesia | 2 comentários

Vista de noite, a
Igreja de São Pedro
mais parece uma esfinge
decapitada, mas assim que o sol
desata os nós da neblina, nada
evoca a equívoca imagem
de um enigma.

A fachada, virgem
de qualquer tinta, lembra
a argila fresca que pulsa
em certas frutas, como a manga
quando dentes e lábios a dissecam.

Por isso, por essa carne
conflagrada, em tudo
esta igreja se diferencia
de um ovo, da brancura
impermeável de um ovo,
da casca de um ovo
que no seu oco
oculta a coisa
que é o próprio ovo.

Lá dentro, eis o altar
lavrado na madeira sem
o pó dourado que se desfaz em pus
aos pés dos santos. Aliás, o ouro
que se vê aqui transborda límpido
das janelas, mas não se entranha
nas coisas, contaminando-as
com a varíola do seu amarelo,

ao contrário: esse ouro
que explode pelas janelas
não como pó, mas como jorro,
inunda toda a igreja, lavando
o altar, revestindo-o
com o fulgor da seda.

As paredes, de tão claras,
parecem dissolver-se no açúcar
das nuvens, e de fato aqueles que entram
pensam tratar-se de um templo pairando
sobre as montanhas, transparente.

Descobre-se, afinal, que
o que a São Pedro contém
é o lado de fora
do lado de dentro, como
dentro de um espelho, como um sonho
que se desentranhasse de outro sonho,
o mesmo sonho.

Comentários

RSS feed

2 Comentários »

Vinícius
2008-05-03 22:51:18

Este é um de meus favoritos. Como o “Origami”, desdobra-se inteiro em suas possibilidades, e mesmo não descrevendo (no sentido estrito da palavra) a igreja de São Pedro, fico como se a visse por inteiro, como vi semana passada a Catedral da Sé.

Acredito, aliás, que seus maiores sucessos se dão quando há inspiração demandada de um lugar ou um objeto específico. Um poema como o “Genealogia Persa” impressiona-me principalmente pelas expressões que constroem o tapete ao longo do poema, como que o encantando.

Quando esta materialidade construída pelas palavras encontra-se com a representação de abstrações e realidades (quem as saberá distinguir?) diversas da poesia-em-si, da metalinguagem, se dão os momentos mais sublimes de sua poesia. Por isso, talvez, gosto tanto do “Igreja do Pilar”.

Emmanuel
2008-05-04 12:12:16

Putz! Só me resta agradecer o comentário… Obrigado!

 
 
Nome (obrigatório)
E-mail (obrigatório - não será publicado)
URI
Seu Comentário
Você pode usar <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong> em seu comentário.