Igreja do Pilar, Ouro Preto
Postado em April 22, 2008
Categoria poesia |
Pisar na Igreja do Pilar
é romper a finíssima nata
das sombras que encobrem
a entrada de um mistério.
Dentro da igreja, gangrena
o ouro, um ouro escuro
e encarnado (encardido),
cujo amarelo macilento
não alimenta o teu corpo
ávido de cor (de azul, talvez).
Tudo aqui, desde o ar
salobro e insalubre,
visa apenas o espírito
— espirais em torno do etéreo —.
Portanto, de nada adiantaria
sorveres um fiapo de luz
desse dourado esmaecido,
pois a esquálida claridade
sequer dissiparia
a tua claustrofobia.
Nesse silêncio solene
só se tolera o sonolento sussurro
da tua oração, que o sagrado
é como o cristal trincado:
qualquer coisa o quebra.
Que choro ou grito humano
atravessaria o espesso
desse espaço subterrâneo?
Das rarefeitas alturas
dos altares, onde dançam
num denso torvelinho
de incenso, os santos
suplicam em silêncio:
“Rogai por nós, pecadores,
agora e na hora
de vossa morte.”
(santos e anjos jejuam
enjoados de ser, dão o exemplo
de uma fome implacável
cultivada no além-séculos)
E a chama de um círio solitário
derrete no escuro, diluindo
em aquarelas de quaresmas
as pétalas das flores,
flores de velório.
O espírito se fez mais espesso
que o corpo e o corpo, transparente
na Igreja do Pilar. Amém.
Quero rezar nas igrejas de Minas
Entrar nas suas horas santas
Aquelas mulheres que se reúnem
nas tardes As naves Portais
Uma “Santana Mestra” na matriz de Tiradentes
A mãe pedagoga para Nossa Senhora
Com um livro no colo
Emanuel, foi isto que me suscitou a leitura de seu poema, um retorno à infância, olhar para afrescos no forro, uma ida a Ouro Preto com meu pai
A viagem a São João d’El Rei para lançar um livro e o poeta Eric Ponty escrevendo sobre Portinari. Minas para mim é mais que um retrato na parede, Minas sou eu.
Ludambula,
É difícil afastar-se de Minas, principalmente estando longe. De fato, tais poemas surgidos das minhas experiências com a ambientação mineira só me foram possíveis escrever depois de já algum tempo instalado em São Paulo. Mesmo assim, ainda tenho brigado com um poema ligado a experiências ainda mais profundas ligadas à minha infância e adolescência numa cidade do sul de Minas. Preciso de distância no tempo e no espaço para elaborar tais experiências e, quanto mais profundas, mais tempo.
Obrigado pelo comentário!