Os predestinados ao labirinto
Postado em April 14, 2008
Categoria reflexão |
Dentre as causas secundárias que teriam contribuído para uma baixa eficiência na pregação do evangelho em seu tempo, o padre Antônio Vieira, no “Sermão da sexagésima” — tecido a partir da parábola evangélica do semeador —, apresenta duas que nos interessam particularmente; uma delas da conta do ouvinte, a outra do pregador. Invertendo a ordem original da argumentação no sermão, tratarei primeiro daquela que diz respeito ao pregador. Segundo Vieira, o estilo cultista dos pregadores de seu tempo fazia com que estes compusessem um verdadeiro “xadrez de palavras” em seus sermões, dificultando assim o entendimento do que diziam — “É possível que somos portugueses, e havemos de ouvir um pregador em português, e não havemos de entender o que diz?”. Antônio Vieira defendia um estilo claro e direto, muito próximo do ritmo natural da conversação, para que o signo verbal não se tornasse turvo ao entendimento e para que o esmero estilístico não tomasse o lugar daquilo o que realmente importava: transmitir as supostas palavras de seu deus.
Em outras palavras, a letra da mensagem não deveria se sobressair ao seu espírito, para falar como santo Agostinho, ou, segundo a terminologia desenvolvida por Suassure, o significante não deveria prevalecer sobre o seu significado; ou ainda: o signo não deveria ser tomado em sua materialidade morfológica, fonológica e sintática, mas apenas como um meio transmissor cristalino para um conteúdo semântico, esse sim tido como relevante. Já na versão cultista do evengelho de João, o verbo engole o deus.
Da parte do ouvinte, retomemos a parábola do semeador. O semeador saiu a semear; uma parte de suas sementes caiu à beira do caminho e as aves a devoraram; outra parte quedou-se entre as pedras; outra parte, entre espinhos; uma outra, no entanto, encontrou terra boa, cresceu e frutificou. A semente seria a palavra do deus cristão, enquanto os diferentes lugares onde caíram as sementes representariam os tipos de ouvintes com os quais o pregador se defrontaria durante o sermão. Dentre estes, Vieira destaca que os piores seriam os ouvintes de vontade endurecida como pedras e os de entendimento agudo como espinhos. Segundo ele, “os ouvintes de entendimentos agudos são maus ouvintes, porque vêm só a ouvir sutilezas, a esperar galanterias, a avaliar pensamentos e às vezes também a picar quem não os pica”.
O pregador cultista, portanto, amante dos torneios sinuosos da sintaxe e da dialética vertiginosa das antíteses, seria aquele que semeia entre espinhos, embora as sementes nascidas entre os espinhos, de acordo com a parábola evangélica, não vingassem, ainda que chegassem a frutificar.
Num salto sobre a alegoria, agora imaginemos que o semeador/pregador é o poeta. Eu sou aquele que semeia entre espinhos, mesmo sabendo que a semente que entre eles frutifica nunca se converterá em pão. Se tu me pedires um pão, eu te darei uma pedra; se me pedires um peixe para aplacar a tua fome, eu te darei uma serpente. Mas antes, contudo, é preciso que o semeador se eduque pela pedra e aprenda com os espinhos a lição das facas; é preciso que o semeador experimente a textura intratável das pedras e a elegância penetrante dos espinhos. É preciso habitar entre os espinhos e, com as mãos sempre nuas, tecê-los em filigranas e arabescos, como numa roseira, e se tu me pedires uma rosa, então eu te darei uma guirlanda de espinhos. A este Poeta, resta o consolo de saber que algumas pessoas trazem em seus ventres entranhas de espinhos nas quais já é possível semear; a esses poucos, Nietzche chamou de os predestinados ao labirinto.
E sobretudo, diante da constatação de que a atmosfera do poema tornou-se rarefeita demais para que nela reste algum vestígio de experiência humana, lembrar-se das seguintes palavras do filósofo alemão: “É necessário ser superior à humanidade em força, em grandeza de alma — e em desprezo…”.
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